Atraso em Jirau poderá elevar custo da energia

28/11/2008
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) considera `difícil` a antecipação em um ano da entrada em operação da usina de Jirau, no Madeira, e trabalha com a possibilidade de leiloar, no próximo ano, em torno de mil megawatts (MW) adicionais de energia térmica para suprir a demanda em 2012. Só naquele ano, isso implicaria custo extra de R$ 400 milhões aos consumidores do sistema interligado e a queima de 200 mil toneladas de óleo diesel, com impacto negativo nas emissões de gases do efeito estufa, explicou o diretor-geral da Aneel, Jerson Kelman. Ele garantiu, porém, que não há risco de déficit na oferta. `O resultado não é a falta de energia, mas que ela será bem mais cara e poluente.`

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, fez um alerta ainda mais grave. Como os contratos de térmicas nos leilões de energia são feitos por 15 anos, ele prevê que o custo adicional ao sistema pode chegar a R$ 4 bilhões. Ele disse manter esperança na entrada em operação de Jirau em 2012 - pelo edital, ela só precisa começar a produzir em janeiro de 2013.

Liminar concedida semana passada pela 3ª Vara Federal de Porto Velho suspendeu a licença parcial de instalação dada pelo Ibama às obras preliminares da usina. A autarquia já recorreu, mas o consórcio Energia Sustentável do Brasil (Enersus) corre sério risco de perder a `janela hidrológica` (período seco) deste ano. Se isso ocorrer, o consórcio poderá retomar os trabalhos apenas em meados de 2009. O Enersus ganhou o leilão de Jirau, em maio, e gerou polêmica ao defender a alteração do local da barragem em mais de nove quilômetros do ponto original.

O Instituto Acende Brasil, que reúne investidores no setor elétrico, manifestou preocupação com a piora progressiva da matriz nacional, com os últimos leilões de energia. Em 2005, segundo a entidade, a geração de energia elétrica correspondia a 1,8% das emissões brasileiras de gases do efeito estufa. As queimadas de florestas representavam 77% do total. O baixo índice se deve à elevada participação de hidrelétricas na matriz. Nos leilões ocorridos de acordo com o novo marco regulatório, a partir de 2004, o panorama começou a mudar, disse Cláudio Sales, presidente do instituto. `A participação média de fontes de alta emissão de gases nos leilões foi de 50% (do total negociado). Tirando as usinas do Madeira, sobe para 72%.`

Sales lembrou que a geração térmica tem custos maiores que de fontes renováveis. Segundo ele, hidrelétricas produzem a R$ 105, em média, por megawatt-hora. Esse valor sobe para R$ 125 no caso de pequenas centrais hidrelétricas, para R$ 249 nas usinas eólicas e para mais de R$ 350 no caso de termelétricas movidas a diesel.

Kelman, que deve deixar o comando da Aneel em janeiro, está sendo processado pelo Ministério Público de Mato Grosso por ter sugerido ao Ibama a emissão da licença parcial a fim de evitar a perda da janela hidrológica e os prejuízos ambientais com o aumento da poluição atmosférica.

Autor(es): Daniel Rittner

Fonte: Valor Econômico

- 28/11/2008.