Alstom na disputa pelo trem de alta velocidade no Brasil

07/07/2008
Uma equipe do governo brasileiro deverá ir à França entre os dias 21 e 28 de julho para conhecer o trem de alta velocidade, fabricado naquele país pela multinacional Alstom. A informação foi dada na sexta-feira pelo presidente mundial da Alstom, Patrick Kron, que visitou o país para fechar contratos com o Metrô de São Paulo e com a brasileira Bardella e também para defender a empresa de acusações. A Justiça da Suíça, com apoio da Justiça francesa, investiga se ex-representantes da Alstom teriam montado um esquema de corrupção para ganhar contratos de fornecimento de equipamentos e serviços para obras públicas.

Kron disse que o governo brasileiro já visitou fabricantes de trens de alta velocidade no Japão, Alemanha, Itália e Espanha. `Espero que venham rápido até a França. Somos líderes em trens de alta velocidade`, afirmou o presidente francês, ressaltando que não gostaria que as investigações prejudicassem a participação da Alstom no processo de concorrência do trem-bala no Brasil. `Não quero nenhum tratamento especial. Só quero que qualquer tratamento seja baseado em fatos`, disse Kron.

O trem de alta velocidade brasileiro deverá ligar as cidades do Rio de Janeiro a São Paulo e Campinas, com ligações para os aeroportos internacionais Tom Jobim (Rio), Guarulhos (São Paulo) e Viracopos (Campinas). A obra, que deverá ter cerca de 550 quilômetros de extensão, faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e está orçada em US$ 9 bilhões.

A Alstom tem grande interesse na obra, que deverá ter seu trajeto divulgado até o fim de agosto e cuja licitação está prevista para o início do próximo ano. A empresa se declara a líder na indústria ferroviária de alta velocidade no mundo. Desde que lançou o primeiro TGV, em 1981, a companhia francesa vendeu 640 trens que superam os 300 quilômetros por hora. `O recorde de velocidade também é nosso. Atingimos 574,8 quilômetros por hora entre Estrasburgo e Paris`, afirma Ramon Fondevila, diretor geral de transportes da Alstom Brasil. Ele acredita que o governo brasileiro deverá licitar primeiro o trecho São Paulo/Campinas, até o fim deste ano, e depois Rio/São Paulo (com paradas previstas em Resende, São José dos Campos e Luz e um ramal para o aeroporto de Guarulhos), no primeiro semestre do próximo ano.

O governo brasileiro, segundo declarações recentes da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, deverá exigir a transferência de tecnologia das empresas estrangeiras que participarem do projeto de implantação do trem de alta velocidade, a exemplo do que fez, por exemplo, a Coréia do Sul. Outra exigência será de que elas firmem parcerias com grupos nacionais. Para Fondevila, esses pré-requisitos não atrapalham os planos da Alstom. `Estamos habituados a transferir tecnologia. No caso da Coréia, começamos a fabricar os trens na França e depois passamos a produzi-los localmente. Também estamos fabricando turbinas de energia hidráulica no Brasil com transferência de tecnologia`, diz.

Representantes da Alstom acreditam que uma das vantagens do grupo francês sobre boa parte de seus concorrentes é sua tecnologia de trens. A companhia já lançou o AGV, quarta geração de trens de altíssima velocidade, que não tem locomotiva e é movido por motores em todos os vagões. A velocidade comercial do AGV é de 360 km/h, enquanto o TGV (que tem locomotiva) opera entre 300 e 330 km/h.

O aumento dos investimentos brasileiros em sistemas de transporte metroferroviário tem atraído a Alstom, que faturou no ano passado ? 800 milhões no país. Na semana passada, a companhia fechou um contrato de ? 280 milhões com o Metrô paulista para fornecimento de sistema de controle automatizado para as linhas 1, 2 e 3. Segundo Fondevila, com o novo sistema - que deverá estar concluído em 2010 - o tempo entre os trens no horário de pico deverá cair de 110 segundos para até 60 segundos. `Com isso, será possível aumentar o número de trens.`

O sistema do Metrô é chamado de Urbalis, baseado na tecnologia de rádio (CBTC). Quando um trem acelerar, os outros receberão o mesmo comando, assim como quando ele frear, tudo de forma automática. A instalação do sistema deverá começar pela linha 2 (Vila Madalena a Ipiranga) e será feita durante a madrugada, para não paralisar o transporte.

Outro contrato fechado pela Alstom na semana passada foi a criação de uma sociedade com o grupo nacional Bardella, meio a meio, que exigirá investimentos de ? 35 milhões. Os recursos serão usados na instalação de uma fábrica de equipamentos hidromecânicos, como comportas, em um terreno de 235 mil metros quadrados em Porto Velho (Rondônia). A escolha do lugar se deve à proximidade da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira.

`Nosso foco inicial é Santo Antônio, mas queremos atender outras hidrelétricas no Norte e Nordeste do país e também exportar`, afirma Marcos Costa, diretor geral de energia da Alstom Brasil. A companhia francesa é parceira do grupo Odebrecht - vencedor da concorrência para Santo Antônio - também na disputa por Jirau, que foi vencida pelo consórcio liderado pela Suez. A concorrência está sendo contestada.

A fábrica da Indústria Metalúrgica e Mecânica da Amazônia (IMMA) deverá começar a ser construída em outubro e a expectativa é de que esteja concluída em dezembro de 2009. A área de energia da Alstom Brasil encerrou o ano fiscal 2007/2008 (abril a março) com recorde de contratos fechados no período, de 600 milhões de euros, incluindo impostos. Para este ano, a meta é chegar a 800 milhões de euros.

Repórter: Raquel Balarin

Fonte: Valor Econômico

7/7/2008.