A vez da Rodoferroviária

30/07/2007
O caos aéreo forçou a mudança de hábitos. A persistência de atrasos, cancelamento de vôos e clima de insegurança mostraram que a crise da aviação durará bem mais que os 10 meses ora completados. Sem opção do transporte ferroviário, restou à população o recurso ao rodoviário. Nem esse, porém, oferece a eficácia necessária à ida e à vinda de pessoas. É o caso do Distrito Federal.

Na capital do país, o caos parece ter mudado de endereço. A Rodoferroviária, antes sem condições efetivas de atender a demanda, agora multiplicou a dimensão dos problemas. Além da impontualidade na saída dos ônibus, os passageiros sofrem com o desconforto nas instalações do embarque e desembarque. O único terminal de ônibus interestaduais carece de estrutura e higiene. Homens, mulheres e crianças sujeitam-se a banheiros depredados, escadas rolantes inoperantes, falta de assentos, de restaurantes e de lanchonetes limpas e confortáveis. Malas disputam lugar com animais no guarda-volumes. A fumaça da fritura se mistura com a do gás tóxico expelido dos canos de descarga dos veículos. Mais: a segurança deixa a desejar. O posto da Polícia Civil do prédio está desativado. Apenas dois policiais militares fazem ronda 24 horas. O número é pouco se consideradas as 5 mil pessoas que circulam pelo local todos os dias. Furtos, roubos e agressões tornaram-se freqüentes. Há uma semana, um mendigo esfaqueou um morador de rua que vivia nas imediações. O trágico é a ausência de alternativa. O brasiliense não dispõe de trem para ir e vir. O Bandeirante — que ligou Brasília a Campinas (em bitola estreita) e, depois de baldeação, à capital paulista (em bitola larga) — foi criado em 1968. Oferecia segurança e conforto. Mas cessou as atividades em 16 de abril de 1992 porque não gerava lucro suficiente. Em 1979, a Linha Centro-Oeste, que servia a várias cidades do interior de Minas e Goiás, foi desativada por falta de recursos. O serviço voltou a funcionar com alteração de trajeto em 24 de abril de 1981.Na oportunidade, o então presidente da República, João Baptista Figueiredo, inaugurou a Rodoferroviária, projeto de Oscar Niemeyer com o formato de vagão de trem e azulejos do artista Athos Bulcão. O edifício, construído há 26 anos, nunca mereceu uma reforma digna. Passou da hora de não só modernizar a estação mas também de fazer justiça ao nome composto. Trata-se de rodoferroviária. Espera-se que dali o passageiro possa embarcar em ônibus ou em trens. Uns e outros devem ser rápidos, modernos e confortáveis. A capital da República — construída no centro do país para estar próxima dos centros nacionais — não pode mais conviver com o transporte precário que a imobiliza e a impede de exercer o papel para o qual foi projetada.

Fonte: Correio Braziliense

Editorial

30/7/2007.