A pobreza à beira do asfalto

22/05/2007
Pode não parecer, mas a BR-407 passou por restauração no ano passado, quando um orçamento de R$ 1,3 milhão foi aplicado na reforma da via. A obra atingiu 232,9 km, com ramificações nas BRs 122, 235 e 428, entre as cidades de Juazeiro e Petrolina, na divisa da Bahia com o Estado de Pernambuco, até o entroncamento da BR-324 e BA-414, no município de Capim Grosso.

O erro, no entanto, foi o poder público ter restaurado a BR-407 e deixado de elaborar um plano de conservação para deixá-la sempre em condições adequadas. Passadas algumas chuvas, o asfalto começou a desaparecer. Entre a comunidade, o fenômeno ganhou o apelido de `efeito sonrisal`.

`Ô meu filho. Posso até ganhar a vida aqui, mas acho que devem consertar essas pistas`, comenta Maria Dalva, que acompanha no dia-a-dia a degradação.

A PIOR - Depois de vencidos os obstáculos da BR-407, o pior trecho encontrado na região norte é a BA-161, iniciada em Remanso até Pilão Arcado. O acostamento de barro possui uma diferença tão grande em relação à pista que é capaz de virar um veículo. O resto do asfalto parece estar sendo engolido pelo barro. Até Pilão Arcado são 68 km sem sinal de celular, borracharia, posto de gasolina ou qualquer outro meio de buscar ajuda.

Ainda assim, o pior está por vir após a placa enferrujada indicando que Pilão Arcado está a 10 km.

Nem os caminhoneiros querem passar por lá, como explica Egnaldo Barbosa, 47 anos, há 20 no transporte de material de construção pela BA-161. Com uma das molas de suspensão quebrada, chegou a perder dois pneus de uma só vez na estrada. Umprejuízo de R$ 2.800. De Pilão Arcado até Petrolina Egnaldo perde três horas.

O normal seria uma hora. `O caminhoneiro Egnaldo vem uma vez e, após conferir este quadro, não volta mais`, comenta Barbosa, após admitir que se mantém na ativa graças à sua loja de material de construção.

O descaso teve início em 2004, quando o período das chuvas foi mais intenso. O prefeito do município Roberto Martins (PV) conta que, em 2006, teve início o processo de pavimentação, mas as máquinas foram embora assim que o antigo grupo político (leia o carlismo) perdeu o governo do Estado para o clã petista de Jaques Wagner.

`Temos três ambulâncias sempre em manutenção. É difícil levar os pacientes mais graves até Juazeiro`, disse o prefeito Egnaldo.

Pilão Arcado possui um hospital e um posto de saúde para atender os 30 mil habitantes (pelo menos 18 mil na zona rural).

No setor econômico, os 11.700 km de extensão são voltados à produção de pescado e criação de caprino e ovinocultura. Quem lida direto com o transporte tem optado por cortar caminho e aproveitar a proximidade com o Piauí, onde se corre menos risco.

CRIANÇAS - No caminho de volta, optou-se por fazer o mesmo percurso de ida, seguindo pela BA-131 até a Estrada do Feijão (BA-052). A BA-131 mantém a regra das rodovias estaduais e exige atenção redobrada dos motoristas pelo excesso de buracos. Assim como a BR-407, a pista passou por melhorias, mas as crateras reapareceram.

Hoje, mais parece um queijo suíço e serve como meio de vida para crianças do município de Campo Formoso.

A escola teve de ser trocada pelo cabo da pá. Passam o dia à espera das moedas arremessadas pelas janelas dos carros, como é o caso de Robério Costa, 10 anos. Com voz firme, conta que o lucro não ultrapassa R$ 15 ao dia. O dinheiro é revertido em comida na casa onde mora com os pais.

Junto com Robério estão dois primos: Antônio e Paulo Cerqueira. Ambos analfabetos, não foram registrados e desconhecem até a própria idade. `Queria sair daqui e trabalhar como vendedor de legumes.

Deve dar mais dinheiro`, diz Antônio, de forma inocente. A boca desdentada mostra que o menino nunca foi ao dentista. Em casa, a pressão para trazer dinheiro o levou até a pista, onde os trocados recebidos servem de ajuda aos dez irmãos menores.

A pobreza na BA-131 fica para trás e a estrada é interrompida pela BR-324, no trecho que levará de Lajes a Jacobina. São 34 km difíceis de percorrer, como afirma o inseminador de gado Jorge Mendes Cunha, 35, morador de Laje e funcionário de uma fazenda na região de Jacobina. `Ando com medo de roubarem minha moto. Tenho de passar devagar, o que facilita a abordagem dos ladrões`, diz, ao lembrar que há oito anos não vê uma operação tapa-buracos na pista. O trecho mais perigoso da BR-324 é conhecido como Curva da Galinha, onde o espaço para circulação de carros ficou limitado diante da buraqueira.

Fonte: Jornal A Tarde.

EDER LUIS SANTANA.

eluis@grupoatarde.com.br .

Em 22/05/2007.