06/06/2008
A conta do acionamento das usinas térmicas para permitir a recuperação do nível dos reservatórios de hidrelétricas já superou R$ 1 bilhão e vai pressionar o reajuste de tarifas das distribuidoras de energia nos próximos meses, tornando mais difícil a tarefa do governo de manter a inflação sob controle. De janeiro a abril, período em que as térmicas ficaram ligadas por razões de segurança energética, a conta do Encargo de Serviços do Sistema (ESS) chegou a R$ 1,082 bilhão, segundo números recém-divulgados pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Foram R$ 305 milhões apenas em abril.
O encargo é cobrado de todos os consumidores do sistema interligado sempre que as termelétricas são acionadas por motivos emergenciais. No primeiro quadrimestre, o governo manteve essas usinas ligadas mesmo quando o preço da energia gerada por elas estava mais caro do que o megawatt-hora (MWh) no mercado de curto prazo. Foi uma forma de ajudar a recuperação dos reservatórios e dar maior segurança ao sistema não apenas em 2008, mas também nos anos seguintes. A mesma conta atingiu R$ 24 milhões nos quatro primeiros meses de 2007.
O ESS cobre a diferença entre o valor de mercado da energia e o custo de operação das térmicas. É pago todos os meses pelas distribuidoras e pelos consumidores livres (geralmente indústrias que podem escolher onde comprar a energia). As distribuidoras podem repassar essa despesa aos consumidores residenciais e comerciais mediante autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no momento do reajuste anual de suas tarifas.
Fontes do setor calculam que somente o repasse do ESS referente ao período janeiro a abril deverá pressionar as tarifas em pelo menos 0,8 ponto percentual. Mas é impossível fazer estimativas sobre o valor do reajuste das distribuidoras com base apenas nisso, pois outros fatores influenciam o cálculo.
`Nunca se pagou tanto de ESS como agora`, diz Ricardo Lima, presidente da Abrace, associação que representa os consumidores livres e grandes consumidores industriais de energia. `É um custo que acabará tendo impactos na inflação lá na frente`, observa o executivo. Segundo ele, isso deve ocorrer não apenas pelo aumento das contas residenciais de luz, mas também porque eleva os custos industriais e pressiona para cima os preços dos produtos fabricados.
Após um susto em janeiro, devido ao atraso na chegada do período chuvoso, o governo decidiu ligar térmicas movidas a óleo combustível e a gás. Os reservatórios já se recuperaram e estão com mais de 80% de sua capacidade, mesmo nas regiões Sudeste e Nordeste, onde a situação no início do ano era mais preocupante. Apesar da folga no volume de água armazenada, boa parte das termelétricas continua em funcionamento por segurança do sistema e para ajudar no abastecimento da Argentina.
Na semana entre 26 de maio e 3 de junho, o Brasil enviou cerca de 1.200 MW médios para o país vizinho. Do total, cerca de 400 MW são de fonte hídrica e o restante provém de térmicas. Para o presidente da Abrace, é `absurdo` exportar energia hidrelétrica e continuar pagando o encargo pelo acionamento das térmicas. A Argentina paga a energia térmica - mais cara - que importa a preços de mercado, mas o ESS sobre essa eletricidade continua entrando na conta dos brasileiros, protesta Lima.
`Não achamos isso justo`, assinala o executivo. Pelo acordo entre os dois países, a Argentina devolverá ao Brasil, no fim do ano, a energia consumida agora das hidrelétricas. `Mas sabemos que, em outras ocasiões, os argentinos descumpriram acordos feitos conosco`, recorda. Uma das causas para o sufoco vivido pelo setor elétrico no início do ano foi a interrupção do fornecimento de eletricidade (até 2,2 mil MW) e de gás natural da Argentina (para abastecer a usina de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul).
Lima também se opõe ao método atual de cobrança do ESS, que incide apenas sobre os consumidores (livres e cativos) de energia. Para ele, o mais justo é fazer o rateio entre todos agentes do setor, incluindo geradores.
Repórter: Daniel Rittner
Fonte: Valor Econômico
6/6/2008.
O encargo é cobrado de todos os consumidores do sistema interligado sempre que as termelétricas são acionadas por motivos emergenciais. No primeiro quadrimestre, o governo manteve essas usinas ligadas mesmo quando o preço da energia gerada por elas estava mais caro do que o megawatt-hora (MWh) no mercado de curto prazo. Foi uma forma de ajudar a recuperação dos reservatórios e dar maior segurança ao sistema não apenas em 2008, mas também nos anos seguintes. A mesma conta atingiu R$ 24 milhões nos quatro primeiros meses de 2007.
O ESS cobre a diferença entre o valor de mercado da energia e o custo de operação das térmicas. É pago todos os meses pelas distribuidoras e pelos consumidores livres (geralmente indústrias que podem escolher onde comprar a energia). As distribuidoras podem repassar essa despesa aos consumidores residenciais e comerciais mediante autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no momento do reajuste anual de suas tarifas.
Fontes do setor calculam que somente o repasse do ESS referente ao período janeiro a abril deverá pressionar as tarifas em pelo menos 0,8 ponto percentual. Mas é impossível fazer estimativas sobre o valor do reajuste das distribuidoras com base apenas nisso, pois outros fatores influenciam o cálculo.
`Nunca se pagou tanto de ESS como agora`, diz Ricardo Lima, presidente da Abrace, associação que representa os consumidores livres e grandes consumidores industriais de energia. `É um custo que acabará tendo impactos na inflação lá na frente`, observa o executivo. Segundo ele, isso deve ocorrer não apenas pelo aumento das contas residenciais de luz, mas também porque eleva os custos industriais e pressiona para cima os preços dos produtos fabricados.
Após um susto em janeiro, devido ao atraso na chegada do período chuvoso, o governo decidiu ligar térmicas movidas a óleo combustível e a gás. Os reservatórios já se recuperaram e estão com mais de 80% de sua capacidade, mesmo nas regiões Sudeste e Nordeste, onde a situação no início do ano era mais preocupante. Apesar da folga no volume de água armazenada, boa parte das termelétricas continua em funcionamento por segurança do sistema e para ajudar no abastecimento da Argentina.
Na semana entre 26 de maio e 3 de junho, o Brasil enviou cerca de 1.200 MW médios para o país vizinho. Do total, cerca de 400 MW são de fonte hídrica e o restante provém de térmicas. Para o presidente da Abrace, é `absurdo` exportar energia hidrelétrica e continuar pagando o encargo pelo acionamento das térmicas. A Argentina paga a energia térmica - mais cara - que importa a preços de mercado, mas o ESS sobre essa eletricidade continua entrando na conta dos brasileiros, protesta Lima.
`Não achamos isso justo`, assinala o executivo. Pelo acordo entre os dois países, a Argentina devolverá ao Brasil, no fim do ano, a energia consumida agora das hidrelétricas. `Mas sabemos que, em outras ocasiões, os argentinos descumpriram acordos feitos conosco`, recorda. Uma das causas para o sufoco vivido pelo setor elétrico no início do ano foi a interrupção do fornecimento de eletricidade (até 2,2 mil MW) e de gás natural da Argentina (para abastecer a usina de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul).
Lima também se opõe ao método atual de cobrança do ESS, que incide apenas sobre os consumidores (livres e cativos) de energia. Para ele, o mais justo é fazer o rateio entre todos agentes do setor, incluindo geradores.
Repórter: Daniel Rittner
Fonte: Valor Econômico
6/6/2008.