Produção recorde de urânio

09/10/2007
Mesmo enfrentando as adversidades da seca, com a falta de água para o consumo, a unidade da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Caetité (distante 730 km de Salvador) prevê para este ano uma produção de 360 toneladas de urânio concentrado, a maior de toda sua história. No ano passado, a produção foi de 230 toneladas.

A empresa está superando a marca da usina de Poços de Caldas, em Minas Gerais, que ao longo da sua vida produziu 1.200 toneladas do produto.

Outra novidade é que neste mês a INB vai enviar para o Canadá uma remessa de 290 toneladas de urânio concentrado, a primeira do ano e a maior até agora já transportada, para ser convertida em gás e enriquecido para abastecer as usinas de Angra dos Reis. Quem informa é o gerente de produção da INB, Hilton Mantovani Lima.

A unidade de Caetité também já se prepara para a implantação da Usina Nuclear de Angra III, em 2010. Até lá, espera estar produzindo 800 toneladas de urânio concentrado.

Para tanto, no início do próximo ano entrará em operação a mina subterrânea de Cachoeira.

O edital já está pronto para a construção da jazida, afirma Mantovani, acrescentando que a exploração a céu aberto continuará em atividade.

Para atingir 800 toneladas de concentrado, a planta atual da INB sofrerá modificações, passando do processo de solubilização do urânio em pilha para produzir o urânio em reatores (tanques grandes), com temperaturas controladas (injeção de vapor) para elevar o rendimento para 800 toneladas.

Os planos de expansão da INB em Caetité contemplam a instalação de até sete centrais nucleares no Brasil. `O projeto de ampliação da fábrica já está em execução, dependendo somente do licenciamento por parte dos órgãos ambientais e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cenen). Como vai haver mudanças na rota tecnológica, então será preciso novo licenciamento`, explica Mantovani.

Para atender à demanda até 2010, a INB começará a explorar a jazida de Santa Quitéria, no Ceará, ampliará a retirada na mina de Caetité e começará a trabalhar com uma técnica que aumenta em 20% a eficiência na retirada do minério.

CANADÁ - Este mês a INB vai transportar para o Canadá 290 toneladas de urânio concentrado, sendo 14 de estoques do ano passado.

O urânio sai da Bahia em forma de um pó amarelo e no Canadá passa por outra fase. É convertido em gás, que depois é enriquecido (urânio fissil 265). No seu retorno ao Brasil, em forma de pastilhas como elemento combustível para girar uma turbina e gerar eletricidade (reação nuclear em cadeia), o urânio segue para Angra dos Reis.

Para que o urânio de Caetité fosse direto para a fábrica de Rezende, no Rio de Janeiro, a INB teria que montar uma usina para converter o concentrado em gás e produzir em grande escala. Mesmo assim, a implantação de um projeto de conversão em Rezende não está descartada.

Segundo o gerente de produção da INB, a exportação do urânio nunca foi feita do Porto de Salvador sem um plano de transporte aprovado pela Cenen e pelo Ibama.

`Criou-se uma polêmica em Salvador porque o navio estava com cilindros de urânio enriquecido e o porto não queria deixar que o mesmo atracasse. O que houve foi um equívoco e esta questão já está superada porque o próximo navio não vem mais com urânio enriquecido`, afirma, garantindo que tudo já está sendo preparado, desde a saída de Caetité até o Porto de Salvador, obedecendo as normas de segurança.

O projeto da INB (usina e mineração), numa área de 1.800 hectares, está orçado em cerca de US$ 25 milhões. A empresa conta com mais de 30 anomalias (jazidas) espalhadas entre os municípios de Caetité e Lagoa Real. A Anomalia 13, ou Cachoeira, é a que está sendo explorada atualmente a céu aberto, podendo funcionar até 2011. No próximo ano começa a subterrânea no mesmo local e dela pode ser feita a extração de urânio até 2016. Em 2006 foram removidos da mina quase um milhão e 300 mil toneladas de estéril (rochas com e sem urânio). Para este ano, a previsão é atingir um milhão e 300 mil toneladas.

Além da mina subterrânea, em breve será também colocada em operação a Anomalia 9, ou Mina do Engenho, no território de Caetité.

Para a exploração em Lagoa Real ainda não existem planos. O gerente de produção diz que com os preços atuais do urânio no mercado internacional - entre US$ 85 a US$ 95 a libra-peso (equivalente a 450 gramas) - continua viável extrair o produto aqui, ao invés de importar. Ele lembra que quando a usina foi implanta há cinco ou seis anos, a cotação do produto era de US$ 12 a libra-peso, e que já era viável economicamente.

Quando a produção de concentrado ultrapassar as 800 toneladas, conforme o previsto, e se os preços voltarem a subir, a INB deverá faturar R$ 1 milhão por dia. Analistas do setor acreditam que nos próximos anos os preços continuarão elevados. Isso porque o Conselho Mundial de Energia previu a duplicação da geração nuclear no mundo entre 2020 e 2050.

DEMANDA INTERNA - O presidente das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Alfredo Tranjan, acredita que o Brasil será capaz de atender 100% da demanda interna de urânio enriquecido a partir de 2014. `Hoje temos a usina de enriquecimento já implantada, mas ainda em testes. A partir de 2012, a gente já estará enriquecendo 60% de Angra 1 e 2`, prevê.

Tranjan explica que o País, que já atende à demanda nacional de urânio, deve quadruplicar a produção do minério até 2012 - passando das atuais 400 toneladas por ano para 1.600 toneladas. `Se o País crescer a 4,1% ao ano, nós vamos ter mais quatro usinas até 2030 e se crescer a 5,1% ao ano, nós vamos ter mais oito usinas, então a INB tem de estar preparada`, afirma, citando cenário preparado pela Empresa de Planejamento Energético (EPE).

Fonte: Jornal A Tarde

07/10/07