15/02/2008
O que era para ser um debate no Senado sobre a transposição do São Francisco, com a presença de ministros, parlamentares, cientistas, representantes da Igreja Católica e os atores Osmar Prado, Carlos Vereza e Letícia Sabatella, virou uma guerra verbal entre o ex-ministro e hoje deputado Ciro Gomes (PSB-CE) e d. Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA). O bispo chamou o projeto de `propaganda enganosa`. `O pobre vai colocar a mesa para o rico`, disse, referindo-se à idéia de que a população vai pagar a conta da água para `agricultura irrigada, criação de camarão e usos industriais`.
Ciro reagiu e acusou frei Cappio de integrar uma espécie de rede de `falsa anunciação`, que distorce os objetivos da transposição, ao acusar o governo de se mover pelo interesse `subalterno, clandestino, não confessado e safado de atender ao grande negócio e às empreiteiras e coisas que tal`. Irritado com o bispo, que por duas vezes fez greve de fome em protesto contra a obra no São Francisco, o ex-ministro disse não admitir que o religioso se considere `intérprete superior do valor moral e ponha o modesto militante de 30 anos na vida publica` como alguém que está se movimentando por interesses subalternos.
`Eu não sou movido por interesses subalternos. Eu estou aqui, equivocadamente ou não, movido pelo mais superior interesse público`, discursou Ciro. `Eu não falo por Deus. Eu falo pelo mundanismo dos pecadores, como sou um deles.` E cobrou atitude do bispo: `Olhe para mim, d. Cappio.` O bispo olhou.
Antes, em sua fala, frei Cappio não se dirigiu diretamente a Ciro uma única vez. Destacando que falava em nome do `povo do Rio São Francisco`, de `nações indígenas, quilombolas, brasileiros e brasileiras que se preocupam com a vida`, criticou o governo e disse que a transposição viola os direitos das populações ribeirinhas. `Um projeto dessa magnitude exige diálogo com a sociedade e o governo nunca dialogou com a sociedade.`
Em mais de cinco horas de discussão sobre o tema - a pedido do senador Eduardo Suplicy (SP), quatro comissões do Senado se reuniram ontem pela manhã com autoridades, pesquisadores, religiosos e ambientalistas -, frei Cappio sugeriu a elaboração de projetos alternativos para resolver o problema no Nordeste. Eles teriam de ser, segundo ele, propostas `economicamente mais abrangentes, ecologicamente mais sustentáveis, socialmente mais justas e eticamente mais corretas`.
DESEDUCAÇÃO
O tom ríspido adotado por Ciro causou constrangimento no plenário. Admitindo que poderia ter passado do ponto, o ex-ministro voltou à tribuna para responder às críticas da atriz Letícia Sabatella, também contrária ao projeto. Abriu a segunda intervenção, no entanto, pedindo desculpas por sua `deseducação` com frei Cappio. `Meu incômodo é acumulado em uma série de coisas, mas não justifica a minha deseducação.` Foi timidamente aplaudido.
Mas o diálogo com Letícia Sabatella também foi duro. Ela elogiou a iniciativa do Senado em discutir o tema, mas considerou o debate tardio e ainda alfinetou: `Espero que não tenha sido teatro.`
Dirigindo-se à atriz, o ex-ministro voltou, então, a exercitar seu estilo pouco polido. Disse que, como opção de combate pela transposição, resolveu `meter a mão na massa`. `E às vezes (a mão) fica suja de cocô`, concluiu. Enquanto ele discursava, Sabatella o interrompeu várias vezes. Argumentou que a água é necessária à vida e não se pode reduzi-la à condição de mercadoria. `Nem conhecemos toda a riqueza da diversidade de nosso país e já trocamos o que conhecemos por pseudodesenvolvimento, que será a riqueza de poucos`, observou.
Outro momento tenso foi quando frei Cappio afirmou que a disponibilidade hídrica por habitante é maior na região metropolitana de Fortaleza (CE) do que na de São Paulo. Da tribuna, encarando o bispo, Tasso Jereissati (PSDB-CE) cobrou: ` É preciso um debate intelectualmente honesto. Dizer que Fortaleza tem mais água que São Paulo é uma mentira. É um absurdo que chega até a ofender o povo cearense.`
Repórter: Ana Paula Scinocca
Fonte: O Estado de S. Paulo
Em 15/02/2008
Ciro reagiu e acusou frei Cappio de integrar uma espécie de rede de `falsa anunciação`, que distorce os objetivos da transposição, ao acusar o governo de se mover pelo interesse `subalterno, clandestino, não confessado e safado de atender ao grande negócio e às empreiteiras e coisas que tal`. Irritado com o bispo, que por duas vezes fez greve de fome em protesto contra a obra no São Francisco, o ex-ministro disse não admitir que o religioso se considere `intérprete superior do valor moral e ponha o modesto militante de 30 anos na vida publica` como alguém que está se movimentando por interesses subalternos.
`Eu não sou movido por interesses subalternos. Eu estou aqui, equivocadamente ou não, movido pelo mais superior interesse público`, discursou Ciro. `Eu não falo por Deus. Eu falo pelo mundanismo dos pecadores, como sou um deles.` E cobrou atitude do bispo: `Olhe para mim, d. Cappio.` O bispo olhou.
Antes, em sua fala, frei Cappio não se dirigiu diretamente a Ciro uma única vez. Destacando que falava em nome do `povo do Rio São Francisco`, de `nações indígenas, quilombolas, brasileiros e brasileiras que se preocupam com a vida`, criticou o governo e disse que a transposição viola os direitos das populações ribeirinhas. `Um projeto dessa magnitude exige diálogo com a sociedade e o governo nunca dialogou com a sociedade.`
Em mais de cinco horas de discussão sobre o tema - a pedido do senador Eduardo Suplicy (SP), quatro comissões do Senado se reuniram ontem pela manhã com autoridades, pesquisadores, religiosos e ambientalistas -, frei Cappio sugeriu a elaboração de projetos alternativos para resolver o problema no Nordeste. Eles teriam de ser, segundo ele, propostas `economicamente mais abrangentes, ecologicamente mais sustentáveis, socialmente mais justas e eticamente mais corretas`.
DESEDUCAÇÃO
O tom ríspido adotado por Ciro causou constrangimento no plenário. Admitindo que poderia ter passado do ponto, o ex-ministro voltou à tribuna para responder às críticas da atriz Letícia Sabatella, também contrária ao projeto. Abriu a segunda intervenção, no entanto, pedindo desculpas por sua `deseducação` com frei Cappio. `Meu incômodo é acumulado em uma série de coisas, mas não justifica a minha deseducação.` Foi timidamente aplaudido.
Mas o diálogo com Letícia Sabatella também foi duro. Ela elogiou a iniciativa do Senado em discutir o tema, mas considerou o debate tardio e ainda alfinetou: `Espero que não tenha sido teatro.`
Dirigindo-se à atriz, o ex-ministro voltou, então, a exercitar seu estilo pouco polido. Disse que, como opção de combate pela transposição, resolveu `meter a mão na massa`. `E às vezes (a mão) fica suja de cocô`, concluiu. Enquanto ele discursava, Sabatella o interrompeu várias vezes. Argumentou que a água é necessária à vida e não se pode reduzi-la à condição de mercadoria. `Nem conhecemos toda a riqueza da diversidade de nosso país e já trocamos o que conhecemos por pseudodesenvolvimento, que será a riqueza de poucos`, observou.
Outro momento tenso foi quando frei Cappio afirmou que a disponibilidade hídrica por habitante é maior na região metropolitana de Fortaleza (CE) do que na de São Paulo. Da tribuna, encarando o bispo, Tasso Jereissati (PSDB-CE) cobrou: ` É preciso um debate intelectualmente honesto. Dizer que Fortaleza tem mais água que São Paulo é uma mentira. É um absurdo que chega até a ofender o povo cearense.`
Repórter: Ana Paula Scinocca
Fonte: O Estado de S. Paulo
Em 15/02/2008