Espião acessou dados sigilosos

11/09/2008
O ex-agente do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) Francisco Ambrósio do Nascimento, acusado de envolvimento em escutas telefônicas ilegais, teve acesso a documentos sigilosos da investigação da Operação Satiagraha. O araponga, que se aposentou em 1998, trabalhou com a Polícia Federal de fevereiro até quando a ação foi desencadeada, em julho passado. Ambrósio foi contratado pelo delegado Protógenes Queiroz, comandante das investigações que resultaram na prisão do banqueiro Daniel Dantas, controlador do Opportunity. A PF tem informações de que outros espiões afastados do serviço público participaram das apurações como colaboradores eventuais.

Segundo fontes da PF e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ambrósio atuou na análise de dados sigilosos da operação desde fevereiro até a ação da PF. O araponga recebeu, segundo amigos próximos, R$ 1,8 mil mensais em dinheiro pelo trabalho. O espião foi contratado por Protógenes depois de ter conversado com um amigo da época em que o delegado fez a Escola Superior de Guerra (ESG). Esse amigo, um oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), aproximou Protógenes do espião e o acerto ocorreu em Brasília. Pessoas próximas a Ambrósio afirmam que ele participou da análise do disco rígido do Opportunity, apreendido durante a operação Chacal, de 2004.

O ex-agente do SNI teria buscado, ao longo dos meses, encontrar conexões entre os investigados pela Chacal e os alvos da Satiagraha. Sem despertar a atenção, o araponga passava por dois momentos de identificação para entrar no `Máscara Negra`, o edifício-sede da PF. Na portaria, pedia autorização de funcionários do grupo de Protógenes e, no momento de entrar na Diretoria de Inteligência Policial (DIP), onde o delegado realizava suas investigações, se valia de um crachá de uma servidora.

Intervenção

De acordo com pessoas próximas a Ambrósio, o diretor afastado de Contra-Inteligência da Abin, Paulo Maurício Fortunato, tentou intervir no depoimento concedido pelo araponga na PF, no último sábado. O ex-agente foi procurado na última sexta-feira pelo diretor para que não passasse à PF informações que comprometessem a cúpula da agência. No sábado, o espião depôs aos delegados responsáveis pelo inquérito, Rômulo Berredo e William Morad, que apura quem realizou os grampos em autoridades dos Três Poderes.

Ambrósio admitiu à PF que participou da Satiagraha, mas negou que tenha feito grampos ilegais. Fontes da PF confirmaram que ele teve acesso a documentos sigilosos, o que é proibido por lei. Questionado ontem pelo deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) na CPI dos Grampos, Paulo Maurício admitiu que, na última sexta-feira, procurou Ambrósio para lhe perguntar detalhes sobre a reportagem que iria citá-lo como o coordenador da operação da Abin. `A única intenção era esclarecer os fatos (que estariam na reportagem)`, respondeu Paulo Maurício, que antes tinha dito que `haviam 15 anos` não conversava com Ambrósio.

Repórter: Ricardo Brito e Edson Luiz

Fonte: Correio Braziliense

11/9/2008.