Governo se move para conter inflação

16/05/2008
Com a ameaça de disseminação da inflação rondando a economia brasileira, o governo ativa a artilharia de medidas para combater a alta de preços, principalmente de alimentos , e tenta conter o movimento de alta da taxa básica de juros pelo Banco Central (BC). Depois de adotar 10 medidas para desonerar e elevar a oferta de crédito ao setor agrícola, novas opções estão em estudo, entre elas a possibilidade de neutralizar as pressões sobre os preços dos insumos.

A idéia é estender para os setores de fertilizantes e defensivos agrícolas a mesma isenção dada ao trigo no pagamento do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMM). Atualmente, 25% do valor do frete é destinado à Marinha Mercante.

O governo quer agir para conter o aumento do preço dos alimentos e, ao mesmo tempo, trabalha para que não haja restrição na oferta para abastecer os mercados interno e o externo. Nos estudos dos Ministérios da Fazenda e da Agricultura estão relacionadas medidas para fortalecer o Plano de Safra Agrícola 2008/2009, com a ampliação do crédito para as produções de feijão, arroz, milho e trigo. O objetivo é evitar pressões de preço no futuro para produtos básicos na alimentação da camada de baixa renda da população.

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, garante que o próximo plano de safra virá com `toda força`. `As soluções não são de curto prazo. O que podemos fazer, neste momento, é tentar um plano de safra que aumente a produção interna`, disse. Ele defende a retirada do adicional de frete da Marinha Mercante para fertilizantes e defensivos, além de medidas para estimular a produção doméstica de fertilizantes. `Essa é uma reivindicação de todos os setores de fornecimento. O governo está estudando. Mas é uma negociação muito complexa`, afirmou.

Stephanes avaliou, no entanto, que o impacto da retirada do adicional é pontual e não põe fim às dificuldades. `Nosso problema é muito maior. Estamos estudando a questão dos fertilizantes com maior profundidade`, disse o ministro.

A oferta de fertilizantes e defensivos é hoje o ponto de `estrangulamento` da atividade agrícola no País, segundo o ministro. `A grande colaboração que o Brasil vai dar para si mesmo e para o mundo é aumentar a oferta de alimentos no sentido de evitar a alta dos preços.`

REIVINDICAÇÕES

Os setores afetados comemoram a iniciativa do governo, mas alertam para detalhes que, se não forem observados, colocarão em risco a eficácia das medidas. Para o diretor da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Chistian Saigh, Mantega tem sido rápido na adoção das medidas de auxílio ao setor, que vão contribuir para a redução dos preços.

Ponderou, no entanto, que o trigo é uma commodity sujeita à volatilidade de preços no mercado externo. `As medidas são um bom início. A tendência é de queda do preço para o consumidor final, mas é o mercado internacional que manda no preço.`

O presidente da Associação Brasileira de Panificação e Confeitaria (Abip), Alexandre Pereira, também elogiou as medidas. Mas alertou que o benefício ao consumidor seria maior se o governo também retirasse o pão francês da base de cálculo do Simples. Ele destacou que o PIS e a Cofins, que foram desonerados, não são cobrados no Simples, regime tributário em que estão 95% das padarias do País. `Somente as grandes panificadoras e supermercados vão ser beneficiados pela medida.`

O governo está agindo pontualmente, à medida que identifica gargalos, como admitiu uma fonte da Fazenda. A preocupação é que, se a alta dos preços não for contida, há o risco de novos aumentos dos juros, que provocaria um freio no ritmo de expansão da economia, comprometendo os avanços dos últimos dois anos. Segundo os assessores, preservar o crescimento se transformou em `obsessão` do ministro Mantega.

Repórteres: Adriana Fernandes e Fabiola Salvador

Fonte: O Estado de S. Paulo

16/5/2008.