Permanece o mistério sobre o destino do ‘dinheiro maldito` de Maracangalha

27/03/2008
Um ano após a queda do avião da Bata Táxi Aéreo, carregado com R$5,56 milhões, próximo do distrito de Maracangalha, no município de São Sebastião do Passé, as questões mais importantes permanecem sem resposta: onde foi parar a maior parte do dinheiro e quais os motivos da queda da aeronave, que causou a morte dos quatro tripulantes? As investigações não conseguiram responsabilizar ninguém pelas extorsões, torturas e seqüestros, praticados por supostos policiais, contra moradores da localidade, à procura do dinheiro saqueado da aeronave.

O inquérito aguarda, até agora, o resultado de um laudo técnico da Aeronáutica que aponte a causa do acidente. Já no procedimento que investiga o desaparecimento do dinheiro, além das extorsões, torturas e invasões de casas da comunidade, ninguém foi responsabilizado pela polícia, apesar de moradores locais terem acusado policiais da cidade, em depoimentos ao Ministério Público e na Corregedoria da Polícia.

Os dois inquéritos policiais foram instaurados pela delegada Maria Salete do Amaral, titular da unidade de São Sebastião do Passé, logo após a queda do avião, ocorrida por volta das 13h30 do dia 14 de março de 2007. Na investigação sobre os R$5,56 milhões saqueados da aeronave, foram detidos e interrogados mais de uma dezena de moradores de Maracangalha, que pegaram o dinheiro. Como eles devolveram os valores espontaneamente, acabaram não sendo incriminados.

No mesmo procedimento policial, foram investigadas as invasões de casas de moradores de Maracaganha, que sofreram extorsões, torturas e espancamentos, praticados por homens que se apresentavam como policiais, para revelar onde estava o dinheiro. A polícia conseguiu recuperar apenas cerca de R$500 mil junto aos moradores locais, enquanto mais de R$5 milhões permanecem desaparecidos. O inquérito foi concluído pela delegada Maria Salete, também sem identificar os autores das invasões.

A delegada encaminhou o inquérito para o Ministério Público da cidade, onde surgiram várias denúncias de moradores contra policiais. Depois de colher depoimentos de vítimas, que apontavam agentes civis e PMs de São Sebastião do Passé e do município vizinho de Candeias, a promotora de São Sebastião do Passé, Rosana Bianchi, enviou um procedimento criminal para 3ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior (Coorpin/Santo Amaro), para aprofundar as investigações, em agosto de 2007.

A promotora acreditava que as investigações poderiam ocorrer com imparcialidade, sendo realizadas pela 3ª Coorpin, em função de alguns dos acusados serem policiais de São Sebastião do Passé. Rosana Biachi recomendou ainda, por ofício, que o delegado regional de Santo Amaro, Marcos César da Silva, colocasse os moradores para fazer o reconhecimento de policiais de São Sebastião do Passé e Candeias, já que muitas vítimas afirmaram poder fazer a identificação visual.

O juiz de São Sebastião do Passé, Antônio Bosco Drummond, também enviou o inquérito realizado pela delegada Maria Salete Campos do Amaral para o delegado Marcos César da Silva, coordenador da 3ª Coorpin. Já que as primeiras apurações não identificaram os culpados, o juiz solicitou novas investigações para Marcos César, em setembro de 2007. O procedimento investigatório passou cerca de seis meses em Santo Amaro, mas também ninguém foi indiciado como autor das invasões.

O delegado Marcos César disse que vai devolver o inquérito para o juiz Antônio Bosco, sem indiciar ninguém, mas admitiu que existam suspeitos identificados pelas vítimas. No entanto, o delegado não informou se os suspeitos são policiais, alegando que só poderia se pronunciar com autorização da Secretaria de Segurança Pública (SSP). O superior direto dele, o diretor do Departamento de Polícia do Interior (Depin), Bernardino Brito, não atendeu a equipe de reportagem do Correio da Bahia, recomendando que a delegada Maria Salete Campos do Amaral fosse procurada. Mas a titular de São Sebastião do Passé também não respondeu aos telefonemas.

Policiais acusados de rapto e extorsão

Dois policiais civis de São Sebastião do Passé são acusados de seqüestro e extorsão por testemunhas que estão tendo os nomes preservados por questões de segurança, em depoimentos prestados ao Ministério Público da cidade. O chefe do Serviço de Investigação da delegacia do município à época, Marcelo Alexandro Lopes dos Santos, e o agente Gilsonei Pires Fonseca, conhecido como `Xuxa`, são acusados de seqüestrar o motoboy Joselito Barbosa dos Santos, 34 anos, e extorquir cerca de R$5 mil da família da vítima, achando que o dinheiro tinha sido saqueado do avião da Bata Táxi Aéreo.

Segundo testemunhas, o moto boy foi seqüestrado em São Sebastião do Passé por três homens, em um Fiat Palio de cor verde, a mando dos policiais Marcelo e Gilsonei. Joselito foi algemado e conduzido para um sítio de sua família, na localidade de Nazaré de Jacuípe, onde foi mantido sob a mira de armas para entregar o dinheiro que teria saqueado do avião. O trio de bandidos levou o dinheiro que estava guardado na casa e que seria referente a uma rescisão trabalhista.

O moto boy acabou sendo solto pelos bandidos, depois que seu pai procurou a delegacia de São Sebastião do Passé. Joselito afirmou que não sabia dizer o nome dos homens que lhe seqüestraram, mas poderia reconhecê-los. Já uma testemunha que está tendo a identidade preservada acusou os dois policiais de terem ordenado o seqüestro, durante depoimento prestado à promotora Rosana Bianchi. A testemunha acrescentou que todos comentam que Marcelo e `Xuxa` estão cheios de dinheiro, mas não denunciam porque têm medo. Os policiais alegaram, ao serem ouvidos no MP, que sequer tiveram contado com o moto boy e sua família.

Eles são citados em vários depoimentos de moradores de Maracangalha, que afirmam tê-los visto entrando em diversas casas da localidade. Num dos relatos, Marcelo e `Xuxa` são vistos freqüentando constantemente a casa de Jailson Jesus dos Santos, apelidado de `Maxixe`, proprietário de boteco no local. Pouco tempo depois, `Maxixe` foi executado com dez tiros na cabeça, por dois homens desconhecidos, dentro do seu estabelecimento.

Segundo depoimentos de testemunhas, Jailson foi visto, várias vezes, acompanhando os dois policiais civis até a casa de moradores de Maracangalha, que tinham saqueado o dinheiro do avião. `Todo mundo aqui sabia que Maxixe passou a ser X-9 (informante) dos policiais e muita gente ficou com raiva dele`, declarou um trabalhador rural que concedeu entrevista ao Correio da Bahia, sem se identificar, por questões de segurança.

Outro agricultor, que também está tendo o nome preservado, contou ao Correio que Marcelo e `Xuxa` foram os primeiros policiais a chegarem ao local da queda do avião. Segundo a testemunha, os dois teriam enchido a mala do carro com dinheiro do avião e feito duas viagens até a cidade. Em seguida, chegou ao local uma viatura da Polícia Militar de Candeias, que também teria recolhido dinheiro da aeronave.

Os agentes rebateram as acusações, com informações passadas em depoimento ao MP. Os dois alegaram que, após o acidente, conseguiram recuperar cerca de R$100 mil, em poder de moradores de Maracangalha e uma parte no barraco abandonado, no acampamento do MST. Contaram ainda terem ficado no local até por volta das 20h, fazendo uma varredura na fazenda onde a aeronave caiu. No dia seguinte, voltaram ao vilarejo para investigar denúncias de invasão nas casas dos moradores locais.

À espera do laudo da Aeronáutica

O Ministério Público e a Polícia Civil aguardam, há mais de um ano, um laudo técnico da Aeronáutica, que aponte a causa da queda do avião bimotor da Bata Táxi Aéreo. Quatro tripulantes morreram no acidente, mas até agora ninguém foi responsabilizado criminalmente pelo desastre, por falta do documento. Mas, segundo o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, em Brasília, não é de sua competência emitir esse tipo de laudo.

Desde o início das investigações policiais, o documento vem sendo cobrado do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), pertencente à Força Aérea, situado em Brasília. Mas como o resultado da perícia realizada na aeronave pelo Cenipa não foi enviado até o prazo legal para o término do inquérito, o caso foi remetido para o Ministério Público sem apontar os culpados.

A promotora pública de São Sebastião do Passé, Rosana Bianchi, disse que desde o ano passado vem cobrando, por meio de ofícios, o laudo ao Cenipa, mas não recebeu sequer uma perspectiva de prazo para o envio do documento. O Centro de Comunicação Social da força aérea explicou que o Cenipa realiza investigações e perícias em aeronaves para ajudar a prevenir futuros acidentes.

A Aeronáutica informou também que o Cenipa envia relatórios finais sobre a investigação que realiza, quando solicitado pela polícia, mas, muitas vezes, esses documentos não são conclusivos porque usam hipóteses. O Centro de Comunicação Social informou ainda que, em acidentes aéreos de grandes proporções, os laudos são feitos por peritos da Polícia Federal ou por peritos criminalistas da Polícia Civil dos estados. A Aeronáutica não deu uma estimativa para envio do relatório sobre o acidente da aeronave da Bata Táxi Aéreo.

Repórter: Marcelo Brandão

Fonte: Jornal Correio da Bahia

Em 27/03/2008.