27/08/2008
Bancos e empresas estão sondando o mercado de empréstimos externos para avaliar a disponibilidade de US$ 8 bilhões necessários de imediato para a construção de navios-sonda de perfuração de petróleo e plataformas semi-submersíveis já licitadas pela Petrobras. Esses recursos teriam de ser captados por empresas brasileiras até o final deste ano ou até o início de 2009, sob o risco de atrasar o início do andamento dos projetos.
É muito dinheiro, considerando-se que até agora não foram levantados nem US$ 7 bilhões em empréstimo externos sindicalizados (com a participação de vários bancos) neste ano pelas empresas brasileiras e que as condições de aperto no crédito internacional ficam cada vez mais adversas. Desde abril, o crédito bancário nos Estados Unidos começou a apresentar efetiva contração - não apenas crescimento menor - e os prêmios de risco de crédito não param de subir. Os bancos dos países ricos continuam a contabilizar perdas e estão com o capital apertado.
Há analistas que vêem o risco de excesso de demanda por financiamento de longo prazo e pressão sob os custos financeiros dos projetos, que poderia torná-los sem rentabilidade e inviabilizá-los. Outros acreditam que o setor de petróleo é atrativo e rentável, ainda mais com estruturas amarradas de financiamento de projetos (`project finance`) garantidas por aluguel a ser pago pela Petrobras pelo uso da sonda. As empresas poderiam fatiar os projetos e captar apenas os recursos para dar início à construção, defendem alguns. No ano passado, com o mercado mais favorável, foram levantados US$ 3 bilhões nessas estruturas, segundo informa o Valor Data.
O aperto no crédito para o setor ficou evidenciado na transação para a Queiroz Galvão que acaba de fechar, no total de US$ 310 milhões para o projeto Olinda Star, que vai converter um casco antigo de navio em sonda de perfuração. Segundo os bancos, a empresa conseguiu os recursos, mas com prêmios mais altos do que os inicialmente sugeridos. Na transação, foi usada a cláusula de `market flex`, que permite alta de prêmios no caso de piora do mercado.
O prazo de vencimento foi de seis anos, sendo que o prêmio de risco de crédito durante o primeiro ano, na fase de construção, foi de 175 pontos básicos sobre a Libor, taxa interbancária de Londres, e depois, durante os seis anos restantes, de 140 pontos. Em 2007, em estrutura semelhante de prazo mais longo, de dez anos, a Odebrecht pagou 125 pontos básicos.
Participaram do empréstimo à Olinda Star o líder ING e o CommerzBank, o HSH, o DNBNor, o Itaú, o Bradesco e o Banco do Brasil. A Queiroz Galvão está com outro empréstimo para o mesmo fim no mercado neste momento, de US$ 200 milhões, com prazo de vencimento em sete anos, também sob a liderança do ING.
No momento, as empresas de capital nacional que ganharam as licitações para a construção de 10 plataformas e navios para entrega em 2012 para afretamento pela Petrobras - Odebrecht, Schahin, Delba, Petroserv e Etesco - estão em fase de discussão da estratégia para levantar os recursos. Os bancos internacionais e nacionais debatem em seus comitês de crédito o interesse em participar nas transações, algumas com líderes já definidos. A Petroserv já escolheu o WestLB. As empresas de capital norueguês Sevan Brasil e Scorpion devem levantar recursos diretamente com os bancos parceiros de suas controladoras na noruega, acredita o mercado.
`Essas transações serão um teste para ver como está o apetite dos bancos por empréstimos de longo prazo`, disse Paulo César Sousa, diretor comercial do Société Générale. Ele não quis comentar nenhuma operação específica, mas acredita no bom andamento dos empréstimos. Alexandre Rezende, responsável pela área de corporate e banco de investimento do ING, também está otimista. Segundo ele, o setor de petróleo é atrativo e bancos asiáticos, nórdicos e europeus conhecedores da área de construção de plataformas e navios-sonda de petróleo continuam com disponibilidade de crédito.
O WestLB confirmou que é o líder do empréstimo da Petroserv e que está interessado em participar de outras transações em andamento, segundo Marcos Cunha, vice-presidente executivo responsável pela área de originação e estruturação de empréstimos do setor de energia. `Temos apetite e know-how para esses projetos`, afirma.
Nessas estruturas, é criada uma empresa de propósito específico cujos sócios são a empresa que ganhou a licitação e mais parceiros financeiros ou estratégicos. A Etesco tem a GE Capital como sócia. Os sócios contratam uma empresa para construir a sonda e depois alugam essa sonda à Petrobras. Do total do projeto, cerca de 20% dos recursos entram na forma de capital e 80% na forma de dívida. Toda a dívida fica na empresa de propósito específico, que vai pagando o que deve com o fluxo de caixa do projeto, mais especificamente o aluguel a ser pago pela Petrobras pelo uso dos navios-sondas e plataformas de perfuração.
Como a Petrobras é grau de investimento - tem o selo de investimento não-especulativo das agências de classificação do risco de crédito -, a estrutura atrai bancos mais conservadores e permite que os empréstimos tenham prazos mais longos e juros mais baixos. Do total a ser pago pela Petrobras pelo afretamento das plataformas e navios, 90% será feito diretamente no exterior, em dólares, o que permite a alguns bancos excluir a maior parte do crédito inclusive da categoria de risco-Brasil. `O banco emprestador fica apenas com o risco de performance da construtora e o resto é risco Petrobras`, explicou certa vez ao Valor o diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa. Segundo ele, a tendência de terceirizar o serviço de construção e operação das sondas de perfuração na indústria de petróleo vem da década de 50, quando todas as grandes produtoras resolveram, aos poucos, adotar o modelo.
Repórter: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico
27/8/2008.
É muito dinheiro, considerando-se que até agora não foram levantados nem US$ 7 bilhões em empréstimo externos sindicalizados (com a participação de vários bancos) neste ano pelas empresas brasileiras e que as condições de aperto no crédito internacional ficam cada vez mais adversas. Desde abril, o crédito bancário nos Estados Unidos começou a apresentar efetiva contração - não apenas crescimento menor - e os prêmios de risco de crédito não param de subir. Os bancos dos países ricos continuam a contabilizar perdas e estão com o capital apertado.
Há analistas que vêem o risco de excesso de demanda por financiamento de longo prazo e pressão sob os custos financeiros dos projetos, que poderia torná-los sem rentabilidade e inviabilizá-los. Outros acreditam que o setor de petróleo é atrativo e rentável, ainda mais com estruturas amarradas de financiamento de projetos (`project finance`) garantidas por aluguel a ser pago pela Petrobras pelo uso da sonda. As empresas poderiam fatiar os projetos e captar apenas os recursos para dar início à construção, defendem alguns. No ano passado, com o mercado mais favorável, foram levantados US$ 3 bilhões nessas estruturas, segundo informa o Valor Data.
O aperto no crédito para o setor ficou evidenciado na transação para a Queiroz Galvão que acaba de fechar, no total de US$ 310 milhões para o projeto Olinda Star, que vai converter um casco antigo de navio em sonda de perfuração. Segundo os bancos, a empresa conseguiu os recursos, mas com prêmios mais altos do que os inicialmente sugeridos. Na transação, foi usada a cláusula de `market flex`, que permite alta de prêmios no caso de piora do mercado.
O prazo de vencimento foi de seis anos, sendo que o prêmio de risco de crédito durante o primeiro ano, na fase de construção, foi de 175 pontos básicos sobre a Libor, taxa interbancária de Londres, e depois, durante os seis anos restantes, de 140 pontos. Em 2007, em estrutura semelhante de prazo mais longo, de dez anos, a Odebrecht pagou 125 pontos básicos.
Participaram do empréstimo à Olinda Star o líder ING e o CommerzBank, o HSH, o DNBNor, o Itaú, o Bradesco e o Banco do Brasil. A Queiroz Galvão está com outro empréstimo para o mesmo fim no mercado neste momento, de US$ 200 milhões, com prazo de vencimento em sete anos, também sob a liderança do ING.
No momento, as empresas de capital nacional que ganharam as licitações para a construção de 10 plataformas e navios para entrega em 2012 para afretamento pela Petrobras - Odebrecht, Schahin, Delba, Petroserv e Etesco - estão em fase de discussão da estratégia para levantar os recursos. Os bancos internacionais e nacionais debatem em seus comitês de crédito o interesse em participar nas transações, algumas com líderes já definidos. A Petroserv já escolheu o WestLB. As empresas de capital norueguês Sevan Brasil e Scorpion devem levantar recursos diretamente com os bancos parceiros de suas controladoras na noruega, acredita o mercado.
`Essas transações serão um teste para ver como está o apetite dos bancos por empréstimos de longo prazo`, disse Paulo César Sousa, diretor comercial do Société Générale. Ele não quis comentar nenhuma operação específica, mas acredita no bom andamento dos empréstimos. Alexandre Rezende, responsável pela área de corporate e banco de investimento do ING, também está otimista. Segundo ele, o setor de petróleo é atrativo e bancos asiáticos, nórdicos e europeus conhecedores da área de construção de plataformas e navios-sonda de petróleo continuam com disponibilidade de crédito.
O WestLB confirmou que é o líder do empréstimo da Petroserv e que está interessado em participar de outras transações em andamento, segundo Marcos Cunha, vice-presidente executivo responsável pela área de originação e estruturação de empréstimos do setor de energia. `Temos apetite e know-how para esses projetos`, afirma.
Nessas estruturas, é criada uma empresa de propósito específico cujos sócios são a empresa que ganhou a licitação e mais parceiros financeiros ou estratégicos. A Etesco tem a GE Capital como sócia. Os sócios contratam uma empresa para construir a sonda e depois alugam essa sonda à Petrobras. Do total do projeto, cerca de 20% dos recursos entram na forma de capital e 80% na forma de dívida. Toda a dívida fica na empresa de propósito específico, que vai pagando o que deve com o fluxo de caixa do projeto, mais especificamente o aluguel a ser pago pela Petrobras pelo uso dos navios-sondas e plataformas de perfuração.
Como a Petrobras é grau de investimento - tem o selo de investimento não-especulativo das agências de classificação do risco de crédito -, a estrutura atrai bancos mais conservadores e permite que os empréstimos tenham prazos mais longos e juros mais baixos. Do total a ser pago pela Petrobras pelo afretamento das plataformas e navios, 90% será feito diretamente no exterior, em dólares, o que permite a alguns bancos excluir a maior parte do crédito inclusive da categoria de risco-Brasil. `O banco emprestador fica apenas com o risco de performance da construtora e o resto é risco Petrobras`, explicou certa vez ao Valor o diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa. Segundo ele, a tendência de terceirizar o serviço de construção e operação das sondas de perfuração na indústria de petróleo vem da década de 50, quando todas as grandes produtoras resolveram, aos poucos, adotar o modelo.
Repórter: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico
27/8/2008.