17/07/2008
A operadora de telefonia Oi anunciou ontem que obteve empréstimo de R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil para financiar a compra da Brasil Telecom. O negócio, anunciado em abril, ainda depende de mudanças na lei para ser efetivado.
Por meio de um comunicado ao mercado, a Tele Norte Leste Participações, controladora da antiga Telemar (atual Oi), informou que o empréstimo será feito por meio da emissão de cédulas de crédito bancário, com prazo de oito anos e juros pagos semestralmente a partir de maio de 2010. Os juros serão pagos de acordo com a variação do CDI (certificado de depósito interfinanceiro, hoje em cerca de 12% anuais), mais `spread` de 1,3% ao ano. No fim do mês passado, a Oi já havia anunciado que emitiria R$ 3,6 bilhões em notas promissórias para a compra da BrT. Ao todo, estima-se que o custo da operação ultrapasse R$ 12 bilhões.
Desse total, R$ 5,8 bilhões serão pagos pelo controle da BrT. Outros R$ 3,5 bilhões farão parte da oferta pública obrigatória para aquisição de ações ordinárias dos minoritários -o chamado `tag along`. Mais R$ 3 bilhões serão gastos na oferta voluntária para a compra de ações preferenciais da BrT. Em nota, a Oi afirmou que comprará a BrT com recursos próprios e que o empréstimo do Banco do Brasil `constitui-se no primeiro movimento de captação de recursos` que, em seguida, contará com `emissão de notas promissórias com os bancos Santander, Bradesco e Itaú`.
A tele afirmou ainda que, por ser considerada uma empresa com baixo risco de crédito, `contrata operações ao custo de mercado, sempre tendo como respaldo a capacidade financeira de geração de caixa da própria empresa`. É o segundo financiamento de um banco público obtido pela Oi para a operação de compra da BrT, operação apoiada pelo governo federal sob o argumento de que o país precisaria de uma grande empresa no setor para concorrer com gigantes multinacionais como a espanhola Telefónica e a mexicana Claro. O BNDES já havia anunciado crédito de R$ 2,5 bilhões, com o objetivo específico de promover a reestruturação acionária da Oi -condição necessária para a compra da BrT.
O BNDES vai comprar R$ 1,23 bilhão em ações preferenciais resgatáveis emitidas pela Telemar e títulos no valor de R$ 1,33 bilhão emitidos pela AG Telecom (grupo Andrade Gutierrez) e pela LF TEL (do grupo La Fonte, de Carlos Jereissati). Os dois grupos são os controladores da Oi. Analistas financeiros que acompanham o setor disseram que a Oi obteve condições `razoáveis` com o BB: `Achei que o custo da captação foi um pouco alto para o padrão da empresa, mas sem dúvida o empréstimo faz parte da estratégia`, afirmou Beatriz Battelli, do banco Brascan.
Já o engenheiro Juarez Quadros, ex-ministro das Comunicações no governo FHC, diz que o fato de o empréstimo ter sido concedido por um banco público reforça as `inquietações` que cercam a operação: `O público e o privado não ficam bem definidos. Por que BNDES, primeiro, o Banco do Brasil, agora? O grupo empresarial em questão tem todas as condições de obter financiamento privado`, disse ele. Quadros observa ainda que o anúncio do empréstimo ocorre numa `situação relativamente confusa`, já que o banqueiro Daniel Dantas, preso duas vezes na semana passada sob acusação de chefiar uma quadrilha especializada em crimes financeiros, deve receber pelo menos R$ 1 bilhão com o desfecho da operação.
O Opportunity é um dos maiores acionistas da BrT e possui também participação minoritária na Telemar. Com a conclusão do negócio, Dantas deixaria o setor de telefonia, após diversos conflitos com os outros acionistas da BrT. Para que a Oi compre a BrT, serão necessárias mudanças no Plano Geral de Outorgas, que regulamenta o setor de telefonia no país. Banco afirma que operação é normal
O Banco do Brasil defendeu o empréstimo de R$ 4,3 bilhões à Oi, que tem entre seus sócios a Previ, fundo de pensão dos funcionários do banco estatal. Segundo a assessoria de imprensa do BB, `não existe, absolutamente, conflito de interesses` na transação. Alegando questões de sigilo comercial, o BB não confirmou os detalhes do empréstimo.
Questionado pela Folha, o BB também alegou sigilo para não informar se costuma realizar operações de valor semelhante com outras empresas. Sua carteira de crédito total -que inclui operações com pessoas físicas e empresas de todos os portes- é de pouco mais de R$ 200 bilhões. Para o advogado Arnoldo Wald Filho, do escritório Wald e Associados, não há sinais de conflito de interesse. `É uma coisa normal de mercado, qualquer outro banco privado poderia ter feito o financiamento`, afirma. Segundo Wald Filho, não há problema na transação desde que as condições acertadas no contrato sejam condizentes com as práticas de mercado.
O instrumento escolhido para o empréstimo foi a chamada CCB (Cédula de Crédito Bancário), uma espécie de nota promissória que pode ser negociada no mercado financeiro. Isso significa que o banco pode vender essas cédulas para outros investidores antes do vencimento do empréstimo. Normalmente, uma empresa que queira levantar um volume grande de dinheiro por meio da CCB faz uma espécie de concorrência entre vários bancos e opta pela instituição financeira que oferecer as condições mais favoráveis. Para financiar grandes fusões ou aquisições, muitas companhias preferem tomar o financiamento em vários bancos diferentes, já que um único banco poderia considerar muito arriscado liberar um empréstimo de vários bilhões para apenas uma empresa A compra da Anheuser-Busch pela InBev, por exemplo, deve envolver um crédito de US$ 45 bilhões a ser concedido por um grupo de dez bancos. Outra possibilidade é a emissão de ações na Bolsa, o que leva geralmente a uma diluição do capital da empresa.
Repórter: ROBERTO MACHADO
Fonte: Folha de S. Paulo
17/7/2008.
Por meio de um comunicado ao mercado, a Tele Norte Leste Participações, controladora da antiga Telemar (atual Oi), informou que o empréstimo será feito por meio da emissão de cédulas de crédito bancário, com prazo de oito anos e juros pagos semestralmente a partir de maio de 2010. Os juros serão pagos de acordo com a variação do CDI (certificado de depósito interfinanceiro, hoje em cerca de 12% anuais), mais `spread` de 1,3% ao ano. No fim do mês passado, a Oi já havia anunciado que emitiria R$ 3,6 bilhões em notas promissórias para a compra da BrT. Ao todo, estima-se que o custo da operação ultrapasse R$ 12 bilhões.
Desse total, R$ 5,8 bilhões serão pagos pelo controle da BrT. Outros R$ 3,5 bilhões farão parte da oferta pública obrigatória para aquisição de ações ordinárias dos minoritários -o chamado `tag along`. Mais R$ 3 bilhões serão gastos na oferta voluntária para a compra de ações preferenciais da BrT. Em nota, a Oi afirmou que comprará a BrT com recursos próprios e que o empréstimo do Banco do Brasil `constitui-se no primeiro movimento de captação de recursos` que, em seguida, contará com `emissão de notas promissórias com os bancos Santander, Bradesco e Itaú`.
A tele afirmou ainda que, por ser considerada uma empresa com baixo risco de crédito, `contrata operações ao custo de mercado, sempre tendo como respaldo a capacidade financeira de geração de caixa da própria empresa`. É o segundo financiamento de um banco público obtido pela Oi para a operação de compra da BrT, operação apoiada pelo governo federal sob o argumento de que o país precisaria de uma grande empresa no setor para concorrer com gigantes multinacionais como a espanhola Telefónica e a mexicana Claro. O BNDES já havia anunciado crédito de R$ 2,5 bilhões, com o objetivo específico de promover a reestruturação acionária da Oi -condição necessária para a compra da BrT.
O BNDES vai comprar R$ 1,23 bilhão em ações preferenciais resgatáveis emitidas pela Telemar e títulos no valor de R$ 1,33 bilhão emitidos pela AG Telecom (grupo Andrade Gutierrez) e pela LF TEL (do grupo La Fonte, de Carlos Jereissati). Os dois grupos são os controladores da Oi. Analistas financeiros que acompanham o setor disseram que a Oi obteve condições `razoáveis` com o BB: `Achei que o custo da captação foi um pouco alto para o padrão da empresa, mas sem dúvida o empréstimo faz parte da estratégia`, afirmou Beatriz Battelli, do banco Brascan.
Já o engenheiro Juarez Quadros, ex-ministro das Comunicações no governo FHC, diz que o fato de o empréstimo ter sido concedido por um banco público reforça as `inquietações` que cercam a operação: `O público e o privado não ficam bem definidos. Por que BNDES, primeiro, o Banco do Brasil, agora? O grupo empresarial em questão tem todas as condições de obter financiamento privado`, disse ele. Quadros observa ainda que o anúncio do empréstimo ocorre numa `situação relativamente confusa`, já que o banqueiro Daniel Dantas, preso duas vezes na semana passada sob acusação de chefiar uma quadrilha especializada em crimes financeiros, deve receber pelo menos R$ 1 bilhão com o desfecho da operação.
O Opportunity é um dos maiores acionistas da BrT e possui também participação minoritária na Telemar. Com a conclusão do negócio, Dantas deixaria o setor de telefonia, após diversos conflitos com os outros acionistas da BrT. Para que a Oi compre a BrT, serão necessárias mudanças no Plano Geral de Outorgas, que regulamenta o setor de telefonia no país. Banco afirma que operação é normal
O Banco do Brasil defendeu o empréstimo de R$ 4,3 bilhões à Oi, que tem entre seus sócios a Previ, fundo de pensão dos funcionários do banco estatal. Segundo a assessoria de imprensa do BB, `não existe, absolutamente, conflito de interesses` na transação. Alegando questões de sigilo comercial, o BB não confirmou os detalhes do empréstimo.
Questionado pela Folha, o BB também alegou sigilo para não informar se costuma realizar operações de valor semelhante com outras empresas. Sua carteira de crédito total -que inclui operações com pessoas físicas e empresas de todos os portes- é de pouco mais de R$ 200 bilhões. Para o advogado Arnoldo Wald Filho, do escritório Wald e Associados, não há sinais de conflito de interesse. `É uma coisa normal de mercado, qualquer outro banco privado poderia ter feito o financiamento`, afirma. Segundo Wald Filho, não há problema na transação desde que as condições acertadas no contrato sejam condizentes com as práticas de mercado.
O instrumento escolhido para o empréstimo foi a chamada CCB (Cédula de Crédito Bancário), uma espécie de nota promissória que pode ser negociada no mercado financeiro. Isso significa que o banco pode vender essas cédulas para outros investidores antes do vencimento do empréstimo. Normalmente, uma empresa que queira levantar um volume grande de dinheiro por meio da CCB faz uma espécie de concorrência entre vários bancos e opta pela instituição financeira que oferecer as condições mais favoráveis. Para financiar grandes fusões ou aquisições, muitas companhias preferem tomar o financiamento em vários bancos diferentes, já que um único banco poderia considerar muito arriscado liberar um empréstimo de vários bilhões para apenas uma empresa A compra da Anheuser-Busch pela InBev, por exemplo, deve envolver um crédito de US$ 45 bilhões a ser concedido por um grupo de dez bancos. Outra possibilidade é a emissão de ações na Bolsa, o que leva geralmente a uma diluição do capital da empresa.
Repórter: ROBERTO MACHADO
Fonte: Folha de S. Paulo
17/7/2008.