Para Chiaradia, Mercosul está mais forte

21/05/2008
`Hoje nossos países têm demanda assegurada de seus principais produtos nos mercados internacionais, a preços elevados. Conseqüentemente, nas negociações cobramos mais caro nossa abertura em indústria e serviços, porque não necessitamos o que nos dão, particularmente quando é pouco`, afirmou o secretário de Relações Internacionais do Ministério de Relações Exteriores da Argentina, Alfredo Chiaradia.

Em entrevista à imprensa estrangeira ontem em Buenos Aires, Chiaradia explicou a posição levada pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner, à reunião com o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, durante o encontro de chefes de Estado, na capital peruana.

Em resposta a um quase ultimato de Barroso, de que se não abrisse seus mercados industriais o Mercosul não teria abertura do mercado agrícola europeu, Cristina respondeu que o Mercosul nunca se recusou a discutir a abertura e que a questão não era `branco e preto` como os europeus tentam colocar. `A presidente disse que era uma questão de magnitudes, se trata de quanto receberemos em matéria de cotas agrícolas em troca de abertura na área de serviços e indústria`, explicou.

Sobre os novos textos agrícola e industrial que servirão de base para a negociação da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), divulgados na segunda-feira em Genebra, Chiaradia disse que continua incompatível com que a Argentina espera da negociação.

`Em uma primeira leitura, vemos que, no que concerne a produtos industriais, o que apareceu no último documento continua incompatível com os mandatos que regem a negociação e que implicam que as contribuições dos países desenvolvidos devem ser maiores que as dos países em desenvolvimento`. Segundo ele, o atual texto do acordo para produtos não agrícolas (Nama) faz com que, ao contrário, em matéria de produtos industrializados a contribuição dos países em desenvolvimento será maior que a dos países industrializados. `Isso sem contar o fato de que em matéria agrícola há ainda uma enorme quantidade de temas pendentes que devem ser resolvidos antes de entrar em uma etapa horizontal em que haja troca de concessões`, comentou.

Chiaradia se queixou da onda recente na opinião pública internacional, alimentada segundo ele pela imprensa dos países desenvolvidos, de colocar a culpa pela alta dos alimentos no Brasil e na Argentina, por causa dos biocombustíveis e do fechamento das exportações. Para ele, a Argentina tem contribuído com a oferta mundial de alimentos, ao ter quase duplicado sua produção de grãos de 50 milhões para 98 milhões de toneladas nos últimos cinco anos.

Para a próxima reunião de presidentes do Mercosul, marcada para o início de junho, em San Miguel de Tucuman, no norte da Argentina, Chiaradia disse que há perspectivas de avanços no aperfeiçoamento da união aduaneira, com a criação do Código Aduaneiro Comum. O Código deve agilizar o comércio intra-bloco e permitir a eliminação da dupla cobrança de Tarifa Externa Comum em produtos que entram por um país e seguem para outro, com o objetivo de ser transformado e exportado.

A parte prática, que consiste no projeto de informatização das aduanas, já estaria pronta, garantiu. Falta resolver as questões mais complicadas que são a distribuição da renda aduaneira entre os sócios e o tratamento às zonas francas de Manaus e Terra do Fogo. `Nossa expectativa é chegar a um acordo final até o fim do primeiro semestre`, afirmou o secretário.

Repórter: Janes Rocha

Fonte: Valor Econômico

21/5/2008.