Expoente da lusofonia

09/08/2007
ACachoeira dos terreiros de cumeada e da sobradaria barroca, da Pedra da Baleia e da Ponte Dom Pedro II, dos velhos engenhos à beira do rio e da centenária sinfônica, terra-máter dos Tincoãs e poetas de massapê, agora escorre língua portuguesa abaixo.

Expoente cultural do recôncavo baiano e referência obrigatória na história do período colonial brasileiro, a urbe que dormitava sobre paralelepípedos cansados promete acordar para viver uma nova responsabilidade: ser a sede da primeira casa da lusofonia no Brasil.

A criação da entidade foi aprovada e oficializada ontem pela manhã, em reunião extraordinária do Conselho Acadêmico da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), com a posse da Comissão de Instalação, presidida pelo poeta cachoeirense Damário da Cruz. A Casa da Lusofonia Agostinho da Silva vai funcionar como um espaço dedicado a promover, por meio de uma rede cultural, a troca constante de informações, intercâmbios, eventos e programas educativos entre os países lusófonos (de língua portuguesa).

`Nós escolhemos Cachoeira pelo significado histórico e simbólico da cidade - profundamente ligada à presença de Portugal no Brasil - e à passagem por lá de um intelectual notável, Agostinho da Silva (fundador do Centro de Estudos Afro-orientais da Universidade Federal da Bahia), um visionário, precursor do ideal da lusofonia`, explica Mário Alves, presidente da organização não-governamental Etnia - Cultura e Desenvolvimento, responsável pelo projeto.

Para o ex-secretário de Formulação e Avaliação das Políticas Culturais do Ministério da Cultura e professor do Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, Paulo Miguez, a cultura é o eixo que pode aproximar Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste de forma mais profunda. `A casa da lusofonia vem nessa linha, enquanto espaço de circulação de várias manifestações de caráter permanente, sendo muito mais do que simples palco para a passagem de um ou outro grupo artístico`.

Sede - As conversas com a Secretaria de Cultura do Estado e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), tendo em vista a negociação de um conjunto de prédios para a instalação de unidades da universidade e, conseqüentemente, da casa da lusofonia, já começaram. Miguez informa que a unidade tem, inclusive, a possibilidade de iniciar as atividades independentemente de se ter uma sede física definida, coisa prevista para 12 a 18 meses.

A segunda casa da lusofonia no Brasil já está em vias de consolidação: em Itabira (MG), terra de Carlos Drummond de Andrade, em parceria com a fundação que leva o mesmo nome. Há protocolos de intenção também para a instalação de uma unidade em Fortaleza (CE) e de salas da lusofonia em algumas cidades do Rio Grande do Norte, em parceria com a Fundação José Augusto.

`Demos prioridade ao Brasil por ser o maior dos países de língua portuguesa, o de maior vivacidade popular interna, representando a síntese de toda a mestiçagem da cultura lusófona, e por apresentar o maior grau de desconhecimento sobre os outros países de língua portuguesa`, argumenta Mário Alves.

Para o poeta e presidente da Comissão de Instalação, Damário da Cruz, o projeto vem atender a uma demanda adormecida. `Não dá para pensar saudosamente, passivamente e cantando, que o povo de Cachoeira não navega mais no mar. Precisamos é navegar com novos vapores, fazendo com que nossos jovens poetas, fotógrafos e dramaturgos tenham visibilidade internacional. Ao mesmo tempo, precisamos ver o fazer do outro, e é trocando essas informações que a gente se torna melhor sem ter que abandonar a própria identidade`.

Fonte: Jornal Correio da Bahia

Repórter: Ciro Brigham

09/08/07