15/04/2009
Independência energética parece ser uma ótima ideia. Ah, se pudéssemos ser livres... do quê, exatamente? O maior exportador de energia para os Estados Unidos é o Canadá. E até os petroestados de quem não gostamos têm de vender petróleo para os EUA a qualquer que seja o preço estabelecido pelo mercado. Os EUA compram um monte de Hugo Chávez, da Venezuela. Ele nos acusa, nós o acusamos, mas continuamos alegremente a fazer negócios juntos. Afinal de contas, o que mais ele pode fazer com seu petróleo, bebê-lo?
Seria possível dar um argumento mais amplo: os EUA deveriam livrar-se aos poucos do petróleo para diminuir sua importância crucial para o mundo da energia. Isso tornaria países como a Arábia Saudita, o Irã, a Rússia e a Venezuela menos poderosos - e menos capazes de financiar milícias e grupos terroristas. Esse é um objetivo que vale a pena. Mas sejamos realistas: dada a demanda por energia pelas próximas décadas, o petróleo vai continuar sendo uma peça importante da matriz energética, o que significa que esses países vão ter um monte de dinheiro. Eu adoraria ver um mundo em que o islamismo radical ficasse sem dinheiro, mas vamos precisar lutar contra essas forças por muito tempo. Não há uma solução rápida para a energia.
O verdadeiro sentido em que deveríamos nos esforçar para obter a independência energética é um tanto diferente, e mais ambicioso. Precisamos de uma política energética que leve em conta que o mundo vai precisar de muito mais energia no futuro. A conta é simples. Hoje, somos aproximadamente 6,7 bilhões de pessoas no mundo. Até 2050, haverá mais de 9 bilhões. Para sustentar esses 2,3 bilhões extras, e ainda aumentar o nível de vida, vamos precisar mais ou menos do dobro da energia que gastamos hoje. O debate petróleo versus gás natural versus biocombustíveis versus energias alternativas está fora da realidade. Vamos precisar de tudo.
O debate petróleo versus gás versus biocombustíveis está fora da realidade. Vamos precisar de tudo.
A solução é nos libertarmos em todos os níveis da cadeia energética. Isso significa, acima de tudo, encontrar fontes de energia que sejam abundantes, baratas e não tenham custos ocultos - ambientais, sociais ou militares. Como se faz isso? Gerando uma enorme diversidade de oferta e fazendo o maior número possível de fontes ser limpas e verdes. Essa parte a maioria de nós entende, e o processo de buscar novos combustíveis e fontes de energia já está a caminho. Mas há outro aspecto da independência energética que precisamos enfrentar. Conforme vivemos e trabalhamos, consumimos recursos e energia e produzimos resíduos. Então, precisamos gastar mais energia para lidar com isso. Esse ciclo, até agora, funcionou para 6,7 bilhões de pessoas, muitas das quais ainda são pobres. Mas, como Tom Friedman argumenta em Quente, plano e lotado, é pouco provável que funcione para 9 bilhões de pessoas.
A solução é ser mais inteligente quanto à forma de crescer. Podemos conseguir mais crescimento econômico usando a mesma quantidade de energia. A maior eficiência vai levar a um modelo de crescimento mais sustentável. O objetivo fundamental foi bem articulado por William McDonough em seu livro Do berço ao berço. Sabemos como fazer coisas sem que nada seja jogado fora. McDonough é arquiteto e projetou uma fábrica para a Ford que economiza milhões de dólares por ano purificando a água da chuva no teto do prédio, em vez de tratá-la em uma estação cara.
Revoluções tecnológicas anteriores foram libertadoras. O problema da revolução da energia, no ponto atual, é que estamos oferecendo os mesmos produtos a um custo mais alto. As revoluções tecnológicas devem aumentar a eficiência, e não expandir a virtude. Uma revolução energética deveria produzir um mundo em que todos usem energia sem se preocupar com o custo ou as consequências. A busca de uma panaceia para a energia está errada em muitos níveis. A verdadeira revolução é de atitudes e ideias. Temos muitas das tecnologias de que precisamos. Se as colocarmos para funcionar e criarmos sistemas que permitam todo o crescimento que queremos sem gastar toda a energia ou causar danos à Terra, vamos ter conseguido a verdadeira independência energética.
Autor(es): Fareed Zakaria
Época - 14/04/2009
Seria possível dar um argumento mais amplo: os EUA deveriam livrar-se aos poucos do petróleo para diminuir sua importância crucial para o mundo da energia. Isso tornaria países como a Arábia Saudita, o Irã, a Rússia e a Venezuela menos poderosos - e menos capazes de financiar milícias e grupos terroristas. Esse é um objetivo que vale a pena. Mas sejamos realistas: dada a demanda por energia pelas próximas décadas, o petróleo vai continuar sendo uma peça importante da matriz energética, o que significa que esses países vão ter um monte de dinheiro. Eu adoraria ver um mundo em que o islamismo radical ficasse sem dinheiro, mas vamos precisar lutar contra essas forças por muito tempo. Não há uma solução rápida para a energia.
O verdadeiro sentido em que deveríamos nos esforçar para obter a independência energética é um tanto diferente, e mais ambicioso. Precisamos de uma política energética que leve em conta que o mundo vai precisar de muito mais energia no futuro. A conta é simples. Hoje, somos aproximadamente 6,7 bilhões de pessoas no mundo. Até 2050, haverá mais de 9 bilhões. Para sustentar esses 2,3 bilhões extras, e ainda aumentar o nível de vida, vamos precisar mais ou menos do dobro da energia que gastamos hoje. O debate petróleo versus gás natural versus biocombustíveis versus energias alternativas está fora da realidade. Vamos precisar de tudo.
O debate petróleo versus gás versus biocombustíveis está fora da realidade. Vamos precisar de tudo.
A solução é nos libertarmos em todos os níveis da cadeia energética. Isso significa, acima de tudo, encontrar fontes de energia que sejam abundantes, baratas e não tenham custos ocultos - ambientais, sociais ou militares. Como se faz isso? Gerando uma enorme diversidade de oferta e fazendo o maior número possível de fontes ser limpas e verdes. Essa parte a maioria de nós entende, e o processo de buscar novos combustíveis e fontes de energia já está a caminho. Mas há outro aspecto da independência energética que precisamos enfrentar. Conforme vivemos e trabalhamos, consumimos recursos e energia e produzimos resíduos. Então, precisamos gastar mais energia para lidar com isso. Esse ciclo, até agora, funcionou para 6,7 bilhões de pessoas, muitas das quais ainda são pobres. Mas, como Tom Friedman argumenta em Quente, plano e lotado, é pouco provável que funcione para 9 bilhões de pessoas.
A solução é ser mais inteligente quanto à forma de crescer. Podemos conseguir mais crescimento econômico usando a mesma quantidade de energia. A maior eficiência vai levar a um modelo de crescimento mais sustentável. O objetivo fundamental foi bem articulado por William McDonough em seu livro Do berço ao berço. Sabemos como fazer coisas sem que nada seja jogado fora. McDonough é arquiteto e projetou uma fábrica para a Ford que economiza milhões de dólares por ano purificando a água da chuva no teto do prédio, em vez de tratá-la em uma estação cara.
Revoluções tecnológicas anteriores foram libertadoras. O problema da revolução da energia, no ponto atual, é que estamos oferecendo os mesmos produtos a um custo mais alto. As revoluções tecnológicas devem aumentar a eficiência, e não expandir a virtude. Uma revolução energética deveria produzir um mundo em que todos usem energia sem se preocupar com o custo ou as consequências. A busca de uma panaceia para a energia está errada em muitos níveis. A verdadeira revolução é de atitudes e ideias. Temos muitas das tecnologias de que precisamos. Se as colocarmos para funcionar e criarmos sistemas que permitam todo o crescimento que queremos sem gastar toda a energia ou causar danos à Terra, vamos ter conseguido a verdadeira independência energética.
Autor(es): Fareed Zakaria
Época - 14/04/2009