FABIO, O MÁXIMO

03/03/2008
O COMUNICADO DO BANCO Santander ao mercado não deixou dúvidas: o presidente do Banco Real no Brasil, Fabio Barbosa, é o novo `máximo responsable` por todos os negócios do grupo espanhol no País. Os cinco parágrafos da carta, divulgada na terça-feira 26, confirmaram a surpreendente promoção de um executivo brasileiro cuja organização - a matriz do Real, o ABN Amro Bank - foi comprada por um consórcio de bancos e está sendo fatiada no Exterior. O Santander manteve o Real e seus parceiros, o Royal Bank of Scotland e o Fortis, ficaram com o restante do banco holandês. Seria natural que Gabriel Jaramillo, presidente do Santander no Brasil há oito anos, mantivesse o comando para unificar os dois bancos e disputar a liderança entre os grupos financeiros do País, colhendo os louros dessa estratégia. Obviamente, na guerra de egos que acomete as organizações em processo de fusão, não haveria espaço para um executivo `comprado`, caso de Barbosa. Ledo engano.

O brasileiro não só sobreviveu como irá sentar-se na cadeira de Jaramillo, assim que a transação no Exterior for completada. Dentro de cinco ou seis meses, Barbosa irá assumir a tarefa delicada de unir duas grandes instituições, que juntas terminaram 2007 com ativos de R$ 282 bilhões, encostadas no Itaú (R$ 295 bilhões) e à frente da Caixa Econômica Federal e do Unibanco. A ordem do banqueiro espanhol Emílio Botín, dono do Santander, é ir para cima dos concorrentes e chegar ao topo do ranking. `A estratégia do Santander é clara: estar no grupo dos grandes em todos os mercados onde atua`, diz um ex-banqueiro com conhecimento de causa. E o que significa a promoção de Barbosa nesse contexto? Duas coisas. O Santander não desperdiça talentos e reconheceu em Barbosa o líder ideal para a próxima fase do grupo no País. E Gabriel Jaramillo, que comprou e unificou vários bancos para dom Emílio na América Latina - dentre eles o Banespa, que colocou o Santander no mapa do sistema bancário brasileiro -, está em alta e foi escalado para outra grande missão, provavelmente uma aquisição de impacto na Europa ou nos Estados Unidos.

O próximo grande negócio do Santander é tratado como segredo de Estado, enquanto não sai a autorização do banco central no país envolvido. Publicamente, há duas opções na mesa: a compra do Alliance & Leicester na Inglaterra, onde o Santander já é dono do Abbey, ou a aquisição do Sovereign Bancorp of Philadelphia, nos Estados Unidos, do qual os espanhóis já detêm 20% do capital. Mas outras tacadas podem estar na mesa. A crise do subprime, que causou prejuízos de bilhões de dólares e euros nos dois lados do Atlântico, depreciou o valor de mercado de muitos bancos (somente o do Citigroup encolheu US$ 140 bilhões) e aumentou o apetite de dom Emílio. Atualmente, o Citi vale US$ 130 bilhões e o Santander, US$ 128 bilhões.

Segundo DINHEIRO apurou, investidores estrangeiros de grande porte procuraram Botín para defender a indicacão de Barbosa para presidente do grupo no Brasil. O banco espanhol iria anunciar a promoção de Barbosa e o destino de Jaramillo simultaneamente e chegou a informar os bancos centrais da Inglaterra e da Holanda sobre suas intenções. Mas a notícia das mudanças vazou e as autoridades holandesas exigiram mais esclarecimentos, já que a venda do ABN Amro para o consórcio de bancos ainda não foi totalmente concluída. O resultado dos erros de comunicação do Santander foi a divulgação precipitada e parcial das suas decisões. Mesmo assim, quem esteve com o discreto Jaramillo nos últimos dias o encontrou em ótimo humor.

NOBEL: Barbosa recebe de Al Gore em 2006 o prêmio Eco de Gestão Empresarial para a Sustentabilidade

No comunicado que nomeou Barbosa como máximo responsável no Brasil, o Santander informou que o colombiano prestará serviços de apoio e assessoria à presidência do Grupo Santander. Jaramillo assegurou aos amigos próximos que não `caiu para cima`, como tudo leva a crer. Teria dito que seu ciclo profissional no Brasil se encerrou após oito anos com a chegada do Santander ao grupo dos maiores bancos do País e que a escolha de Barbosa para sucedê-lo é natural. Por hipótese, se o Santander tivesse comprado o Itaú, manteria Roberto Setubal no comando.

Jaramillo, que naturalizou-se brasileiro e ganhou um neto tupiniquim, pretende manter residência e família em São Paulo. Está tranqüilo e sorridente, já que é acionista e alto executivo do Santander e comandou o crescimento do grupo num dos principais mercados emergentes das próximas décadas - o espanhol é o único grande banco internacional a ter uma presença marcante num dos quatro países que formam o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Aos 59 anos, ele adora pescar tucunaré no rio Negro, um desafio que pressupõe a conquista do peixe e sua devolução ao rio. Chegou o momento de partir para uma nova pescaria e soltar o Santander no Brasil para outro ecologista que ele respeita e com quem tem ótimas relações. `Quem é que não gosta do Fabio?`, devolve Jaramillo aos clientes que o questionam sobre o assunto.

DINHEIRO tentou ouvir os dois executivos, mas ambos se recusaram a dar entrevistas. Barbosa foi o único a atender jornalistas da imprensa diária, na quinta-feira 28, para divulgar o resultado do Real em 2007. Fez isso na condição de não ser questionado sobre o Santander. Conhecido como o `banqueiro verde`, por transformar o Real num ícone da sustentabilidade e da responsabilidade social, o executivo também construiu uma sólida reputação de administrador competente. O Real não é apenas uma empresa engajada na preservação do planeta e na promoção humana, digna de prêmios entregues pelo Prêmio Nobel Al Gore - é uma companhia que ganha muito dinheiro e dá cada vez mais lucros, o maior interesse de qualquer acionista. O lucro no ano passado foi de quase R$ 3 bilhões, com rentabilidade de 27,1%, acima dos 22,8% de 2006.

MISSÃO CUMPRIDA: Jaramillo consolidou o Santander no País e deve comandar outra grande operação na Europa ou nos EUA Não se obtêm resultados como esse somente na base do discurso politicamente correto. É preciso um gestor afiado à frente dos negócios. `Não pense que o Fabio é bonzinho. Ele é extremamente demandante e cobra muito o cumprimento de metas`, diz o empresário José Luiz Majolo, que trabalhou sete anos com Barbosa e foi vice-presidente do Real. Seus pontos fortes, destaca Majolo, são as áreas de finanças, controladoria e recursos humanos. `Motivar e trabalhar com pessoas é um dos seus diferenciais`, aponta. O economista Celso Grisi, diretor-presidente do Instituto de Pesquisa Fractal, confirma. `O Fabio é focado em resultados e o trabalho dele não se descola do objetivo de remunerar o investidor e o acionista.`

O brasileiro terá três anos para integrar os dois bancos sob a marca Santander. Tudo indica que é mesmo o melhor nome para suceder a Jaramillo. Ele também tem um trânsito invejável junto ao governo. Além de presidente da Febraban, a entidade máxima do setor bancário, é membro do Conselho de Administração da Petrobras desde 2003 e tem assento no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Foi cotado para assumir o Banco Central no governo Lula, mas não aceitou. Jaramillo sempre cultivou ótimas relações com o poder - uma característica do Santander em todos os países onde atua - e desfruta de prestígio junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à superministra Dilma Rousseff e a Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento. Antes de ir para Brasília, Jorge foi vice-presidente do Santander. O bom trânsito político é fundamental num país em que os bancos estrangeiros necessitam da aprovação direta do presidente da República para atuar. Especialmente para um gigante como o Santander, que ambiciona crescer ainda mais no Brasil.

Repórter: MILTON GAMEZ

Fonte: Isto é Dinheiro num. 0544

Em 3/3/2008.