11/12/2007
Os milhares de baianos e turistas que passam pela Rua Alfredo de Brito, no Pelourinho, atrás da antiga Faculdade de Medicina, muitas vezes nem reparam na existência do número 16, entre dois pontos comerciais comuns na região. Se a curiosidade levar - e a coragem permitir - que alguém siga por aquele curto corredor escuro e sem portas, o desavisado terá uma surpresa: o endereço abriga um bairro inteiro, um quilombo urbano que existe há mais de 100 anos, encravado na encosta que separa a Cidade Alta e o Taboão, na Cidade Baixa, e onde moram mais de 60 famílias de baixa renda.
Embora situado em pleno centro histórico, no local o esgoto corre a céu aberto e a energia elétrica apenas há pouco vem substituindo progressivamente os ‘gatos`. Mas estes problemas de infra-estrutura estão com seus dias contados. A antiga Rocinha, ou Vila Nova Esperança, vai receber investimentos de cerca de R$ 6,5 milhões, via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), fruto de uma parceria entre as secretarias de Cultura (Secult) e de Desenvolvimento Urbano (Sedur), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura Municipal de Salvador.
O Jardim Secreto de Edvon, pseudônimo do artista popular Edmundo Oliveira Santos, morador do bairro há 29 anos, é um exemplo da luta pela dignidade empreendida pelos moradores da região. `Eu me revoltei, pois aqui era depósito de tudo o que não prestava, desde lixo à carniça. Quando comecei o meu jardim, uma forma de protesto, acharam que eu era louco. Hoje, ele já foi tema de um DVD estrangeiro e será preservado nesse projeto do Governo do Estado`, contou orgulhoso.
Trabalho, diversão e arte
Para Ednaldo Sá, outro morador do local, um sonho da comunidade irá se realizar. `Sempre que o Estado se lembrou de nós, foi com ações ostensivas da polícia. Nunca tivemos nossos direitos reconhecidos. Finalmente teremos políticas públicas que se ocupam de nós. Como diz a música, a gente não quer só comida, a gente quer trabalho, diversão e arte`, refletiu.
É exatamente isso o que prevê o projeto de intervenção apresentado pelo arquiteto Marcelo Ferraz. `O fato de trabalharmos com uma comunidade reduzida e organizada permite o aproveitamento dessas pessoas no processo construtivo associado a um trabalho de capacitação`, explicou. Segundo ele, a participação reforça o sentido de coletividade e de pertencimento ao grupo. `Assim garantimos, no futuro, a manutenção e o respeito por esse novo estilo de vida`, afirmo Ferraz.
O arquiteto diz que seu projeto é contemporâneo. `Não queremos copiar nem competir com o estilo colonial, mas dialogar com a arquitetura antiga da região sem tentar imitá-la`, explicou. Para isso, os muros de arrimo construídos há cerca de 200 anos para sustentar as encostas serão aproveitados e a última casa original da região será a sede da comunidade. `A essa estrutura, vamos agregar espaços de lazer, esporte, artístico, uma cozinha comunitária, estúdios de audiovisual, biblioteca, um horto, um lixoduto, oficinas de trabalhos manuais além, é claro das moradias`, explicou.
Segundo o secretário de Cultura do Estado, Márcio Meirelles, este governo havia assumido o compromisso de mudar o foco da recuperação do Pelourinho e incluir os moradores neste processo. `A primeira intervenção foi um absurdo, com a expulsão dos moradores`, avaliou. Para ele, este novo projeto urbanístico preserva tanto as pessoas como a natureza e o patrimônio histórico, dando vida e potencializando toda a região. `Acredito que em um ano estaremos inaugurando os novos equipamentos urbanos`, informou.
O arquiteto
Vencedor do concurso internacional para o Bairro Amarelo, em Berlim, e autor de projetos em várias cidades brasileiras, Marcelo Ferraz foi parceiro da renomada arquiteta Lina Bo Bardi na concepção de um projeto para o Centro Histórico de Salvador idealizado na década de 80, mas que não foi executado.
Ferraz dirigiu o Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi. Foi um dos responsáveis por projetos como a Casa de Benim, a recuperação das encostas das Ladeiras da Misericórdia e do Centro Histórico. Sua concepção é de que `antes de ser bom para o mundo, o Pelourinho tem de ser bom para quem vive lá. Se ele for interessante para os moradores, vai ser para os outros também`.
Fonte: Agecom 11/12/07
Embora situado em pleno centro histórico, no local o esgoto corre a céu aberto e a energia elétrica apenas há pouco vem substituindo progressivamente os ‘gatos`. Mas estes problemas de infra-estrutura estão com seus dias contados. A antiga Rocinha, ou Vila Nova Esperança, vai receber investimentos de cerca de R$ 6,5 milhões, via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), fruto de uma parceria entre as secretarias de Cultura (Secult) e de Desenvolvimento Urbano (Sedur), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura Municipal de Salvador.
O Jardim Secreto de Edvon, pseudônimo do artista popular Edmundo Oliveira Santos, morador do bairro há 29 anos, é um exemplo da luta pela dignidade empreendida pelos moradores da região. `Eu me revoltei, pois aqui era depósito de tudo o que não prestava, desde lixo à carniça. Quando comecei o meu jardim, uma forma de protesto, acharam que eu era louco. Hoje, ele já foi tema de um DVD estrangeiro e será preservado nesse projeto do Governo do Estado`, contou orgulhoso.
Trabalho, diversão e arte
Para Ednaldo Sá, outro morador do local, um sonho da comunidade irá se realizar. `Sempre que o Estado se lembrou de nós, foi com ações ostensivas da polícia. Nunca tivemos nossos direitos reconhecidos. Finalmente teremos políticas públicas que se ocupam de nós. Como diz a música, a gente não quer só comida, a gente quer trabalho, diversão e arte`, refletiu.
É exatamente isso o que prevê o projeto de intervenção apresentado pelo arquiteto Marcelo Ferraz. `O fato de trabalharmos com uma comunidade reduzida e organizada permite o aproveitamento dessas pessoas no processo construtivo associado a um trabalho de capacitação`, explicou. Segundo ele, a participação reforça o sentido de coletividade e de pertencimento ao grupo. `Assim garantimos, no futuro, a manutenção e o respeito por esse novo estilo de vida`, afirmo Ferraz.
O arquiteto diz que seu projeto é contemporâneo. `Não queremos copiar nem competir com o estilo colonial, mas dialogar com a arquitetura antiga da região sem tentar imitá-la`, explicou. Para isso, os muros de arrimo construídos há cerca de 200 anos para sustentar as encostas serão aproveitados e a última casa original da região será a sede da comunidade. `A essa estrutura, vamos agregar espaços de lazer, esporte, artístico, uma cozinha comunitária, estúdios de audiovisual, biblioteca, um horto, um lixoduto, oficinas de trabalhos manuais além, é claro das moradias`, explicou.
Segundo o secretário de Cultura do Estado, Márcio Meirelles, este governo havia assumido o compromisso de mudar o foco da recuperação do Pelourinho e incluir os moradores neste processo. `A primeira intervenção foi um absurdo, com a expulsão dos moradores`, avaliou. Para ele, este novo projeto urbanístico preserva tanto as pessoas como a natureza e o patrimônio histórico, dando vida e potencializando toda a região. `Acredito que em um ano estaremos inaugurando os novos equipamentos urbanos`, informou.
O arquiteto
Vencedor do concurso internacional para o Bairro Amarelo, em Berlim, e autor de projetos em várias cidades brasileiras, Marcelo Ferraz foi parceiro da renomada arquiteta Lina Bo Bardi na concepção de um projeto para o Centro Histórico de Salvador idealizado na década de 80, mas que não foi executado.
Ferraz dirigiu o Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi. Foi um dos responsáveis por projetos como a Casa de Benim, a recuperação das encostas das Ladeiras da Misericórdia e do Centro Histórico. Sua concepção é de que `antes de ser bom para o mundo, o Pelourinho tem de ser bom para quem vive lá. Se ele for interessante para os moradores, vai ser para os outros também`.
Fonte: Agecom 11/12/07