Eletricidade bate recorde de consumo e preço

11/03/2010
A demanda por eletricidade no Brasil vem batendo sucessivos recordes históricos. Superou, na média, 71 mil megawatts (MW) no horário de ponta devido às altíssimas temperaturas climáticas. Disparou o uso de aparelhos de ar condicionado, televisores, micro-ondas e ventiladores durante o dia e à noite. Além disso, mais de 90 milhões de brasileiros estão sendo incorporados ao mercado consumidor segundo a Fundação Getulio Vargas. Contribuiu para a elevação da demanda, também, o retorno da atividade industrial aos níveis anteriores à crise econômica de outubro de 2008.

A fim de evitar a sobrecarga operacional da usina de Itaipu, que continua gerando com restrições, estão sendo ativadas térmicas movidas a gás natural, óleo diesel, carvão mineral e óleo combustível, muito mais caras e poluentes, mas capazes de evitar apagões. (Estudos acadêmicos atribuem à falta de planejamento governamental e investimentos insuficientes em operação e manutenção os atuais apagões, que atormentam os usuários cariocas e paulistas neste verão.) O volume produzido pelas térmicas custará perto de R$ 8 bilhões aos cofres do Tesouro Nacional. No próximo quinquênio, a expansão da oferta será termelétrica.

Novamente, estão sendo desprezadas a construção de novas hidroelétricas e as térmicas movidas a biomassa (bagaço da cana), mais competitivas e ecológicas. Com potencial hidroelétrico que deve nos atender durante as próximas décadas e com custos energéticos mais baratos, não deveriam construir termoelétricas no sistema interligado. Ademais, são inúmeras as vantagens da complementariedade da eletricidade produzida da biomassa.

Destaca-se a proximidade das indústrias sucroalcooleiras aos centros de carga, interligando com baixo custo e risco a produção e o consumo. Mais: a bioeletricidade da biomassa (bagaço) reduz as emissões de gases do efeito estufa (GEE) quando comparada às fontes fósseis, além da menor complexidade na aprovação das licenças ambientais.

Cerca de 15 mil MW de eletricidade do bagaço poderiam ser incorporados à oferta rapidamente, sem a necessidade da ligação de térmicas de combustíveis fósseis, contribuindo, dessa forma, para o estabelecimento de uma matriz energética mais limpa e econômica. A prioridade às construções das hidroelétricas foi preterida diante da pressão dos ecologistas.

Com os reservatórios das usinas hidroelétricas cheios, não existe, atualmente, o risco do desabastecimento doméstico e industrial. Sem dúvida, é a melhor condição do sistema elétrico brasileiro dos últimos 10 anos. No Sudeste e Centro-Oeste, os tanques das usinas hidroelétricas têm na média 80% de água armazenada da sua capacidade nominal em decorrência das copiosas chuvas dos últimos quatro meses.

Dessa forma, existirá sobra de eletricidade até os próximos cinco anos a fim de atender às necessidades do crescimento previsto do PIB de 6% em 2010. A oferta abundante não tem afastado, no entanto, os constantes cortes do abastecimento no Rio de Janeiro e na capital do estado paulista. As concessionárias de distribuição culpam as intensas tempestades havidas e as dificuldades de acesso, a fim de alcançar as áreas em que se tornam indispensáveis os reparos na rede.

Mesmo com o excesso de oferta, a eletricidade continua cara, tendo crescido muito mais que a inflação. No passado recente, tivemos as tarifas elétricas mais baixas do mundo. Nos dias atuais, é uma das mais caras. As tarifas recolhem em torno de 50% dos seus valores na forma de tributos descarregados na conta do consumidor doméstico.

Autor(es): # Luiz Gonzaga Bertelli Diretor e conselheiro da Fiesp e presidente da Academia Paulista de História (APH)