Captação de US$ 1 bi pelo Tesouro pode ajudar o real

07/01/2009
O Brasil fez ontem sua primeira emissão externa em quase oito meses, período marcado pela escassez global de crédito responsável pelo fechamento do mercado externo para emergentes. Na emissão de ontem, a segunda feita pelo Tesouro Nacional após a conquista do grau de investimento, foi captado US$ 1 bilhão. Os títulos, cujo vencimento ocorre em 2019, pagam ao investidor 6,127% ao ano. A emissão foi estendida ao mercado asiático e o Tesouro pode captar mais US$ 25 milhões. Os coordenadores da oferta foram os bancos Goldman Sachs e Merrill Lynch. O título, com cupom de juros de 5,875%, foi emitido com spread de 370 pontos-base acima do título do Tesouro americano com vencimento em novembro de 2018.

Com a emissão de ontem, o Brasil se junta ao México, que no mês passado foi o primeiro país emergente a acessar os mercados externos após o recrudescimento da crise global, em meados do ano passado. `Gradualmente, os emergentes começam a voltar a emitir papéis, o que é importante como um sinal de que os fluxos de recursos para a região começam a voltar`, comenta Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos. Para Rosa, o mais importante na emissão de ontem foi a sinalização dada ao mercado. `É claro que emitir neste momento pode sair um pouco mais caro, mas vale como um sinal de que os mercados se abriram novamente para o Brasil.`

No ano passado, logo após conquistar o grau de investimento pela agência de rating Standard & Poor`s em abril, o Brasil fez sua única emissão de 2008. Em maio, o Tesouro conseguiu captar US$ 525 milhões nos mercados europeu, americano e asiático, com a emissão do Global 2017, em sua segunda reabertura. Os juros pagos ao investidor ficaram em 5,299% ao ano, os mais baixos já pagos por um papel brasileiro desse prazo. Além do título vendido ontem, o Tesouro tem mais dois papéis vencendo em 2019, emitidos em 2004 e 2005, tendo captados juntos US$ 1,5 bilhão. Na época, o retorno pago ao investidor ficou, respectivamente, em 9,15% e 8,83% ao ano.

Para o estrategista-chefe do Credit Agricolle, asset do banco Calyon, Vladimir Caramaschi, o retorno do Brasil ao mercado externo deve ajudar na recuperação do real e da própria bolsa brasileira. `A captação reduz as preocupações em relação a problemas de financiamento externo do País, tanto do setor público quanto privado`, comenta Caramaschi. `Isso acaba reduzindo as pressões sobre o câmbio, o que favorece o real e também facilita o trabalho do BC na condução da política monetária, facilitando um corte na Selic.`

Normalmente após uma emissão soberana, abre-se uma janela de oportunidade para que o setor privado também emita papéis no exterior. Desta vez, no entanto, há dúvidas sobre este movimento. `O problema é que em um momento como este, de crise, comprar um título soberano sem risco é muito diferente de adquirir o papel de uma empresa privada`, pondera Caramaschi. `Normalmente os bancos são os primeiros a aproveitar esta janela de oportunidade, mas desta vez acho que o movimento será mais lento do que em outras épocas.`

Autor(es): Jiane Carvalho

Gazeta Mercantil

- 07/01/2009.