Crise no setor aéreo eleva em 15% o movimento nas rodo

20/08/2007
Desde o final do ano passado, a procura pelos transportes de passageiros por rodovias registrou aumento de 15%. O índice é da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que atribui esse acréscimo à crise do setor aéreo. O percentual refere-se aos trechos com mais de 600 quilômetros. Isso equivale a viagens com tempo superior a seis horas.

Na Bahia, os transtornos nos aeroportos resultaram em acréscimo ainda maior, de 20%, no mesmo período, no volume de pessoas que optam pelas estradas quando viajam aos Estados do Nordeste. O mesmo percentual foi registrado no caso de passagens para o Rio de Janeiro, de acordo com Henrique Pedreira, presidente da Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário e Turístico (Sinart).

Responsável pela administração do Terminal Rodoviário de Salvador, Pedreira afirma que o aumento da demanda para cidades do Nordeste e para a capital carioca foi o único impacto sentido, na Bahia, após os problemas no setor aéreo. Já em Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, o volume nas estradas cresceu 20% em quase todos os destinos com mais de 600 quilômetros.

Diante dessa demanda, A TARDE preparou matérias sobre viagens por terra, de ônibus, na Bahia.

O que se constatou não é nada animador. Apesar do bom momento para o setor, os problemas continuam.

São estradas esburacadas, rodoviárias despreparadas e ônibus que não oferecem conforto aos usuários. Para piorar, a presença de mais veículos nas estradas veio acompanhada do aumento no número de acidentes.

Somente em julho, nas férias escolares, foram registrados, pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), 591 acidentes, com 371 feridos e 71 mortos. No mesmo período do anos passado, foram 479 acidentes, 303 feridos e 43 mortos, índices que já eram altos.

Esse risco aparece como o primeiro fator para derrubar o mito de que, após a crise aérea, as estradas têm sido a melhor opção para viajar, em contraponto aos aeroportos.

Para os usuários dos ônibus, restam as lamentações. É o caso do especialista em tecnologia da informação Francisco Sachi, que passou dois anos tendo de fazer duas viagens mensais entre Porto Seguro e Salvador.

TROCA - `No começo, ia de ônibus, mas logo passei a utilizar o avião`, relata. A troca entre os meios de transporte se deve às condições precárias do transporte terrestre. Além da viagem mais demorada, há os problemas com a conservação da Estação Rodoviária de Porto Seguro. Com estrutura quase toda de madeira, a estação mal consegue proteger os usuários em dias de chuvas fortes. Para piorar, falta iluminação e são poucos os bancos para quem aguarda a saída dos coletivos. E, caso o passageiro precise ir ao sanitário, tem que desembolsar R$ 0,70, apesar do pouco conforto oferecido.

`Percebi que de avião perdia menos tempo. A diferença de preço não era mais atrativa`, observa Francisco Sachi, que também destaca o descarte do risco de assaltos na viagem no caso do avião.

Entre Porto Seguro e Salvador, os preços dos bilhetes de ônibus chegam a ser praticamente iguais aos das passagens de avião. A única empresa de ônibus que faz viagens neste trecho cobra R$ 157 pelo tíquete em veículos leito. Na última quinta-feira, por exemplo, as passagens de avião mais baratas entre as duas cidades custavam R$ 159, sem cobrar a taxa de embarque.

Para a comunicadora Miriam Silva,a viagem de ônibus poderia ser mais atraente, mesmo com a semelhança dos preços, se o padrão do serviço de bordo fosse retomado.

`As empresas de ônibus deviam aproveitar este momento, em que muita gente está com medo de viajar de avião, para garantir a fidelidade dos clientes`, sugere.

Pelo menos em Salvador, o presidente da Sinart, Henrique Pedreira, afirma que melhorias têm sido feitas na rodoviária para atender à demanda. `As empresas implantaram salas VIPs e a estrutura passa por reformas`, completa. A estação recebe cerca de 360 mil passageiros por mês.

INVESTIMENTOS - Já o Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, em Salvador, recebeu 5,4 milhões de pessoas no ano passado. O número é consideravelmente maior do que o contabilizado em 2005, quando 4,6 milhões de pessoas passaram pelo terminal aéreo.

Na opinião de especialistas, para que o setor aéreo da Bahia seja considerado mais seguro, o ideal é investir nos terminais aéreos do interior. Esta é a opinião, por exemplo, do professor Wellington Figueiredo, titular do Centro de Estudos de Transportes da Universidade Federal da Bahia. Dentre as cidades que precisam de reformas e mudanças nas pistas de pouso, ele cita Porto Seguro e Ilhéus.

Adepto da teoria de que falta investimento na infra-estrutura do País, o professor defende ações conjuntas na malha viária e nos aeroportos. `A única certeza é que o avião sempre será melhor`, completa.

Rodovias esburacadas em Juazeiro

O secretário de Infra-estrutura da Bahia, Antônio Neves, foi procurado para comentar sobre investimentos no setor de transporte terrestre e aéreo. Por meio da assessoria, foi informado de que medidas têm sido tomadas nessa área.

Dentre elas, está a aquisição de 231 ônibus que foram incorporados à frota baiana, mês passado. Não foi dito em quais rotas esses veículos foram inseridos. Sabe-se, no entanto, que não faltam cidades com a população necessitada de melhorias nesse setor. É o caso de Juazeiro, a 500 quilômetros de Salvador.

Não é fácil sair de lá em direção à capital baiana pela BR-407, até Capim Grosso, e depois seguindo pela BR-324, que passa em Feira de Santana.

Enfrentar buracos, falta de acostamento, desníveis de até 30 centímetros na margem da pista, ausência de sinalização horizontal em alguns trechos e ainda o grave problema dos assaltos a ônibus desestimulam quem pensa em trocar os vôos comerciais, na região do Vale do São Francisco e demais destinos brasileiros, pela aventura nas estradas.

`Trafego por essa estrada há 20 anos e nunca vi nenhum tempo em que estivesse boa`, diz o motorista Carlos Oliveira Silva, de 48 anos. Ele estava com o caminhão parado com dois pneus rasgados pelos buracos no trecho da BR-407 entre os distritos de Juremal e Massaroca.

O motorista Alberto Gonçalves Santana, que parou para prestar socorro, garante que toda a rodovia está em condição ruim de tráfego. `Só se vê buracos e não tem trecho bom. É tudo igual`. Os assaltos, que são comuns, assustam`, conta o motorista que há pouco mais de duas semanas passou quase dois dias parado na estrada com o caminhão quebrado.

No Aeroporto Internacional Senador Nilo Coelho, em Petrolina (PE), que atende os usuários de toda a região do Vale do São Francisco e cidades circunvizinhas, a empresa OceanAir é a única que tem como destino Salvador. Para os operadores do aeroporto, não houve muita mudança no movimento por conta do chamado caos aéreo nacional.

O agente de aeroporto Anderson Mota informa que a maior parte dos usuários é formada por empresários e pessoas que têm compromissos na capital e, `mesmo diante dos problemas, preferem ir de avião, pois prezam pelo ganho no tempo de viagem`.

Ir de Petrolina (PE) a Salvador de avião leva uma hora, bem diferente das quase oito horas gastas por quem opta pela viagem de ônibus.

O valor da passagem aérea para Salvador é de R$ 120, enquanto que, de ônibus, no carro leito executivo, o valor é até mais caro: R$ 125. Mesmo com vantagens no custo da passagem, na rapidez e conforto da viagem, muitos moradores do lado baiano do Vale ainda pensam que `avião é coisa para quem tem dinheiro`. Mas há também quem já venceu o medo o desconhecimento e não quer mais saber de estradas esburacadas. Para a gerente de marketing Rosi Rodrigues, por exemplo, é vantajoso ir de avião pela comodidade e o tempo gasto, apesar de nem sempre ela poder optar pela viagem aérea por conta da incompatibilidade de horários com o trabalho. `O único inconveniente é que nem sempre o vôo chega no horário já por conta do caos aéreo atual.

Mas, mesmo assim, para quem não tem medo de voar é a melhor opção`, garante.

LOCOMOÇÃO - Dono de locadora, Antônio Ferreira da Silva revela que as fatalidades recentes no setor aéreo não foram suficientes para fazê-lo deixar de voar. Mas ele também reconhece que `existem vantagens na viagem de carro que o avião não oferece, como a locomoção no local de destino`.

Entre os passageiros que embarcavam na Rodoviária de Juazeiro, a maioria assegura que só faz a viagem Salvador/Juazeiro e vice-versa de ônibus por conta dos custos.

Muitos embarcam em ônibus comerciais, que são mais baratos. Entre os que viajam em veículos leito ou semileito, alguns desconhecem o preço da passagem aérea e outros têm medo de avião.

Muitas queixas em Itabuna e Ilhéus

O caos nos aeroportos, o acidente com o Airbus da TAM, em Congonhas, e os comentários veiculados em meios de comunicação de que o aeroporto de Ilhéus é o segundo mais perigoso do País produziram impacto no sul da Bahia. Vêm à tona, então, as condições das rodoviárias e das estradas na região.

A estudante de medicina Juliana Botelho, por exemplo, chama a atenção para os problemas nas viagens pelas rodovias do eEstado.

Para ela, pior do que viajar em cadeiras desconfortáveis é o medo dos assaltos, que é maior nas viagens noturnas. `Não consigo dormir, porque não tem travesseiro para acomodar a cabeça. Este é um privilégio só para quem viaja de ônibus leito`, reclama.

Para a empresária Luize Viana, quem quiser um pouquinho de conforto em ônibus deve optar pelo leito. Mesmo assim, avisa, as estradas são muito ruins.

SEM HIGIENE - Luize ainda fala da sujeira de banheiros de alguns pontos de parada dos ônibus. Há casos de descargas quebradas e vasos sanitários muito sujos. A bancária ilheense Ana Lívia Lima conta que, em recente viagem a Salvador, uma criança passou mal e vomitou na cabeça dela. A mãe da menina procurou um saquinho plástico para a emergência, mas não encontrou. O mau cheiro foi até o fim da viagem, porque a empresa não se preocupou em limpar quando o ônibus fez uma parada.

Ana Lívia diz que a questão da higiene é agravada pela falta de educação das pessoas.

Já a representante comercial Milena Fernandes aponta o ar-condicionado dos veículos como outro problema nas viagens rodoviárias.

Segundo ela, se o motorista aliviar para quem está congelando, o pessoal que está atrás, mais perto do motor do veículo, reclama do calor. `Quem num avião faz esse tipo de reclamação?`, indaga ela.

O terminal de Itabuna é até conservado e tem espaço. O de Ilhéus é apenas razoável. Nas demais cidades da região, onde há paradas, além da higiene precária, as áreas de embarque e desembarque são pequenas, provocando a aglomeração de pessoas e bagagens.

O advogado e ex-vereador de Itabuna, Raimundo de Souza, lembra que, para quem dirige, a má conservação das estradas provoca muito estresse. De Itabuna a Salvador, há trechos ruins na BR-101, com o agravante de não haver sinalização.

Raimundo de Souza revela que, ao viajar à noite, muitas vezes conduz o veículo pelo acostamento, com medo dos caminhões que trafegam com luz alta, o que impede a visibilidade.

Voltar Aeroporto é opção procurada por poucos em Barreiras

Passageiros que fazem o percurso Salvador a Barreiras de ônibus, em um total de 870 km, podem se utilizar de ônibus leito ou convencional através da empresa Real Expresso, gastando em média 12 horas, ou avião, cuja viagem é feita em uma hora e meia, com a empresa Passaredo Linhas Aéreas.

Os preços das passagens ainda têm sido fator determinante para que um número maior de pessoas opte pelo sistema terrestre, haja vista que a pista do Aeroporto de Barreiras, de 1.600 metros de comprimento, não permite o pouso e decolagem de aeronaves dos tipos Boeing e Fokker. A única linha existente é feita com um aparelho tipo Brasília, de 30 lugares, com valores que variam de R$ 750 (tarifa cheia) a R$ 199 (para alguns dias da semana, comprando com antecedência e com limite máximo de oito lugares por viagem). A tarifa normal é de R$ 420.

`O avião é mais rápido, mas especificamente o Camabus também é confortável, e, pela diferença de preços, compensa vir de ônibus`, diz o publicitário Pedro Mendonça, acrescentado que dorme a viagem toda. O consultor de vendas Almir Manoel também cita o valor das passagens aéreas como impedimento. `Com o leito, a gente chega descansado e pode trabalhar no mesmo dia`, enfatiza. A passagem em ônibus leito, para Salvador, custa cerca de R$ 200.

Já a relações-públicas Renata Rodrigues diz que a viagem no ônibus convencional `é extremamente cansativa e desconfortável`. Ela ressalta que as condições das rodovias, na região, melhoraram.

Mesmo assim, existe sempre o medo de assaltos e acidentes. A passagem no convencional, para Salvador, custa em torno de R$ 80.

ESTATÍSTICAS - O inspetor da Policia Rodoviária Federal Vanderlúcio Alves atribui ao caos aéreo o crescimento no número de mortos em acidentes rodoviários na região de Barreiras. `Mais pessoas estão optando por viajar de carro` revela o inspetor.

Outro fator apontado por Vanderlúcio Alves é a liberação da pista da BR-242, que foi entregue, reformada, sem a devida sinalização horizontal. Entre janeiro e julho deste ano, aconteceram 156 ocorrências, enquanto que, no mesmo período do ano passado, foram 124 acidentes.

Fonte: Jornal A Tarde

EDER LUIS SANTANA E GLEISON REZENDVE

SUCURSAL EUNÁPOLIS

eluis@grupoatarde.com.br

eunapolis@grupoatarde.com.br

Em 20/08/2007.