24/04/2008
Os bairros do subúrbio ferroviário estão entre aqueles que têm o maior risco de dengue, de acordo com o mapa da doença, divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Ali, a água não chega todos os dias. Quando chega, vale tudo na hora de reservar o líquido para os dias de seca. Os reservatórios improvisados e as fontes remanescentes dos mananciais locais são as soluções encontradas. As autoridades de Saúde do Estado e do município reconhecem a relação entre as falhas do abastecimento de água e a doença, o que faz com o problema, que tem sido apontado por sanitaristas desde o advento do programa Bahia Azul, deva ter prioridade nas ações da campanha Todos contra a Dengue, lançada na semana passada pelo governador Jaques Wagner.
Para a subcoordenadora de Zoonoses da SMS, Josélia Sande, `a irregularidade do abastecimento tem sido um fator importante para os criadouros em potencial do mosquito da dengue`.
Segundo ela, esta situação `contribui muito para aumentar o risco da doença`. Ela ressalta que a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) `tem ciência disso, pois passamos a relação de todas as áreas que têm irregularidade no abastecimento`.
`Sabemos que é um problema estrutural, que não se resolve de pronto, mas só o fato de a Embasa estar no comitê indica que já é um salto de qualidade`, falou.
A situação é confirmada também pela superintendente de Vigilância e Proteção à Saúde, Loreni Pinto, que é suplente do secretário estadual de Saúde, Jorge Solla, no comitê estadual da campanha. `A irregularidade no abastecimento é o que faz com que as pessoas tenham que armazenar água da forma que é possível e muitas vezes inadequadamente`, disse. Segundo ela, as reservas inadequadas estão em primeiro lugar no Nordeste entre os criadouros do mosquito. Para Loreni, a liderança assumida pelo governador é indicador de que a situação terá o enfrentamento que merece, enquanto assunto de políticas públicas e não só de saúde.
MABAÇO - Por falta de água constante na torneira, a dona-de-casa Maria José dos Santos da Silva, 41 anos, tratava peixes em um só recipiente ontem.
Na panela, os xangós, depois de abertos, eram mergulhados em um caldo amarronzado para a retirada das vísceras. Enquanto preparava o alimento da família, ela contou que na Travessa Mabaço de Cima, a água falta até por 8 dias. `Temos que ir buscar na fonte, lá embaixo`. Na sua casa, o marido, José Bonifácio, 37 anos, e a filha pequena tiveram dengue.
A menina já estava bem, mas não tirava o olho da TV, que passava o DVD da `dança do creu`. `É ela que pede para passar`, dizia a mãe.
Na mesma travessa, a cadela Meg, de dona Eliete dos Santos, de olho nos xangós, avançou contra as visitas. A senhora acalmou o animal e foi até o fundo da casa mostrar os tonéis onde reserva água. Um deles estava destampado.
Ela dava graças a Deus por ainda não ter tido dengue e pelo tonel estar cheio. `A água não vem todo dia. Quando não vem, a solução é ir pegar na fonte`, disse.
A fonte `redentora` fica na Travessa Antônio Bandeira, ladeira abaixo da Mabaço de Cima.
É um olho d`água que já alimentou o córrego que descia do Mabaço até desembocar na Praia de Itacaranha, perto dali. O córrego foi parcialmente entubado em manilhas de concreto durante as obras do programa Bahia Azul.
Segundo Alaíde Bonfim Gonzaga, era um córrego limpo até passar a receber os esgotos das moradias, a montante. O córrego passa ao lado da fonte já livre das manilhas exalando mau cheiro de esgoto. Apesar de usada quando falta a água da rede pública, não há informação no local que garanta a potabilidade da fonte.
PROVIDÊNCIAS - A veterana líder comunitária de Plataforma, Julieta Fernandes, 70 anos, avisou: `Estamos articulando um grande movimento para pedir providências`. Segundo ela, o abastecimento irregular contribui para aumentar o risco da dengue no subúrbio. `A maioria aqui não tem condições de ter bons reservatórios`, disse ela, na sede da Associação de Moradores de Plataforma (Ampla). `Regular aqui, só a conta da Embasa`, disse. Em sua opinião, a água deveria correr constantemente.
Na pequena sala da diretoria da Ampla, a garota que atendia ao telefone informou: `É uma pessoa reclamando de febre, dor de cabeça e diarréia`. `Ta vendo aí? É todo dia isso!`, disse Julieta, destacando que os casos da doença estão freqüentes no bairro.
`Eu já tive, e meu filho também.
Ele, foram duas vezes e não pode ter mais...`, falou com preocupação.
Em Paripe, a moradora da Rua 8 de Dezembro Eliana Silva Tavares, 37 anos, também tinha motivos para reclamar. É que, para poder lavar a roupa da família, tem que se levantar às 4h30, porque a água só cai até as 10h. `E aí só volta tarde da noite`, disse.
Embasa aposta no PAC para resolver o problema
O diretor de operações da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), Eduardo Araújo, disse reconhecer as dificuldades de abastecimento no subúrbio, mas não concorda com a relação `tão direta` entre a irregularidade no abastecimento e o aumento do risco de dengue. `O risco do abastecimento irregular não se compara com os outros fatores de risco que contribuem para a proliferação do mosquito`, disse, sem citar que fatores seriam mais importantes. Ele ressalta que as más condições dos reservatórios também ocorrem em bairros onde o abastecimento é regular.
Ele disse que não procede a informação de que haja locais onde a água falte por dias seguidos.
`Eventualmente pode haver falta de água no subúrbio e também na região do miolo (entre a BR-324 e a Paralela) porque há dificuldade de pressão para abastecimento por 24 horas, mas não deixamos de abastecer à noite`, disse ele.
Araújo destacou que, de 2002 para cá, as reclamações de falta de água caíram sensivelmente.
Segundo ele, a solução definitiva deste problema requer pelo menos dois anos, até que os investimentos que estão sendo feitos estejam em operação. Ele destacou os recursos de R$ 83 milhões provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinados ao aumento do abastecimento em Salvador.
PESQUISA - A irregularidade no abastecimento de água foi tratada em pesquisa de doutorado da engenheira sanitarista Patrícia Borja, da Universidade Federal da Bahia (Ufba). O estudo, feito em 2002, no advento do programa Bahia Azul, aponta que `as áreas mais atingidas pela intermitência do serviço são as que abrigam população de baixa renda.
Metade das áreas estudadas recebe água de forma intermitente em cerca de 40% das suas vias. Nas microáreas das bacias de Paripe, Periperi e Cobre - área de baixa renda -, em mais de 90% das vias, o fornecimento era intermitente nas duas etapas da pesquisa`.
Aos 84 anos, Joaquim de Souza ainda vivencia este problemas.
A sua casa é a de número 84 na Rua Batista Machado, em Plataforma.
É rápido em responder que a água não chega à sua casa todos os dias. `Aqui fica até quatro dias sem cair água`, foi logo dizendo em coro com a filha Marivalda de Souza. `Mas a conta não falha`, disse, mostrando a fatura de R$ 15,12.
Fonte: Jornal A Tarde
Repórter: MAIZA DE ANDRADE
mandrade@grupoatarde.com.br
Em 24/04/2008.
Para a subcoordenadora de Zoonoses da SMS, Josélia Sande, `a irregularidade do abastecimento tem sido um fator importante para os criadouros em potencial do mosquito da dengue`.
Segundo ela, esta situação `contribui muito para aumentar o risco da doença`. Ela ressalta que a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) `tem ciência disso, pois passamos a relação de todas as áreas que têm irregularidade no abastecimento`.
`Sabemos que é um problema estrutural, que não se resolve de pronto, mas só o fato de a Embasa estar no comitê indica que já é um salto de qualidade`, falou.
A situação é confirmada também pela superintendente de Vigilância e Proteção à Saúde, Loreni Pinto, que é suplente do secretário estadual de Saúde, Jorge Solla, no comitê estadual da campanha. `A irregularidade no abastecimento é o que faz com que as pessoas tenham que armazenar água da forma que é possível e muitas vezes inadequadamente`, disse. Segundo ela, as reservas inadequadas estão em primeiro lugar no Nordeste entre os criadouros do mosquito. Para Loreni, a liderança assumida pelo governador é indicador de que a situação terá o enfrentamento que merece, enquanto assunto de políticas públicas e não só de saúde.
MABAÇO - Por falta de água constante na torneira, a dona-de-casa Maria José dos Santos da Silva, 41 anos, tratava peixes em um só recipiente ontem.
Na panela, os xangós, depois de abertos, eram mergulhados em um caldo amarronzado para a retirada das vísceras. Enquanto preparava o alimento da família, ela contou que na Travessa Mabaço de Cima, a água falta até por 8 dias. `Temos que ir buscar na fonte, lá embaixo`. Na sua casa, o marido, José Bonifácio, 37 anos, e a filha pequena tiveram dengue.
A menina já estava bem, mas não tirava o olho da TV, que passava o DVD da `dança do creu`. `É ela que pede para passar`, dizia a mãe.
Na mesma travessa, a cadela Meg, de dona Eliete dos Santos, de olho nos xangós, avançou contra as visitas. A senhora acalmou o animal e foi até o fundo da casa mostrar os tonéis onde reserva água. Um deles estava destampado.
Ela dava graças a Deus por ainda não ter tido dengue e pelo tonel estar cheio. `A água não vem todo dia. Quando não vem, a solução é ir pegar na fonte`, disse.
A fonte `redentora` fica na Travessa Antônio Bandeira, ladeira abaixo da Mabaço de Cima.
É um olho d`água que já alimentou o córrego que descia do Mabaço até desembocar na Praia de Itacaranha, perto dali. O córrego foi parcialmente entubado em manilhas de concreto durante as obras do programa Bahia Azul.
Segundo Alaíde Bonfim Gonzaga, era um córrego limpo até passar a receber os esgotos das moradias, a montante. O córrego passa ao lado da fonte já livre das manilhas exalando mau cheiro de esgoto. Apesar de usada quando falta a água da rede pública, não há informação no local que garanta a potabilidade da fonte.
PROVIDÊNCIAS - A veterana líder comunitária de Plataforma, Julieta Fernandes, 70 anos, avisou: `Estamos articulando um grande movimento para pedir providências`. Segundo ela, o abastecimento irregular contribui para aumentar o risco da dengue no subúrbio. `A maioria aqui não tem condições de ter bons reservatórios`, disse ela, na sede da Associação de Moradores de Plataforma (Ampla). `Regular aqui, só a conta da Embasa`, disse. Em sua opinião, a água deveria correr constantemente.
Na pequena sala da diretoria da Ampla, a garota que atendia ao telefone informou: `É uma pessoa reclamando de febre, dor de cabeça e diarréia`. `Ta vendo aí? É todo dia isso!`, disse Julieta, destacando que os casos da doença estão freqüentes no bairro.
`Eu já tive, e meu filho também.
Ele, foram duas vezes e não pode ter mais...`, falou com preocupação.
Em Paripe, a moradora da Rua 8 de Dezembro Eliana Silva Tavares, 37 anos, também tinha motivos para reclamar. É que, para poder lavar a roupa da família, tem que se levantar às 4h30, porque a água só cai até as 10h. `E aí só volta tarde da noite`, disse.
Embasa aposta no PAC para resolver o problema
O diretor de operações da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), Eduardo Araújo, disse reconhecer as dificuldades de abastecimento no subúrbio, mas não concorda com a relação `tão direta` entre a irregularidade no abastecimento e o aumento do risco de dengue. `O risco do abastecimento irregular não se compara com os outros fatores de risco que contribuem para a proliferação do mosquito`, disse, sem citar que fatores seriam mais importantes. Ele ressalta que as más condições dos reservatórios também ocorrem em bairros onde o abastecimento é regular.
Ele disse que não procede a informação de que haja locais onde a água falte por dias seguidos.
`Eventualmente pode haver falta de água no subúrbio e também na região do miolo (entre a BR-324 e a Paralela) porque há dificuldade de pressão para abastecimento por 24 horas, mas não deixamos de abastecer à noite`, disse ele.
Araújo destacou que, de 2002 para cá, as reclamações de falta de água caíram sensivelmente.
Segundo ele, a solução definitiva deste problema requer pelo menos dois anos, até que os investimentos que estão sendo feitos estejam em operação. Ele destacou os recursos de R$ 83 milhões provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinados ao aumento do abastecimento em Salvador.
PESQUISA - A irregularidade no abastecimento de água foi tratada em pesquisa de doutorado da engenheira sanitarista Patrícia Borja, da Universidade Federal da Bahia (Ufba). O estudo, feito em 2002, no advento do programa Bahia Azul, aponta que `as áreas mais atingidas pela intermitência do serviço são as que abrigam população de baixa renda.
Metade das áreas estudadas recebe água de forma intermitente em cerca de 40% das suas vias. Nas microáreas das bacias de Paripe, Periperi e Cobre - área de baixa renda -, em mais de 90% das vias, o fornecimento era intermitente nas duas etapas da pesquisa`.
Aos 84 anos, Joaquim de Souza ainda vivencia este problemas.
A sua casa é a de número 84 na Rua Batista Machado, em Plataforma.
É rápido em responder que a água não chega à sua casa todos os dias. `Aqui fica até quatro dias sem cair água`, foi logo dizendo em coro com a filha Marivalda de Souza. `Mas a conta não falha`, disse, mostrando a fatura de R$ 15,12.
Fonte: Jornal A Tarde
Repórter: MAIZA DE ANDRADE
mandrade@grupoatarde.com.br
Em 24/04/2008.