10/08/2007
O aprofundamento da crise das hipotecas de alto risco obrigou o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e o Banco Central Europeu (BCE) a socorrerem os mercados ontem.
A turbulência começou com o anúncio do banco BNP Paribas, o maior da França, de que iria congelar os resgates de três de seus fundos, com ativos de US$ 2,2 bilhões, que têm investimentos em papéis lastreados em hipotecas de alto risco. O anúncio desencadeou uma onda de aversão ao risco entre os investidores e os bancos fecharam a torneira de crédito.
Com isso, as taxas de juros interbancárias subiram muito e os bancos centrais resolveram injetar recursos no sistema por meio de empréstimos para cobrir o déficit de crédito. O BCE emprestou mais de US$ 130 bilhões a 4% ao ano no overnight. O Fed injetou US$ 24 bilhões no sistema bancário para manter a taxa de empréstimos em 5,25%, depois de abrir em 5,5% de manhã. Tanto nos EUA quanto na Europa, os juros antes das intervenções superavam a taxa básica. O Banco do Canadá também injetou um volume de recursos maior do que o normal no mercado para estabilizar o sistema.
O aperto de crédito reverberou no mercado acionário, derrubando as bolsas. O Índice Dow Jones, o mais importante da Bolsa de Nova York, teve a maior queda (2,8%) desde a turbulência provocada pela Bolsa de Xangai, em 27 de fevereiro. A bolsa eletrônica Nasdaq caiu 2,16% e o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) despencou 3,28%.
Depois de anos concedendo empréstimos imobiliários para pessoas com histórico de crédito capenga, os EUA estão em plena temporada de calotes. Essa onda de inadimplência tem efeitos em cadeia: primeiro, a crise do subprime atingiu as empresas imobiliárias; depois, bancos e fundos hedge (de alto risco), que compravam papéis lastreados nesses financiamentos arriscados. Agora, espalha-se para outros tipos de financiamento, até mesmo para pessoas com bom histórico de crédito. E chega até as aquisições alavancadas de empresas (compras feitas com endividamento).
Os investidores estão preocupados com os sinais de que a crise do subprime dos Estados Unidos está se alastrando. Nos últimos dias, várias empresas de financiamento imobiliário fecharam as portas e muitos fundos hedge que investem em papéis lastreados em hipotecas, como os da Bear Stearns que quebraram no início do mês passado, estão em dificuldades. A crise chegou até a Europa, onde bancos que investiram em papéis lastreados em hipotecas dos EUA também estão com problemas. Bancos alemães, com apoio do governo , resgataram o IKB Deutsche Industriebank.
Assustados com as perdas nos fundos, investidores estão `fugindo para qualidade`, ou seja, voltando-se para os papéis do Tesouro americano, considerados os mais seguros do mercado mundial.
O nervosismo ontem chegou a tal ponto que até o presidente dos EUA, George W. Bush, tentou acalmar os ânimos durante uma entrevista coletiva concedida pela manhã. `Nossa economia é forte e há liquidez suficiente no sistema para correção`, disse.
Ainda assim, o mercado não se acalmou. `Sem dúvida, estamos vendo um aperto de crédito generalizado`, disse Italo Lombardi, economista da IdeaGlobal em Nova York. `Já há reflexos em papéis da dívida e moedas de emergentes, mas não acredito que haverá impacto no lado real da economia do Brasil, por exemplo.` Mas ele observa que pode haver uma desaceleração no ritmo de corte de juros no Brasil.
Alguns congressistas americanos sugerem que a Fannie Mae e a Freddie Mac, gigantes estatais de financiamento imobiliário, sejam recrutadas para estabilizar o mercado e `resgatar` alguns proprietários de imóveis. Alguns analistas avaliam que o presidente do Fed, Ben Bernanke, deveria começar a reduzir a taxa de juros, para injetar liquidez na economia e evitar quebradeira. Mas outros apontam para o chamado `risco moral` - se o Fed socorrer, vai estimular o comportamento irresponsável de aposta em ativos arriscados.
Alguns analistas apontam a Goldman Sachs como a próxima baixa - as ações do banco despencaram 5,7% ontem, por causa de uma reportagem do Wall Street Journal, mostrando que mais um fundo administrado pelo banco terá de vender ativos para compensar perdas com papéis de hipoteca.
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo
Patrícia Campos Mello
Em 10/08/2007.
A turbulência começou com o anúncio do banco BNP Paribas, o maior da França, de que iria congelar os resgates de três de seus fundos, com ativos de US$ 2,2 bilhões, que têm investimentos em papéis lastreados em hipotecas de alto risco. O anúncio desencadeou uma onda de aversão ao risco entre os investidores e os bancos fecharam a torneira de crédito.
Com isso, as taxas de juros interbancárias subiram muito e os bancos centrais resolveram injetar recursos no sistema por meio de empréstimos para cobrir o déficit de crédito. O BCE emprestou mais de US$ 130 bilhões a 4% ao ano no overnight. O Fed injetou US$ 24 bilhões no sistema bancário para manter a taxa de empréstimos em 5,25%, depois de abrir em 5,5% de manhã. Tanto nos EUA quanto na Europa, os juros antes das intervenções superavam a taxa básica. O Banco do Canadá também injetou um volume de recursos maior do que o normal no mercado para estabilizar o sistema.
O aperto de crédito reverberou no mercado acionário, derrubando as bolsas. O Índice Dow Jones, o mais importante da Bolsa de Nova York, teve a maior queda (2,8%) desde a turbulência provocada pela Bolsa de Xangai, em 27 de fevereiro. A bolsa eletrônica Nasdaq caiu 2,16% e o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) despencou 3,28%.
Depois de anos concedendo empréstimos imobiliários para pessoas com histórico de crédito capenga, os EUA estão em plena temporada de calotes. Essa onda de inadimplência tem efeitos em cadeia: primeiro, a crise do subprime atingiu as empresas imobiliárias; depois, bancos e fundos hedge (de alto risco), que compravam papéis lastreados nesses financiamentos arriscados. Agora, espalha-se para outros tipos de financiamento, até mesmo para pessoas com bom histórico de crédito. E chega até as aquisições alavancadas de empresas (compras feitas com endividamento).
Os investidores estão preocupados com os sinais de que a crise do subprime dos Estados Unidos está se alastrando. Nos últimos dias, várias empresas de financiamento imobiliário fecharam as portas e muitos fundos hedge que investem em papéis lastreados em hipotecas, como os da Bear Stearns que quebraram no início do mês passado, estão em dificuldades. A crise chegou até a Europa, onde bancos que investiram em papéis lastreados em hipotecas dos EUA também estão com problemas. Bancos alemães, com apoio do governo , resgataram o IKB Deutsche Industriebank.
Assustados com as perdas nos fundos, investidores estão `fugindo para qualidade`, ou seja, voltando-se para os papéis do Tesouro americano, considerados os mais seguros do mercado mundial.
O nervosismo ontem chegou a tal ponto que até o presidente dos EUA, George W. Bush, tentou acalmar os ânimos durante uma entrevista coletiva concedida pela manhã. `Nossa economia é forte e há liquidez suficiente no sistema para correção`, disse.
Ainda assim, o mercado não se acalmou. `Sem dúvida, estamos vendo um aperto de crédito generalizado`, disse Italo Lombardi, economista da IdeaGlobal em Nova York. `Já há reflexos em papéis da dívida e moedas de emergentes, mas não acredito que haverá impacto no lado real da economia do Brasil, por exemplo.` Mas ele observa que pode haver uma desaceleração no ritmo de corte de juros no Brasil.
Alguns congressistas americanos sugerem que a Fannie Mae e a Freddie Mac, gigantes estatais de financiamento imobiliário, sejam recrutadas para estabilizar o mercado e `resgatar` alguns proprietários de imóveis. Alguns analistas avaliam que o presidente do Fed, Ben Bernanke, deveria começar a reduzir a taxa de juros, para injetar liquidez na economia e evitar quebradeira. Mas outros apontam para o chamado `risco moral` - se o Fed socorrer, vai estimular o comportamento irresponsável de aposta em ativos arriscados.
Alguns analistas apontam a Goldman Sachs como a próxima baixa - as ações do banco despencaram 5,7% ontem, por causa de uma reportagem do Wall Street Journal, mostrando que mais um fundo administrado pelo banco terá de vender ativos para compensar perdas com papéis de hipoteca.
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo
Patrícia Campos Mello
Em 10/08/2007.