26/11/2008
Com o tombo do preço do petróleo nas últimas semanas, as cotações dos combustíveis ficaram bem mais altas no Brasil do que no mercado internacional, mesmo com o dólar na casa de R$ 2,30. Estimativas da MCM Consultores apontam que na refinaria a gasolina estava, na segunda-feira, 31,4% mais barata na região americana da costa do Golfo do México do que no Brasil. No caso do óleo diesel, o número era de 5,5%.
Apesar da magnitude da diferença no caso da gasolina, o consumidor não deve esperar uma queda dos preços do combustível no curto prazo. Os analistas lembram que a política da Petrobras para os dois derivados do petróleo é de corrigir discrepâncias entre cotações internas e externas apenas quando elas se mantêm elevadas por um longo período de tempo. Pelos cálculos da MCM, a gasolina começou a ficar mais cara no Brasil do que lá fora em 9 de outubro. O diesel só se tornou mais caro aqui do que no exterior no dia 27.
`A Petrobras costuma esperar que um novo patamar de preços se consolide por um prazo mais longo`, diz a economista Basiliki Litvac, da MCM, que não trabalha com quedas nos preços neste ano. Para 2009, ela considera possível um corte nas cotações, caso a diferença continue significativa. Basiliki lembra que cerca de 70% a 80% das reduções de preços nas refinarias costumam chegar ao consumidor, acrescentando que uma queda de 10% da gasolina na bomba implica um recuo de 0,42 ponto percentual no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O economista Luís Fernando Azevedo, da Rosenberg & Associados, tampouco acredita que a empresa vai baixar os preços no curto prazo. A última vez que a empresa alterou as cotações foi em maio deste ano, quando a gasolina subiu 10% e o diesel, 15%, mas depois de um longo período em que os preços internos ficaram defasados em relação aos externos. Para compensar o impacto ao consumidor, o governo reduziu a alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). De março de 2007 até início de outubro de 2008, a gasolina ficou quase todo o tempo mais barata no Brasil do que lá fora.
Azevedo diz ainda que há muita instabilidade no petróleo e no câmbio nas últimas semanas, o que torna complicado definir qual o nível mais adequado para a gasolina e o óleo diesel. Em julho, o petróleo WTI chegou a ser negociado próximo a US$ 150 o barril. Nos últimos dias, o produto caiu para a casa de US$ 50. O dólar, que atingiu R$ 1,559 no começo de agosto, fechou ontem a R$ 2,325. O analista de investimentos Lucas Brendler, do banco Geração Futuro, diz que não deverá haver mudanças nos preços nos próximos quatro a seis meses, uma vez que a política declarada da empresa é não transferir a instabilidade do mercado externo para o interno.
Nos últimos trimestres, o dinheiro em caixa da Petrobras diminuiu, mas os analistas não acham que isso seja um motivo para impedir um corte nos preços. Segundo Brendler, as disponibilidades financeiras estavam em R$ 10,8 bilhões no terceiro trimestre, 23,9% abaixo dos R$ 14,2 bilhões no mesmo trimestre de 2007.
O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, diz que o atual patamar de preços dos combustíveis no Brasil é fruto da política da estatal de não repassar a volatilidade de outros países para o mercado doméstico. Segundo ele, no terceiro trimestre do ano a companhia reduziu o lucro das operações antes do resultado financeiro (ou Lajida) porque não repassou para o diesel, gasolina e querosene de aviação o preço do petróleo no mercado internacional. Barbassa afirma que uma das razões que levaram a companhia a reduzir seu caixa no último trimestre foi justamente a importação de derivados a preços maiores que os de venda no mercado doméstico.
`O abastecimento importou diesel, GLP e gasolina e vendia no Brasil a preços menores do que estava pagando lá fora. Foi necessário pegar dinheiro do caixa`, diz o diretor, lembrando que entre julho e setembro o preço do diesel disparou depois do aumento de 15% no preço em maio. `Essa é a nossa política de preços. Nesse momento estamos invertidos. Naquele momento eu importava e vendia por um preço menor, estava consumindo o caixa da companhia e também pagando contribuições como a Participação Especial por um preço internacional que tinha ido a US$ 147.` O preço recorde de US$ 147 foi atingido em julho, mas no terceiro trimestre era vendido no Brasil a um preço equivalente a US$ 110, na média.
A analista Mônica Araújo, da Ativa Corretora, considera que a empresa deverá continuar com uma geração de caixa expressiva, ainda que haja uma correlação forte com os preços do petróleo. Para ela, se houver redução dos preços na refinaria, a empresa pode encontrar outras fontes de captação de recursos. `A empresa tem condições de ir a mercado para frente às suas necessidades de capital`, diz Mônica. Ela considera que a Petrobras possui dinheiro suficiente para esperar até meados do ano que vem para acessar o mercado.
Enquanto os preços da gasolina e do diesel tendem a ficar estáveis no curto prazo, as cotações de outros derivados do petróleo já estão em queda, como a nafta No Índice Geral de Preços - 10 (IGP-10) de novembro (que mede a inflação do dia 11 de outubro a 10 deste mês), as naftas para petroquímica caíram 19,4%. O preço é definido pela Petrobras na virada do mês. Para dezembro, especialistas acreditam que pode haver mais uma queda, na casa de 20%, considerando as cotações do produto no exterior e um câmbio de R$ 2,30.
Importante insumo, o recuo da nafta representa um alívio de custos na cadeia petroquímica. O IGP-10 também mostrou queda do óleo combustível, de 1,45%. Já o querosene para aviação teve alta de 2,3%, mas as próximas medidas do indicador devem mostrar queda - o produto caiu 7,87% em 1º de novembro, diz Basiliki.
Autor(es): Sergio Lamucci e Cláudia Schüffner
Fonte: Valor Econômico
- 26/11/2008.
Apesar da magnitude da diferença no caso da gasolina, o consumidor não deve esperar uma queda dos preços do combustível no curto prazo. Os analistas lembram que a política da Petrobras para os dois derivados do petróleo é de corrigir discrepâncias entre cotações internas e externas apenas quando elas se mantêm elevadas por um longo período de tempo. Pelos cálculos da MCM, a gasolina começou a ficar mais cara no Brasil do que lá fora em 9 de outubro. O diesel só se tornou mais caro aqui do que no exterior no dia 27.
`A Petrobras costuma esperar que um novo patamar de preços se consolide por um prazo mais longo`, diz a economista Basiliki Litvac, da MCM, que não trabalha com quedas nos preços neste ano. Para 2009, ela considera possível um corte nas cotações, caso a diferença continue significativa. Basiliki lembra que cerca de 70% a 80% das reduções de preços nas refinarias costumam chegar ao consumidor, acrescentando que uma queda de 10% da gasolina na bomba implica um recuo de 0,42 ponto percentual no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O economista Luís Fernando Azevedo, da Rosenberg & Associados, tampouco acredita que a empresa vai baixar os preços no curto prazo. A última vez que a empresa alterou as cotações foi em maio deste ano, quando a gasolina subiu 10% e o diesel, 15%, mas depois de um longo período em que os preços internos ficaram defasados em relação aos externos. Para compensar o impacto ao consumidor, o governo reduziu a alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). De março de 2007 até início de outubro de 2008, a gasolina ficou quase todo o tempo mais barata no Brasil do que lá fora.
Azevedo diz ainda que há muita instabilidade no petróleo e no câmbio nas últimas semanas, o que torna complicado definir qual o nível mais adequado para a gasolina e o óleo diesel. Em julho, o petróleo WTI chegou a ser negociado próximo a US$ 150 o barril. Nos últimos dias, o produto caiu para a casa de US$ 50. O dólar, que atingiu R$ 1,559 no começo de agosto, fechou ontem a R$ 2,325. O analista de investimentos Lucas Brendler, do banco Geração Futuro, diz que não deverá haver mudanças nos preços nos próximos quatro a seis meses, uma vez que a política declarada da empresa é não transferir a instabilidade do mercado externo para o interno.
Nos últimos trimestres, o dinheiro em caixa da Petrobras diminuiu, mas os analistas não acham que isso seja um motivo para impedir um corte nos preços. Segundo Brendler, as disponibilidades financeiras estavam em R$ 10,8 bilhões no terceiro trimestre, 23,9% abaixo dos R$ 14,2 bilhões no mesmo trimestre de 2007.
O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, diz que o atual patamar de preços dos combustíveis no Brasil é fruto da política da estatal de não repassar a volatilidade de outros países para o mercado doméstico. Segundo ele, no terceiro trimestre do ano a companhia reduziu o lucro das operações antes do resultado financeiro (ou Lajida) porque não repassou para o diesel, gasolina e querosene de aviação o preço do petróleo no mercado internacional. Barbassa afirma que uma das razões que levaram a companhia a reduzir seu caixa no último trimestre foi justamente a importação de derivados a preços maiores que os de venda no mercado doméstico.
`O abastecimento importou diesel, GLP e gasolina e vendia no Brasil a preços menores do que estava pagando lá fora. Foi necessário pegar dinheiro do caixa`, diz o diretor, lembrando que entre julho e setembro o preço do diesel disparou depois do aumento de 15% no preço em maio. `Essa é a nossa política de preços. Nesse momento estamos invertidos. Naquele momento eu importava e vendia por um preço menor, estava consumindo o caixa da companhia e também pagando contribuições como a Participação Especial por um preço internacional que tinha ido a US$ 147.` O preço recorde de US$ 147 foi atingido em julho, mas no terceiro trimestre era vendido no Brasil a um preço equivalente a US$ 110, na média.
A analista Mônica Araújo, da Ativa Corretora, considera que a empresa deverá continuar com uma geração de caixa expressiva, ainda que haja uma correlação forte com os preços do petróleo. Para ela, se houver redução dos preços na refinaria, a empresa pode encontrar outras fontes de captação de recursos. `A empresa tem condições de ir a mercado para frente às suas necessidades de capital`, diz Mônica. Ela considera que a Petrobras possui dinheiro suficiente para esperar até meados do ano que vem para acessar o mercado.
Enquanto os preços da gasolina e do diesel tendem a ficar estáveis no curto prazo, as cotações de outros derivados do petróleo já estão em queda, como a nafta No Índice Geral de Preços - 10 (IGP-10) de novembro (que mede a inflação do dia 11 de outubro a 10 deste mês), as naftas para petroquímica caíram 19,4%. O preço é definido pela Petrobras na virada do mês. Para dezembro, especialistas acreditam que pode haver mais uma queda, na casa de 20%, considerando as cotações do produto no exterior e um câmbio de R$ 2,30.
Importante insumo, o recuo da nafta representa um alívio de custos na cadeia petroquímica. O IGP-10 também mostrou queda do óleo combustível, de 1,45%. Já o querosene para aviação teve alta de 2,3%, mas as próximas medidas do indicador devem mostrar queda - o produto caiu 7,87% em 1º de novembro, diz Basiliki.
Autor(es): Sergio Lamucci e Cláudia Schüffner
Fonte: Valor Econômico
- 26/11/2008.