Alta do petróleo pressiona preço do gás

21/05/2008
O patamar histórico do preço do barril de petróleo, que já supera os US$ 129, começa a colocar em alerta quem consome o gás natural no Brasil. Se hoje o preço médio por milhão de BTU está próximo dos US$ 7,3, no fim do próximo ano há quem já estime que o insumo tem tudo para alcançar os US$ 12. E este valor, projetado pela consultoria Gás Energy, inclui apenas a negociação entre o produtor e a distribuidora do insumo. Não contempla, portanto, o acréscimo para levar o gás até a indústria, o comércio e outros consumidores.

Ontem, na Bolsa Mercantil de Nova York, o petróleo WTI para junho fechou a US$ 129,07, alta de US$ 2,02. Já na Bolsa Internacional do Petróleo de Londres, o barril do tipo Brent para julho foi vendido a US$ 127,84, incremento de US$ 2,78 no dia.

Mas a alta do petróleo não é a única responsável pela projeção de aumento de preços. Boa parte desse reajuste também vai decorrer da nova modelagem de venda que a Petrobras está implementado no Brasil junto às distribuidoras de gás natural. Em linhas gerais, a estatal tem fechado contratos que contemplam algumas diferentes cotações, que variam de acordo com o ritmo do fornecimento do insumo. Por exemplo, o produto com garantia firme tem um valor diferente do gás natural passível de interrupção no fornecimento.

`É mais uma pressão inflacionária propiciada pela alta do petróleo no mundo`, afirma o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE). `Há um componente inflacionário de difícil redução de impacto na atividade industrial`, completa Pedro Camarota, diretor de negócios da Gás Energy.

A percepção junto às companhias consumidoras de gás natural começa, inclusive, a ser constatado por uma pesquisa que a consultoria tem feito no país. O levantamento, que ainda colhe informações junto aos diversos tipos de consumidores, já mostra que a esmagadora maioria das empresas trabalha com um aumento substancial do preço de gás natural no Brasil. `São petroquímicas, químicas, ceramistas, entre outros, que apontam na direção de um aumento de preços`, afirma Camarota.

A julgar pela fabricante americana de vidros Guardian, a sensação da pesquisa da Gás Energy está no caminho certo. Fabio Oliveira, gerente de finanças e relações externas da empresa no país, conta que será muito difícil imaginar que o milhão de BTU ficará nos US$ 7, enquanto que atualmente nos Estados Unidos o produto está em US$ 11,50. `Mas ainda acredito que no Brasil ficará no máximo em US$ 10`, conta Oliveira.

Mesmo assim, destaca o executivo da Guardian, fatalmente haverá um repasse de preços. `Procura-se primeiro o aperto da margem, mas chega um momento em que não há saída. É preciso repassar`, diz.

Ricardo Lima, presidente-executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), conta que a modificação da metodologia de contratos da Petrobras pesa mais que a disparada do preço do petróleo mundo afora. E não tem dúvidas de que uma pressão inflacionária também será vista no setor de gás natural no país.

O fato é que o petróleo não dá a menor indicação de que sofrerá alguma desvalorização nos próximos meses, o que só torna mais real a pressão sobre o gás natural no Brasil. Com o contínuo aperto entre oferta e demanda no mundo, que hoje é de 86 milhões de barris por dia, e a desvalorização do dólar, o petróleo encontra terreno para manter o ritmo de alta. E como os ganhos parecem certos neste setor, os fundos de investimento continuam aportando recursos, já que a crise imobiliária americana ainda não passou totalmente.

Ontem, o barril voltou a subir, depois que mais um fundo revelou que o petróleo chegará aos US$ 150 em Nova York neste ano. `Não há sinal de que haja uma redução de demanda e um aumento de oferta`, diz Adriano Pires.

Repórter: Maurício Capela

Fonte: Valor Econômico

21/5/2008.