23/04/2008
A mais recente escalada nos preços do barril de petróleo, que ontem fechou muito próximo da inédita barreira de US$ 120, deve provocar recessão na economia mundial. O alerta foi feito pelo diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Nobuo Tanaka, que participou em Roma (Itália) de um fórum sobre questões energéticas. Para especialistas ouvidos pelo Correio, a alta dos preços tem potencial para reduzir o crescimento econômico, fenômeno que já começa a ser apelidado de o terceiro choque do petróleo. Na prática, a recessão reduziria o consumo de derivados de petróleo em todo o mundo, ajudando a segurar os preços.
O diretor da AIE considera que os valores estão altos `demais para todo o mundo`, diante dos `riscos que corre a economia mundial` e da escalada de preços dos alimentos. Ontem, o barril de petróleo atingiu US$ 119,37 em Nova York, alta de 1,6% sobre a véspera. Ao longo do dia, a cotação chegou a US$ 119,90. Além de dados sobre redução das reservas de óleo cru, a desvalorização do dólar frente ao euro vem alimentado a alta dos preços. Nos últimos 12 meses, o barril já subiu 86%. Em Londres, o tipo Brent também bateu recorde ontem, chegando a US$ 116,75 o barril.
A alta não foi contida nem mesmo pelo anúncio de que a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) vai elevar sua produção diária em 9 milhões de barris até 2020. Hoje, os países vinculados à entidade produzem 32 milhões/dia. De acordo com o secretário-geral da Opep, El-Badri, esses planos podem, no entanto, ser atrasados em função dos altos custos de produção, que subiram de 50% a 60% nos últimos três anos. Segundo ele, o cartel investe hoje US$ 160 bilhões em 120 projetos de expansão da capacidade produtiva.
Para Jean-Paul Prates, da Expetro consultoria, o principal problema é o forte aumento do consumo, que não vem sendo acompanhado pelo crescimento da oferta. `É uma inflação estrutural da energia em todo o mundo. Hoje, a Opep só teria como aumentar a produção em 2 milhões de barris/dia, enquanto o crescimento do consumo será de 1,2 milhão somente neste ano`, explica. Segundo o especialista, a demanda só deve diminuir quando países emergentes, como China, Índia, Rússia e Brasil, mudarem suas políticas internas de controle dos preços da commodity.
`Nesses países, a demanda não arrefeceu. Pelo contrário, vem crescendo com o aquecimento da economia, pois o aumento de preço ainda não foi repassado para o consumidor final.` No Brasil, por exemplo, a Petrobras não aumenta o preço dos combustíveis desde setembro de 2005, quando o barril do petróleo girava em torno de US$ 65. Para Prates, a única vantagem é que a recessão vai segurar a demanda e conter os preços. `Se a cotação média fechar o ano abaixo dos US$ 100 já será uma grande notícia.`
Caso os preços se mantenham no atual patamar, a economia sentirá o impacto, avalia o analista Valter de Vito, da consultoria Tendências. `O gasto com o petróleo e seus derivados vai consumir mais da renda das famílias, afetando o consumo e reduzindo o crescimento da economia mundial`, afirma. `Além disso, a escassez de oferta pressiona a inflação, o que leva os bancos centrais a aumentarem os juros, favorecendo ainda mais a ocorrência de uma recessão mundial.`
Marco Tavares, da consultoria Gas Energy, lembra que a utilização da capacidade de produção está hoje em 95%, nível considerado elevado demais. `Com isso, qualquer problema em uma refinaria aumenta essa utilização e reduz a oferta do produto, agravando ainda mais a situação`, diz. No entanto, Ali al-Nouaimi, ministro do Petróleo da Arábia Saudita, refuta a hipótese de recessão. `Tenho notado um nível sem precedentes de incertezas, mas o mundo não está à beira de uma escassez de petróleo`, afirmou. Segundo o especialista Marco Tavares, no entanto, a previsão da Agência Internacional de Energia não é alarmista. `O risco existe, sim.`
Memória Mundo sacudido Os dois primeiros choques do petróleo sacudiram o mundo na década de 1970. Em 1973, os países do Oriente Médio descobriram que o combustível fóssil era um bem não-renovável, o que levou à redução da produção. Em apenas três meses, o preço do barril disparou de US$ 2,90 para US$ 11,65, um aumento superior a 300%. Outro fator também conspirou para a ocorrência do primeiro choque de preços. Os países do Oriente Médio embargaram suas vendas para os Estados Unidos e a Europa como forma de boicote ao apoio dado por norte-americanos e europeus a Israel durante a Guerra do Yom Kippur (Dia do Perdão).
Seis anos depois, em 1979, a revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini provocou a paralisação da produção iraniana. O barril rompeu a barreira dos US$ 20. Em 1980, a cotação já superava o patamar de US$ 30, chegando a US$ 39 no final de 1981, durante a Guerra Irã-Iraque. Os preços continuaram elevados até 1986, quando então a cotação começou a ceder.
Até 2004, o preço do barril oscilou entre US$ 20 e US$ 40. Em setembro daquele ano, após os atentados terroristas nos EUA, a cotação começou a subir e passou dos US$ 50. Um ano depois, quando o furacão Katrina castigou o Golfo do México, o barril ultrapassou a barreira dos US$ 70. No ano passado, foi vencida a barreira dos US$ 90. Em janeiro de 2008, o preço ultrapassou a marca histórica dos US$ 100. Desde o último dia 9, o petróleo vem batendo sucessivos recordes, até beirar ontem o inédito patamar de US$ 120. (MT)
Somente a bolsa de São Paulo tem alta
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foi a única entre as maiores do mundo a fechar em alta ontem. Um dos motivos é o aumento do preço do petróleo. As ações preferenciais da Petrobras, as mais negociadas do pregão, subiram 1,05% e atingiram R$ 86,20. Esse aumento foi decisivo para o mercado brasileiro encerrar em alta de 0,75%. No melhor momento, a Bovespa chegou a 65.689 pontos, muito perto do recorde registrado em 6 de dezembro passado. A ação preferencial da Vale (a segunda mais negociada) subiu 2,42% (os preços dos metais aumentaram em Londres) e também colaborou para o bom desempenho.
Os investidores podem abrir o pregão de hoje sob tensão, porque há a hipótese de a alta de ontem ter sido artificial. Às 11h32 o sistema MegaBolsa, de negociação dos ativos da Bovespa, saiu do ar e só retornou às 13h10. A bolsa, assim, levou o vencimento de opções para o período das 14h10 às 15h40 e, com isso, restou pouco tempo ao pregão doméstico para reagir à queda das bolsas internacionais.
Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York terminou em queda pelo segundo dia consecutivo: -0,82%. Os motivos foram os mesmos que pautaram outros tombos: indicadores econômicos fracos e empresas apresentando balanços ruins. A Associação Nacional dos Corretores de Imóveis dos EUA informou que as vendas de imóveis usados caíram 2% em março. Além disso, o Federal Reserve de Richmond anunciou que seu índice de atividade no segmento de manufatura caiu para 0 em abril. Somente dados acima de zero indicam crescimento da atividade industrial.
Na Europa, as ações do Royal Bank of Scotland (segundo maior da Grã-Bretanha) caíram 4,6% com a emissão de US$ 24 bilhões de direitos de subscrição. A companhia também vai vender ativos para gerar 4 bilhões de libras em capital este ano. `Isso indica que a crise não acabou ainda, e que nós podemos ver algumas surpresas`, disse Carsten Klude, economista-chefe da M.M. Warburg, em Hamburgo. Por isso, as bolsas caíram: Londres, -0,3%; Frankfurt, -0,86%, e Madri, -0,99%. (Da Redação)
Pague o preço
US$ 11,65 foi o valor do barril de petróleo no choque de 1973, quando os árabes descobriram que o produto não era renovável
US$ 20 foi o preço superado em 1979, quando o Irã parou de produzir momentaneamente
US$ 100 pode ser o novo piso para o preço do barril
Repórter: Marcelo Tokarski
Fonte: Correio Braziliense
23/4/2008.
O diretor da AIE considera que os valores estão altos `demais para todo o mundo`, diante dos `riscos que corre a economia mundial` e da escalada de preços dos alimentos. Ontem, o barril de petróleo atingiu US$ 119,37 em Nova York, alta de 1,6% sobre a véspera. Ao longo do dia, a cotação chegou a US$ 119,90. Além de dados sobre redução das reservas de óleo cru, a desvalorização do dólar frente ao euro vem alimentado a alta dos preços. Nos últimos 12 meses, o barril já subiu 86%. Em Londres, o tipo Brent também bateu recorde ontem, chegando a US$ 116,75 o barril.
A alta não foi contida nem mesmo pelo anúncio de que a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) vai elevar sua produção diária em 9 milhões de barris até 2020. Hoje, os países vinculados à entidade produzem 32 milhões/dia. De acordo com o secretário-geral da Opep, El-Badri, esses planos podem, no entanto, ser atrasados em função dos altos custos de produção, que subiram de 50% a 60% nos últimos três anos. Segundo ele, o cartel investe hoje US$ 160 bilhões em 120 projetos de expansão da capacidade produtiva.
Para Jean-Paul Prates, da Expetro consultoria, o principal problema é o forte aumento do consumo, que não vem sendo acompanhado pelo crescimento da oferta. `É uma inflação estrutural da energia em todo o mundo. Hoje, a Opep só teria como aumentar a produção em 2 milhões de barris/dia, enquanto o crescimento do consumo será de 1,2 milhão somente neste ano`, explica. Segundo o especialista, a demanda só deve diminuir quando países emergentes, como China, Índia, Rússia e Brasil, mudarem suas políticas internas de controle dos preços da commodity.
`Nesses países, a demanda não arrefeceu. Pelo contrário, vem crescendo com o aquecimento da economia, pois o aumento de preço ainda não foi repassado para o consumidor final.` No Brasil, por exemplo, a Petrobras não aumenta o preço dos combustíveis desde setembro de 2005, quando o barril do petróleo girava em torno de US$ 65. Para Prates, a única vantagem é que a recessão vai segurar a demanda e conter os preços. `Se a cotação média fechar o ano abaixo dos US$ 100 já será uma grande notícia.`
Caso os preços se mantenham no atual patamar, a economia sentirá o impacto, avalia o analista Valter de Vito, da consultoria Tendências. `O gasto com o petróleo e seus derivados vai consumir mais da renda das famílias, afetando o consumo e reduzindo o crescimento da economia mundial`, afirma. `Além disso, a escassez de oferta pressiona a inflação, o que leva os bancos centrais a aumentarem os juros, favorecendo ainda mais a ocorrência de uma recessão mundial.`
Marco Tavares, da consultoria Gas Energy, lembra que a utilização da capacidade de produção está hoje em 95%, nível considerado elevado demais. `Com isso, qualquer problema em uma refinaria aumenta essa utilização e reduz a oferta do produto, agravando ainda mais a situação`, diz. No entanto, Ali al-Nouaimi, ministro do Petróleo da Arábia Saudita, refuta a hipótese de recessão. `Tenho notado um nível sem precedentes de incertezas, mas o mundo não está à beira de uma escassez de petróleo`, afirmou. Segundo o especialista Marco Tavares, no entanto, a previsão da Agência Internacional de Energia não é alarmista. `O risco existe, sim.`
Memória Mundo sacudido Os dois primeiros choques do petróleo sacudiram o mundo na década de 1970. Em 1973, os países do Oriente Médio descobriram que o combustível fóssil era um bem não-renovável, o que levou à redução da produção. Em apenas três meses, o preço do barril disparou de US$ 2,90 para US$ 11,65, um aumento superior a 300%. Outro fator também conspirou para a ocorrência do primeiro choque de preços. Os países do Oriente Médio embargaram suas vendas para os Estados Unidos e a Europa como forma de boicote ao apoio dado por norte-americanos e europeus a Israel durante a Guerra do Yom Kippur (Dia do Perdão).
Seis anos depois, em 1979, a revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini provocou a paralisação da produção iraniana. O barril rompeu a barreira dos US$ 20. Em 1980, a cotação já superava o patamar de US$ 30, chegando a US$ 39 no final de 1981, durante a Guerra Irã-Iraque. Os preços continuaram elevados até 1986, quando então a cotação começou a ceder.
Até 2004, o preço do barril oscilou entre US$ 20 e US$ 40. Em setembro daquele ano, após os atentados terroristas nos EUA, a cotação começou a subir e passou dos US$ 50. Um ano depois, quando o furacão Katrina castigou o Golfo do México, o barril ultrapassou a barreira dos US$ 70. No ano passado, foi vencida a barreira dos US$ 90. Em janeiro de 2008, o preço ultrapassou a marca histórica dos US$ 100. Desde o último dia 9, o petróleo vem batendo sucessivos recordes, até beirar ontem o inédito patamar de US$ 120. (MT)
Somente a bolsa de São Paulo tem alta
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foi a única entre as maiores do mundo a fechar em alta ontem. Um dos motivos é o aumento do preço do petróleo. As ações preferenciais da Petrobras, as mais negociadas do pregão, subiram 1,05% e atingiram R$ 86,20. Esse aumento foi decisivo para o mercado brasileiro encerrar em alta de 0,75%. No melhor momento, a Bovespa chegou a 65.689 pontos, muito perto do recorde registrado em 6 de dezembro passado. A ação preferencial da Vale (a segunda mais negociada) subiu 2,42% (os preços dos metais aumentaram em Londres) e também colaborou para o bom desempenho.
Os investidores podem abrir o pregão de hoje sob tensão, porque há a hipótese de a alta de ontem ter sido artificial. Às 11h32 o sistema MegaBolsa, de negociação dos ativos da Bovespa, saiu do ar e só retornou às 13h10. A bolsa, assim, levou o vencimento de opções para o período das 14h10 às 15h40 e, com isso, restou pouco tempo ao pregão doméstico para reagir à queda das bolsas internacionais.
Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York terminou em queda pelo segundo dia consecutivo: -0,82%. Os motivos foram os mesmos que pautaram outros tombos: indicadores econômicos fracos e empresas apresentando balanços ruins. A Associação Nacional dos Corretores de Imóveis dos EUA informou que as vendas de imóveis usados caíram 2% em março. Além disso, o Federal Reserve de Richmond anunciou que seu índice de atividade no segmento de manufatura caiu para 0 em abril. Somente dados acima de zero indicam crescimento da atividade industrial.
Na Europa, as ações do Royal Bank of Scotland (segundo maior da Grã-Bretanha) caíram 4,6% com a emissão de US$ 24 bilhões de direitos de subscrição. A companhia também vai vender ativos para gerar 4 bilhões de libras em capital este ano. `Isso indica que a crise não acabou ainda, e que nós podemos ver algumas surpresas`, disse Carsten Klude, economista-chefe da M.M. Warburg, em Hamburgo. Por isso, as bolsas caíram: Londres, -0,3%; Frankfurt, -0,86%, e Madri, -0,99%. (Da Redação)
Pague o preço
US$ 11,65 foi o valor do barril de petróleo no choque de 1973, quando os árabes descobriram que o produto não era renovável
US$ 20 foi o preço superado em 1979, quando o Irã parou de produzir momentaneamente
US$ 100 pode ser o novo piso para o preço do barril
Repórter: Marcelo Tokarski
Fonte: Correio Braziliense
23/4/2008.