PAC deve ser atingido por dificuldades da Petrobras

02/12/2008
Apesar de o presidente Lula garantir, de pés juntos, que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não será atingindo pelo corte de despesas que o governo será obrigado a fazer para enfrentar os estragos da crise internacional, integrantes da equipe econômica e analistas de mercado são enfáticos em dizer de que várias obras tocadas pela Petrobras serão adiadas ou mesmo suspensas. A estatal, conforme informou a Casa Civil, é responsável por 35%, ou R$ 176,4 bilhões, dos R$ 504 bilhões previstos em investimentos no PAC entre 2007 e 2010. `Mantida a atual escassez de crédito internacional, não há como a Petrobras tirar do papel todas as obras incluídas no PAC dentro dos prazos previstos`, disse o economista Clodoir Vieira, da Corretora Souza Barros. `A não ser que a empresa se endivide a um custo muito alto, o que será prejudicial para seus resultados`, ressaltou.

Segundo mapeamento feito pelo mercado, a estatal priorizará as obras de exploração e produção de petróleo que já estão em andamento. É uma forma de, neste momento de incertezas, mostrar que a companhia continua bem, apesar do fluxo de caixa mais restrito, que a levou a tomar empréstimos de R$ 2,02 bilhões com a Caixa Econômica Federal e de R$ 751 milhões com o Banco do Brasil. A tendência, na avaliação de Décio Pecequilo, operador sênior da TOV Corretora, é de que a tesoura alcance, sobretudo, os investimentos em projetos do setor petroquímico e em refinarias que ainda estão em fase inicial ou em projetos, como as do Maranhão, do Rio de Janeiro e do Ceará.

Essa percepção é endossada por um dos assessores mais próximos de Lula. `O que o presidente quer é entregar obras. Então, a orientação é concluir tudo o que já foi iniciado e ir tirando do papel os projetos à medida que a conjuntura permitir`, destacou. `Não podemos, de forma alguma, passar a sensação de que todas as obras da Petrobras estão com problemas, até porque isso não é verdade`, emendou. Para reforçar essa tese, a estatal informou ontem que botou em operação a plataforma P-53 no Campo Marlim Leste, na Bacia de Campos, que custou R$ 2,9 bilhões. O obra estava prevista no PAC.

Reação

Dentro da estratégia de mostrar que tudo vai bem e orientado pelo Palácio do Planalto a bater pesado no senador Tasso Jeiressati (PSDB-CE), que detonou a polêmica em torno do empréstimo da Caixa Econômica à Petrobras, o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, finalmente rompeu o silêncio. Ele acusou o senador de agir de forma irresponsável e assegurou que o empréstimo dado pelo banco público é trivial e corriqueiro `Eu queria chamar a atenção para a irresponsabilidade de tentar caracterizar como excepcional uma operação que é absolutamente trivial, que foi anunciada quando divulgamos nosso resultado, em 11 de novembro`, disse.

Segundo Gabrielli, a companhia combina a sua geração de caixa com empréstimos para cobrir suas despesas operacionais e os investimento.

Na opinião de Walter de Vitto, da Consultoria Tendências, é natural que, num cenário de escassez de liquidez externa, recorra ao mercado bancário nacional. Mas ele ressaltou que, neste cenário adverso, a empresa terá que atrasar investimentos. Segundo Mônica Araújo, analista da Ativa Corretora, ainda é cedo para falar em atrasos de obras, pois o que se viu foi um problema pontual no caixa da Petrobras.

________________________________________ Acusação de terrorismo

O Palácio do Planalto resolveu comprar briga com a oposição devido à polêmica criada em torno do empréstimo de R$ 2 bilhões da Caixa à Petrobras. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros do chamado núcleo duro do governo acusaram PSDB e DEM de `terrorismo` por usarem a operação para levantar suspeitas sobre a saúde financeira da empresa. Além disso, afirmaram que os oposicionistas tentam disseminar o `pânico` na sociedade por meio de `factóides e denúncias artificiais`.

O discurso foi traçado durante a reunião da coordenação política. O governo decidiu reagir por considerar que a imprensa comprou a versão da oposição. Assim, seria necessário equilibrar a disputa nos meios de comunicação. `No Brasil, muitas vezes somos jogados para baixo. Ninguém se movimenta se não estiver motivado, se não tiver esperança`, declarou o presidente, à tarde, numa solenidade sobre educação.

Por determinação de Lula, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, deu uma entrevista no Rio para negar que a companhia esteja com problema de caixa e em dificuldades financeiras. Já a oposição saiu a campo para rebater o Planalto. Vice-líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR) alegou que o partido não questionou a solidez financeira da empresa. Teria apenas destacado a existência de dificuldades transitórias de caixa. (DP e VN).

Autor(es): Vicente Nunes, Edna Simão e Daniel Pereira

Fonte: Correio Braziliense

- 02/12/2008.