Setor descarrilado

06/08/2007
O governante brasileiro que mais construiu ferrovias foi dom Pedro II, o pioneiro a fazê-lo no país, ainda no século XIX. Foram 9.000 quilômetros de trilhos -- o equivalente a um terço da atual extensão da malha brasileira. Depois da proclamação da República, sob o embalo do ciclo do café, as ferrovias avançaram para o interior e se transformaram no principal meio de transporte do país. Os trens descarrilaram a partir da década de 50, sob o governo de Juscelino Kubitschek. O país abraçou os carros e caminhões como seus principais meios de transporte. A malha férrea, que havia atingido 38.000 quilômetros, regrediu. Hoje, não passa de 29 000 quilômetros, extensão idêntica à do início do século passado. Nos últimos anos, o Brasil foi obrigado a redescobrir o transporte ferroviário, pois é praticamente impossível -- e economicamente inviável -- transportar, em caminhões, mercadorias como minério de ferro. Mas as linhas estão à beira da saturação. As malhas são antiquadas e cruzam centros urbanos e favelas, o que obriga os maquinistas a reduzir a velocidade.

Houve um certo progresso desde a concessão das linhas à iniciativa privada, em 1996. O número de vagões cresceu e a frota de máquinas foi modernizada. Mas os investimentos públicos foram insuficientes. `É de responsabilidade do governo expandir a malha, e isso não está sendo feito. As concessionárias aumentaram a produtividade. No entanto, vamos chegar ao limite em 2010`, diz Rodrigo Vilaça, presidente da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários. Dificilmente os trens voltarão a ser uma forma relevante de transporte de passageiros no país. Os investimentos seriam muito elevados e poucas rotas teriam um movimento suficiente para torná-los rentáveis. Uma delas seria o trem-bala entre o Rio e São Paulo.

Cíntia Borsato

Fonte: Revista Veja num. 2020

Em 6/8/2007.