Lula quer encerrar disputa do gás

25/02/2008
Na primeira reunião do grupo de trabalho formado por ministros da Argentina, Bolívia e Brasil para discutir a falta de energia na região, o governo brasileiro vai cobrar informações sobre produção e necessidades de cada país. Durante visita a Buenos Aires, entre sexta-feira e sábado, para discutir o problema, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou de informações desencontradas e insistiu que o grupo precisa pensar em ações de médio e longo prazo e não se restringir a necessidades imediatas, como a que levou a Argentina a pedir que o Brasil cedesse parte dos 31 milhões de metros cúbicos de gás que importa da Bolívia. O Brasil negou o pedido e, segundo integrantes da comitiva brasileira, Lula quer encerrar o assunto.

Em reunião com os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e da Bolívia, Evo Morales, no sábado, Lula insistiu que não é possível discutir a falta de gás e as carências energéticas `quando o problema está iminente`. O presidente defendeu que, em vez de soluções pontuais, haja política estratégica de energia para a região. E, para isso, afirmou, são fundamentais informações confiáveis sobre produção e demanda.

Negociadores brasileiros citaram, por exemplo, que há dados diferentes sobre a produção boliviana de gás. Ora se fala em 39 milhões de metros cúbicos diários, ora em 42 milhões e até em 45 milhões.

Em 2006, a Argentina firmou acordo com a Bolívia para receber 7,7 milhões de metros cúbicos diários de gás, mas o presidente Evo Morales já deixou claro que não terá como cumprir a promessa. Morales ficou ao lado de Cristina Kirchner e defendeu a revisão nas cotas argentina e brasileira.

O presidente Lula, no entanto, disse que a economia brasileira está crescendo e a indústria aquecida impede que o governo repasse parte do gás que recebe da Bolívia. Em vez de gás, ofereceu repasse de energia elétrica durante o inverno, quando há risco de desabastecimento na Argentina.

A presença de Evo na reunião de sábado, a convite da presidente argentina, causou estranheza à comitiva brasileira, embora fizesse parte da programação oficial. No entendimento de ministros e do presidente Lula, o presidente boliviano deveria ter ficado isento e sua presença era dispensável. Apesar de se tratar de gás boliviano, o impasse envolvia Brasil e Argentina.

Segundo negociadores ouvidos pelo Estado, Evo tinha expectativa de vender seu gás mais caro à Argentina. Na interpretação da comitiva, Morales aliou-se a Cristina Kirchner numa tentativa de `encurralar` o Brasil, mas a estratégia não deu certo. Ao aliar-se à Argentina, Morales não levou em conta o fato de que o Brasil, por meio da Petrobrás, tem feito investimentos na Bolívia decisivos para ampliar a exploração do gás.

Na volta ao Brasil, Lula elogiou a atuação do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, nas negociações com a Argentina. O presidente gostou dos argumentos apresentados por Lobão de que a indústria brasileira tem necessidade absoluta de todo o gás que o Brasil importa. O presidente comentou que é preciso deixar o discurso do problema conjuntural e tratar a questão de forma estrutural.

Repórter: Tânia Monteiro

Fonte: O Estado de S. Paulo

Em 25/02/2008.