RITMO PREOCUPANTE

26/03/2008
Mesmo sem identificar aumento no número de calotes, o ritmo acelerado do crescimento do crédito no país preocupa porque pode estimular um consumo ainda maior das famílias e exigir uma elevação dos juros pelo Banco Central (BC) para conter uma possível alta de preços, segundo economistas ouvidos pelo Correio. Em fevereiro, os empréstimos concedidos para empresas e pessoas físicas totalizaram R$ 957,581 bilhões, ou 34,9% do PIB — o maior percentual desde maio de 1995 (35,1% do PIB). A expectativa da autoridade monetária é de que o volume de crédito apresente expansão entre 20% e 25% este ano, atingindo algo em torno de 40% do PIB.

Apesar da perspectiva de desaceleração da concessão de empréstimo neste ano em relação a 2007, quando foi registrada uma elevação de mais de 27%, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se reúne hoje com vários banqueiros do país para discutir o assunto. A questão é que ninguém quer passar por algo semelhante ao que está sendo visto nos Estados Unidos, onde os calotes de crédito imobiliário de alto risco (subprime) provocaram turbulências em economias de todo o planeta.

Na avaliação da economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli, o ritmo acelerado dos empréstimos pode fazer com que o BC eleve os juros — atualmente em 11,25% ao ano — para conter a atividade econômica e, conseqüentemente, evitar o descasamento entre oferta e demanda. Isso porque o crédito é que tem sustentando o consumo das famílias. `O problema não é o patamar, mas a velocidade de expansão do crédito. Isso pode se tornar uma preocupação`, destaca. O economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, acrescenta que já está ocorrendo falta de produtos por conta da forte demanda estimulada pelos empréstimos, mas só não está havendo aumento de preço devido àelevação das importações. `Há um risco de oferta`, destaca Campos Neto.

Nos últimos dias, a equipe econômica demostrou preocupação com o aumento do crédito, principalmente no financiamento de veículos. O temor estava relacionado às operações de longo prazo. Existem bancos que fazem empréstimos de até 99 meses para a compra do carro zero. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, chegou a cogitar uma limitação do prazo, porém, recuou. Números divulgados ontem pelo BC mostram que o prazo médio de pagamento de empréstimos para pessoa física atingiu 447 dias — o maior desde julho de 1994. No caso dos veículos, esse período sobe para 594 dias. Na avaliação do chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, o prazo, assim como os empréstimos, estão compatíveiscom o crescimento, acima de 30%, das vendas de carros.

Ampliação Lopes disse, no entanto, que há espaço para o crédito se ampliar pois ainda é muito baixo na comparação com outras economias (veja quadro). `O problema não é ter crédito corresponde a 40% do PIB, mas o ritmo de aumento. Acredito que crescer 20% ao ano é razoável para a economia brasileira, que tem uma base de crédito baixa. A taxa de expansão é menor quando se tem base maior. Espero uma acomodação este ano`, afirma.

Para ele, a taxa de crescimento tem sido `confortável` porque a inadimplência continua estável. No mês passado, foi de 4,3%. `Esse é o indicador de saúde. Não dá para dizer que existe um problema aparente`, destaca. Lopes ressalta, no entanto, que inclusão de novas classes sociais no sistema financeiro exige atenção especial dos bancos, pois esses clientes têm históricos desconhecidos.

Repórter: Edna Simão

Fonte: Correio Braziliense

26/3/2008.