06/05/2009
O Banco Central fez ontem sua primeira forte intervenção no mercado de câmbio desde a eclosão da crise global, em setembro passado, que resultou em alta do dólar. Em uma operação equivalente a US$ 3,4 bilhões, o banco vendeu, em leilão, contratos que equivalem à compra de dólares no mercado futuro. A intervenção ocorreu um dia depois de o dólar ter recuado 2,34%, atingindo R$ 2,13, a menor cotação desde novembro.
O resultado da ação de ontem foi uma apreciação de 0,85% da moeda americana, que fechou o dia a R$ 2,148. Logo após a intervenção, a moeda chegou a atingir R$ 2,16. De setembro até ontem, as operações do Banco Central estavam sendo feitas na ponta oposta. O banco vendia dólares, tentando conter a alta da moeda. De 12 de setembro até ontem, o dólar se valorizou em 21% ante o real.
O BC informou à Folha que o motivo do leilão foi a percepção de que houve uma `alteração das condições de fluxo [cambial] nas últimas semanas`. Os investidores estariam agora apostando na alta do real, e o BC, buscando impedir o excesso de volatilidade sem se contrapor à tendência natural do mercado.
O BC negou que tenha a intenção de interferir na cotação do dólar. E insistiu que não trabalha com meta, piso ou teto cambial. A política de câmbio, segundo a autoridade monetária brasileira, segue flutuante.
Pressão
A Folha apurou que a ação do BC tem outro objetivo que não apenas o de impedir o excesso de volatilidade cambial. No começo de junho vencem contratos por meio dos quais o banco terá de vender US$ 3,3 bilhões. Como o valor que terá de ser entregue em junho equivale aos adquirido ontem, o BC estaria apenas zerando sua posição no mercado futuro.
Além disso, o leilão ocorre em um momento em que o BC é pressionado pelo Ministério da Fazenda para impedir que o real siga em rota de apreciação, o que poderia prejudicar o setor exportador. A Fazenda quer preservar o que acredita ser o único efeito colateral positivo da crise: a valorização do dólar, que barateia os produtos que o país exporta, aumentando sua competitividade.
O leilão do BC produziu reações distintas entre os analistas. Segundo Roberto Padovani, estrategista-chefe do banco WestLB, a ação foi muito mais operacional do que uma mudança de política. `Há fluxos fortes e pontuais, que poderiam fortalecer muito o real e criar espaços para movimentos especulativos.` Para Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria, `o BC é um agente que tem informações privilegiadas` e a atuação `está dentro da normalidade` de sua política. `Dizer que o BC quer segurar o câmbio é uma interpretação totalmente equivocada, na minha opinião`, afirma Blanche.
Já Sidnei Nehme, diretor da corretora de câmbio NGO, diz que a atuação de ontem `foi uma surpresa e desnecessária`. `Não ficou clara a intenção do governo ao atuar. O mercado estava se ajustando à realidade. Esse tipo de intervenção apenas vai contribuir para uma maior volatilidade das cotações`, afirmou Nehme. No leilão, foram vendidos todos os papéis ofertados, em um montante que alcançou os US$ 3,4 bilhões. Essa cifra equivale a toda a movimentação com moeda feita em um dia normal no mercado de câmbio.
A atual cotação do dólar ainda está muito distante dos valores mais baixos do ano passado, antes de a crise se agravar. No dia 1º de agosto de 2008, o dólar fechou a R$ 1,559. Naquele momento, uma das grandes discussões era se o setor exportador sobreviveria com a uma cotação tão baixa. Com a rápida e contundente deterioração do cenário internacional, a partir de setembro, o dólar iniciou sua escala, para bater no pico no começo de dezembro, de R$ 2,536.
Autor(es): MARCIO AITH e FABRICIO VIEIRA
Folha de S. Paulo - 06/05/2009.
O resultado da ação de ontem foi uma apreciação de 0,85% da moeda americana, que fechou o dia a R$ 2,148. Logo após a intervenção, a moeda chegou a atingir R$ 2,16. De setembro até ontem, as operações do Banco Central estavam sendo feitas na ponta oposta. O banco vendia dólares, tentando conter a alta da moeda. De 12 de setembro até ontem, o dólar se valorizou em 21% ante o real.
O BC informou à Folha que o motivo do leilão foi a percepção de que houve uma `alteração das condições de fluxo [cambial] nas últimas semanas`. Os investidores estariam agora apostando na alta do real, e o BC, buscando impedir o excesso de volatilidade sem se contrapor à tendência natural do mercado.
O BC negou que tenha a intenção de interferir na cotação do dólar. E insistiu que não trabalha com meta, piso ou teto cambial. A política de câmbio, segundo a autoridade monetária brasileira, segue flutuante.
Pressão
A Folha apurou que a ação do BC tem outro objetivo que não apenas o de impedir o excesso de volatilidade cambial. No começo de junho vencem contratos por meio dos quais o banco terá de vender US$ 3,3 bilhões. Como o valor que terá de ser entregue em junho equivale aos adquirido ontem, o BC estaria apenas zerando sua posição no mercado futuro.
Além disso, o leilão ocorre em um momento em que o BC é pressionado pelo Ministério da Fazenda para impedir que o real siga em rota de apreciação, o que poderia prejudicar o setor exportador. A Fazenda quer preservar o que acredita ser o único efeito colateral positivo da crise: a valorização do dólar, que barateia os produtos que o país exporta, aumentando sua competitividade.
O leilão do BC produziu reações distintas entre os analistas. Segundo Roberto Padovani, estrategista-chefe do banco WestLB, a ação foi muito mais operacional do que uma mudança de política. `Há fluxos fortes e pontuais, que poderiam fortalecer muito o real e criar espaços para movimentos especulativos.` Para Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria, `o BC é um agente que tem informações privilegiadas` e a atuação `está dentro da normalidade` de sua política. `Dizer que o BC quer segurar o câmbio é uma interpretação totalmente equivocada, na minha opinião`, afirma Blanche.
Já Sidnei Nehme, diretor da corretora de câmbio NGO, diz que a atuação de ontem `foi uma surpresa e desnecessária`. `Não ficou clara a intenção do governo ao atuar. O mercado estava se ajustando à realidade. Esse tipo de intervenção apenas vai contribuir para uma maior volatilidade das cotações`, afirmou Nehme. No leilão, foram vendidos todos os papéis ofertados, em um montante que alcançou os US$ 3,4 bilhões. Essa cifra equivale a toda a movimentação com moeda feita em um dia normal no mercado de câmbio.
A atual cotação do dólar ainda está muito distante dos valores mais baixos do ano passado, antes de a crise se agravar. No dia 1º de agosto de 2008, o dólar fechou a R$ 1,559. Naquele momento, uma das grandes discussões era se o setor exportador sobreviveria com a uma cotação tão baixa. Com a rápida e contundente deterioração do cenário internacional, a partir de setembro, o dólar iniciou sua escala, para bater no pico no começo de dezembro, de R$ 2,536.
Autor(es): MARCIO AITH e FABRICIO VIEIRA
Folha de S. Paulo - 06/05/2009.