INFLAÇÃO TRIPLICA

16/05/2008
Os números da inflação ficam cada vez piores e ampliam os argumentos do Banco Central para aumentar a taxa básica de juros (Selic). Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Índice Geral de Preços — 10 (IGP-10) registrou alta de 1,52% em maio, triplicando em relação a abril (0,45%). No acumulado de 12 meses, a taxa já está em 10,71%. No mês, o IGP-10 foi puxado, principalmente, pelas matérias-primas consumidas pela indústria. Esses itens computaram alta de 6,88%, com destaque para o arroz em casca, cujos preços avançaram 31,95%, e para o minério de ferro, que subiu 15,51%. Juntos, os dois produtos responderam por quase um terço do IGP-10.

Apesar do peso do arroz e do minério, o índice calculado pela FGV mostrou reajustes disseminados, como os da carne bovina (+3,52%), do leite (+5,56%) e dos adubos e fertilizantes (+9,43%). Com isso, os três indicadores que compõem o IGP-10 pisaram no acelerador. Entre abril e maio, o Índice de Preço por Atacado (IPA) saltou de 0,35% para 1,91%. No caso do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), a inflação passou de 0,61% para 0,67%. Já o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) avançou de 0,73% para 0,85%. É importante destacar ainda que, em maio, os produtos agrícolas acumularam reajuste 1,64% (depois de caírem 1,31% no mês passado) e, em 12 meses, de 30,08%.

`Não há mais dúvidas de que o quadro inflacionário se deteriorou e exigirá uma postura mais firme do BC na condução dos juros` disse o economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu Filho. Para ele, caso a inflação continue apontando para cima, é possível que o BC abandone o centro da meta (4,5%) e passe a perseguir um objetivo ajustado mais alto, como se viu no início do governo Lula, em 2003. `É um caminho cada vez mais provável`, pois a inflação ao consumidor, a que realmente importa para o BC, está se distanciando dos 4,5%`, destacou.

Na avaliação de Flávio Serrano, economista do Banco BES Investimento, ainda é cedo para se falar em abandono do centro da meta pelo BC, a despeito de vários países, como México e Chile, terem seguido nessa direção, pois sentiram o baque da alta de alimentos, sobre a qual a política de juros tem efeito mínimo. `Temos que esperar mais dois ou três meses de inflação para vermos como será o desvio da meta, que, por enquanto, está em 0,5 ponto percentual e, por lei, pode chegar a dois pontos`, frisou. Pelas contas de Serrano, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para o sistema de metas, fechará maio muito próximo de 0,6%, o quinto mês consecutivo de taxas na casa de 0,5%, patamar elevado para a nova realidade do país.

Choque de juros

A disparada da inflação se tornou um problema maior para o BC, porque os preços estão subindo em um ambiente de consumo robusto. Ou seja, como as pessoas estão dispostas a gastar, comércio e indústria não se acanham em reajustar as tabelas de preços, alimentando a inflação. A força do consumo, segundo Giovanna Rocca, economista do Unibanco, ficou explícita ontem, com a divulgação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do desempenho do varejo em março (veja matéria na página 18). As vendas cresceram 1,8% sobre fevereiro, consolidando avanço de 2,8% no primeiro trimestre.

Tal resultado, avaliou Giovanna, elevou os riscos de descasamento entre oferta e demanda, a preocupação mais evidente do BC quando olha para a inflação. `As vendas do varejo estão aumentando em um ritmo sete vezes maior do que o da produção industrial`, frisou. Se continuar assim, mais à frente poderá faltar mercadorias e os fornecedores poderão fazer o que quiser com os preços, repassando, sobretudo, os custos maiores de produção para os consumidores. `Com certeza, esses repasses já estão acontecendo`, frisou o professor Heron do Carmo, do Conselho Federal de Economia. Ele acredita, porém, que o pior do aumento de preços já passou. `A partir de julho, veremos índices de preços ao consumidor bem menores do que os atuais, o que evitará um choque de juros pelo BC`, disse.

análise da notícia Até onde vão os juros?

A retomada do controle da inflação não será tarefa fácil para o Banco Central, como muitos imaginavam. O que está se vendo não é apenas uma alta de alimentos — como ocorre em todo o mundo. A economia brasileira está sendo vítima de reajustes em cadeia. A alta do minério de ferro, por exemplo, empurrou os preços do aço para cima, que levou a reajustes nos automóveis, nos eletrodomésticos e em materiais usados pela construção civil. Já o aumento do petróleo impactou toda a cadeia petroquímica, os preços da embalagens plásticas, os adubos e fertilizantes.

Para reverter esse choque, o remédio será juros mais altos. Em abril, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), para 11,75%, o BC sinalizou que a maior parte do aumento já havia ocorrido. Mas, desde então, os índices de inflação só pioraram. Junto com eles foram subindo as projeções de aumento de juros, de um ponto para 1,5 ponto e, mais recentemente, para dois pontos percentuais. A pergunta do momento, agora, é até onde o BC terá que ir com os juros para pôr a inflação nos eixos? O perturbador é que ninguém sabe.

Repórter: Vicente Nunes

Fonte: Correio Braziliense

16/5/2008.