País está próximo de esgotar excedente de energia

02/05/2007
Para Silvio Roberto Areco Gomes, diretor de geração da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) - a principal geradora do estado de São Paulo e terceira maior do Brasil -, as curvas de oferta e demanda de eletricidade se cruzarão já a partir de 2008. `Desde o fim do apagão, a oferta de energia cresce em ritmo bem inferior ao do consumo. E agora, cinco anos depois do racionamento, estamos quase chegando a um ponto de equilíbrio`, afirma. Na visão de Gomes, o equilíbrio entre oferta e demanda se dará exatamente a partir do segundo semestre de 2008. `Antes disso, ainda haverá sobra (de energia). Depois, teremos um cenário de equilíbrio caminhando rapidamente para a administração de falta de energia`, prevê o diretor de geração da Cesp, companhia que tem uma potência instalada de 7,455 mil megawatts (MW), oriunda de seis hidrelétricas. Gomes traça um quadro pessimista para o setor de geração, mas, mesmo assim, não cita as palavras `apagão` e `racionamento`. Para ele, porém, o problema de escassez de oferta será combatido sobretudo com o aumento gradual do preço da eletricidade, que funcionará como inibidor do consumo. Ou seja, mesmo que não haja uma determinação oficial o governo para a realização de um novo plano de racionamento energético, os consumidores serão levados a reduzir naturalmente o tempo de uso de chuveiros (responsável por 25% do consumo eletricidade nas residências), máquinas de lavar roupa, ar-condicionado, entre outros aparelhos que têm peso importante na conta de luz - comportamento parecido poderá ser visto nas outras classes de consumo além da residencial, como a comercial e a industrial. Segundo Marcelo Parodi, sócio da comercializadora Comerc, hoje o Brasil conta com 54 mil MW médios de energia assegurada, para um consumo de cerca de 50 mil MW médios. `Ainda temos 4 mil MW de folga no sistema, o suficiente para mais de dois anos de crescimento de consumo`, calcula. `Levando-se em conta a instalação de novas usinas (sem restrição para a construção) e um crescimento no consumo de energia de 4% ao ano, o ajuste entre demanda e oferta ocorrerá entre 2010 e 2011`, completa Parodi, que para esse cálculo considerou um cenário otimista para a geração de energia oriunda de termelétricas a gás natural. `Mesmo se tivermos períodos hidrológicos desfavoráveis, havendo uma farta disponibilidade de gás (a partir da produção doméstica e importações, incluindo o Gás Natural Liquefeito), o País terá condição de atender à demanda até 2010-2011`, observa. A partir desse período, de acordo com o sócio da Comerc, será necessário a entrada em operação dos `grandes projetos estruturantes`, como as centrais hidrelétricas do Rio Madeira (RO), cuja construção ainda depende da liberação de licenças ambientais. `Esses projetos, além da retomada da usina nuclear de Angra 3, darão novamente uma grande folga de energia no sistema e garantirão a segurança de abastecimento a longo prazo`, ressalta Parodi. De acordo com Paulo Mayon, diretor presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), a folga de energia existente após o período de racionamento está sendo consumida pelo crescimento econômico. `O hábito de poupar não se arrefeceu, mas a demanda sobe por conta do pequeno crescimento econômico no período, explicado pelo aumento das expansões de setores exportadores de commodities eletrointensivas, como mineração, siderurgia e petroquímica`, diz Mayon. Na região Norte, de acordo com o presidente da Anace, esses setores consumiram 7,6% mais de eletricidade em 2006 na comparação com 2005. Segundo previsão do dirigente da Anace, a oferta de energia se ajustará à demanda em 2010, quadro que poderá ser antecipado para 2009 caso os `bons ventos do cenário mundial continuarem soprando`. Mayon não chega a ser tão pessimista quanto o diretor de geração da Cesp, mas, ao fazer a comparação com o período de racionamento obrigatório, aponta uma constatação nada animadora. `Atualmente, o espaço para ações que resultem em maior economia no uso de energia é bem menor do que na época do racionamento`, alerta o presidente da Anace. Hoje, é difícil, por exemplo, não encontrar em prédios públicos e residências brasileiras as chamadas lâmpadas econômicas, artigo raro no País antes da ocorrência do apagão. No próprio discurso de encerramento do racionamento obrigatório, o então presidente da República Fernando Henrique Cardoso atribuiu ao `povo brasileiro` o sucesso do plano para economizar energia. `Você apagou a luz e iluminou o Brasil`, disse FHC em seu discurso divulgado em cadeia nacional. Segundo o consultor Humberto Viana Guimarães, a atual situação do setor de geração de energia é `crítica` e o Brasil só não está vivenciando um outro racionamento por duas razões: `baixo crescimento da economia e um regime de chuva bastante favorável, que permitiu o enchimento dos reservatórios das hidrelétricas`. `Não vejo um panorama folgado (entre oferta e demanda) antes de 2012, tempo necessário para a construção dos empreendimentos que darão sustentação ao sistema energético`, afirma. Levantamento feito por Guimarães, com base nos dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mostra que houve uma redução da potência instalada nos atuais projetos energéticos em construção - já outorgados e que não têm nenhuma pendência no que se refere à licenças ambientais ou outros trâmites burocráticos. No período de quase um ano (entre maio de 2006 e abril de 2007), apesar do número de empreendimentos em construção ter saltado de 72 para 80, a potência instalada diminuiu em uma média de 8,5%, influenciada pela redução no número de projetos direcionados a construção de usinas hidrelétricas. `No período de um ano, deveríamos ter tido uma acréscimo de potência dos empreendimentos em construção no Brasil de no mínimo 5% e o que observamos foi exatamente o contrário`, compara o especialista do setor. Para Guimarães, quem tiver energia para vender num futuro próximo vai ter bons lucros. `Que ninguém se surpreenda em ver o megawatt-hora, que hoje está cotado em R$ 150 (no mercado livre), ser negociado com valores acima de R$ 400`, prevê o consultor. FONTE: Gazeta Mercantil 2/5/2007