24/11/2008
Um forte pessimismo em relação à situação da economia global foi a tônica dominante dos debates, o que se traduziu em visões bastante negativas para o futuro próximo da América Latina. Para o presidente da Lacea, Mauricio Cárdenas, uma parada súbita no fluxo de capitais para a região está próxima ou talvez já esteja em curso, um movimento que ajuda a explicar as fortes desvalorizações cambiais que atingiram países como o Brasil nos últimos meses. Se o canal financeiro está travado, as perspectivas tampouco são animadoras do lado da economia real. Cárdenas lembrou que os preços das commodities recuaram 16% no último mês, uma péssima notícia para uma região em que os produtos primários respondem por cerca de metade da pauta de exportações - no caso do Brasil, a 53,5%, segundo ele.
Também membro do Brookings Institute, Cárdenas destacou que o comportamento da economia chinesa será crucial para as perspectivas econômicas latino-americanas, dado o apetite da China por commodities. Como as perspectivas para as exportações da China não são das melhores e boa parte dos investimentos é feita em setores exportadores, o país pode sofrer uma desaceleração significativa do crescimento em 2009.
Charles Calomiris, da Universidade de Columbia, mostrou a mesma preocupação com o país asiático, acrescentando que a China funciona como um bom `indicador antecedente` do que vai ocorrer na América Latina. `A China é de fato um bom indicador para a conta corrente da região. Para a conta de capitais, o indicador antecedente é Nova York`, completou Cárdenas.
A situação financeira global está longe de ser tranqüila, destacaram vários analistas. O economista Michael Dooley, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz (EUA), disse que houve alguma estabilização nas últimas semanas da situação dos bancos nos EUA e na Europa, mas o panorama para o sistema financeiro `fora dos bancos` continua complicado. Por estarem mais protegidos, os bancos acabam `sugando` recursos de outras partes do sistema financeiro e de países que estão fora dessa rede de proteção.
Esse fenômeno ajudaria a explicar a onda de depreciação do câmbio em muitos países emergentes. Ao comentar a desvalorização do real, Dooley afirmou que se trata de um processo que não deriva de um problema do Brasil, mas sim de um movimento `geral e severo` de desalavancagem (redução de endividamento e crédito) de ativos financeiro no mundo inteiro. Num cenário de incerteza como esse, pouco importa se o país tem US$ 200 bilhões de reservas e segue políticas saudáveis.
O economista Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard, também vê dias difíceis para a América Latina, mas acredita que a reação será bem diferente no caso dos `bons e dos maus sujeitos`. Bons sujeitos como Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru, que mantiveram políticas fiscais e monetárias responsáveis, sofrerão um pouco e terão algumas dificuldades, mas não terão os problemas drásticos de Venezuela e Argentina, disse o venezuelano Hausmann. Para ele, esses dois países terão momentos muito difíceis pela frente, dada a adoção de políticas populistas nos últimos anos.
No Congresso realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), discutiu-se bastante se os países latino-americanos têm espaço para adotar estímulos fiscais e monetárias para contrabalançar os efeitos da crise, como têm feito os países desenvolvidos. Em geral, aumentos de gastos públicos foram vistos com reservas - o ideal seria contê-los, até para permitir reduções de juros caso não surjam pressões inflacionárias relevantes.
Márcio Garcia, da PUC-Rio, seguiu essa linha de argumentação para o caso brasileiro. Ele ressaltou que, como os gastos correntes (pessoal, aposentadorias, custeio da máquina pública, programas como o Bolsa Família) já vêm crescendo com força nos últimos anos, seria uma má idéia aumentá-los. Se alguma despesa tiver de crescer, que sejam os destinados a investimentos - o problema é que o governo demonstra dificuldades gerenciais em elevar as inversões, disse ele. Com isso, a melhor estratégia seria conter a expansão dos gastos correntes, o que pode abrir espaço para o uso da política monetária.
O ex-diretor do Banco Central (BC) Ilan Goldfajn, sócio da Ciano Investimentos, também disse que o país não deve adotar medidas de estímulo fiscal. Num cenário em que as receitas do governo tendem a cair devido à desaceleração da atividade econômica, seria uma péssima idéia elevar despesas que possam comprometer o cumprimento de metas fiscais. Segundo Goldfajn, se a arrecadação cair com força e tiver ocorrido aumento expressivo dos gastos, podem voltar a surgir dúvidas quanto à sustentabilidade da dívida pública, que, para ele, não `é tão pequena como muitos acreditam` - está hoje na casa de 40% do Produto Interno Bruto (PIB).
Num momento de crise, isso seria o `beijo da morte`, disse Goldfajn. Para ele, se houver espaço para o Brasil fazer políticas contracíclicas, o ideal é que seja por meio da política monetária. Como os juros reais ainda são muito elevados, o país pode ter aí um instrumento mais eficaz para estimular a atividade econômica caso a desaceleração da economia seja significativa. Goldfajn lembrou que a queda dos preços das commodities terá um impacto favorável para o controle da inflação, provavelmente compensando os efeitos negativos do dólar mais caro.
Cárdenas também acredita que, no curto prazo, é mais eficiente usar a política monetária do que aumentar os gastos públicos. Se algo for feito em termos de política fiscal, o ideal é que seja um estímulo temporário - e voltado para investimentos, afirmou ele.
Autor(es): Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico
- 24/11/2008.
Também membro do Brookings Institute, Cárdenas destacou que o comportamento da economia chinesa será crucial para as perspectivas econômicas latino-americanas, dado o apetite da China por commodities. Como as perspectivas para as exportações da China não são das melhores e boa parte dos investimentos é feita em setores exportadores, o país pode sofrer uma desaceleração significativa do crescimento em 2009.
Charles Calomiris, da Universidade de Columbia, mostrou a mesma preocupação com o país asiático, acrescentando que a China funciona como um bom `indicador antecedente` do que vai ocorrer na América Latina. `A China é de fato um bom indicador para a conta corrente da região. Para a conta de capitais, o indicador antecedente é Nova York`, completou Cárdenas.
A situação financeira global está longe de ser tranqüila, destacaram vários analistas. O economista Michael Dooley, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz (EUA), disse que houve alguma estabilização nas últimas semanas da situação dos bancos nos EUA e na Europa, mas o panorama para o sistema financeiro `fora dos bancos` continua complicado. Por estarem mais protegidos, os bancos acabam `sugando` recursos de outras partes do sistema financeiro e de países que estão fora dessa rede de proteção.
Esse fenômeno ajudaria a explicar a onda de depreciação do câmbio em muitos países emergentes. Ao comentar a desvalorização do real, Dooley afirmou que se trata de um processo que não deriva de um problema do Brasil, mas sim de um movimento `geral e severo` de desalavancagem (redução de endividamento e crédito) de ativos financeiro no mundo inteiro. Num cenário de incerteza como esse, pouco importa se o país tem US$ 200 bilhões de reservas e segue políticas saudáveis.
O economista Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard, também vê dias difíceis para a América Latina, mas acredita que a reação será bem diferente no caso dos `bons e dos maus sujeitos`. Bons sujeitos como Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru, que mantiveram políticas fiscais e monetárias responsáveis, sofrerão um pouco e terão algumas dificuldades, mas não terão os problemas drásticos de Venezuela e Argentina, disse o venezuelano Hausmann. Para ele, esses dois países terão momentos muito difíceis pela frente, dada a adoção de políticas populistas nos últimos anos.
No Congresso realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), discutiu-se bastante se os países latino-americanos têm espaço para adotar estímulos fiscais e monetárias para contrabalançar os efeitos da crise, como têm feito os países desenvolvidos. Em geral, aumentos de gastos públicos foram vistos com reservas - o ideal seria contê-los, até para permitir reduções de juros caso não surjam pressões inflacionárias relevantes.
Márcio Garcia, da PUC-Rio, seguiu essa linha de argumentação para o caso brasileiro. Ele ressaltou que, como os gastos correntes (pessoal, aposentadorias, custeio da máquina pública, programas como o Bolsa Família) já vêm crescendo com força nos últimos anos, seria uma má idéia aumentá-los. Se alguma despesa tiver de crescer, que sejam os destinados a investimentos - o problema é que o governo demonstra dificuldades gerenciais em elevar as inversões, disse ele. Com isso, a melhor estratégia seria conter a expansão dos gastos correntes, o que pode abrir espaço para o uso da política monetária.
O ex-diretor do Banco Central (BC) Ilan Goldfajn, sócio da Ciano Investimentos, também disse que o país não deve adotar medidas de estímulo fiscal. Num cenário em que as receitas do governo tendem a cair devido à desaceleração da atividade econômica, seria uma péssima idéia elevar despesas que possam comprometer o cumprimento de metas fiscais. Segundo Goldfajn, se a arrecadação cair com força e tiver ocorrido aumento expressivo dos gastos, podem voltar a surgir dúvidas quanto à sustentabilidade da dívida pública, que, para ele, não `é tão pequena como muitos acreditam` - está hoje na casa de 40% do Produto Interno Bruto (PIB).
Num momento de crise, isso seria o `beijo da morte`, disse Goldfajn. Para ele, se houver espaço para o Brasil fazer políticas contracíclicas, o ideal é que seja por meio da política monetária. Como os juros reais ainda são muito elevados, o país pode ter aí um instrumento mais eficaz para estimular a atividade econômica caso a desaceleração da economia seja significativa. Goldfajn lembrou que a queda dos preços das commodities terá um impacto favorável para o controle da inflação, provavelmente compensando os efeitos negativos do dólar mais caro.
Cárdenas também acredita que, no curto prazo, é mais eficiente usar a política monetária do que aumentar os gastos públicos. Se algo for feito em termos de política fiscal, o ideal é que seja um estímulo temporário - e voltado para investimentos, afirmou ele.
Autor(es): Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico
- 24/11/2008.