Foco em petróleo pode inibir avanço do etanol

20/10/2009
As perspectivas promissoras do etanol - que já provou sua alta competitividade e suas vantagens ambientais - devem mantê-lo como fonte crescente de combustível limpo. Os especialistas observam que nos últimos 30 anos o país já priorizou desde a energia nuclear, o gás, o álcool, o diesel, além de avançar e recuar com o petróleo. Todos reconhecem, no entanto, que o pré-sal não matará o etanol, mas poderá inibir os investimentos nas outras formas de energia limpa.

`Nas últimas três décadas tivemos políticas que responderam a estímulos de mercados, a situações conjunturais`, diz Eduardo Leão de Souza, diretor executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

O país `tem sido vítima de uma política de planejamento de curto prazo no setor de energia`, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para esses especialistas, o pré-sal significa um risco para a matriz energética brasileira, que tem se apresentado como a mais limpa do mundo. Embora o governo anuncie que as novas refinarias produzirão para exportação, nada garante que alterações no mercado mundial ou interesses políticos não levem o país a despejar esses produtos internamente a preços mais baixos, acabando com a competitividade do etanol.

Para o professor José Goldemberg, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP (IEE), o etanol `é um programa inteiramente consolidado porque está nas mãos da iniciativa privada`, portanto, sem interferência do governo e sem a dependência de subsídios, como acontecia no passado. `Se fosse dependente, certamente correria sério risco, porque o pré-sal vai exigir recursos de tal monta que efetivamente vai acabar sugando recursos de outras áreas, inclusive de educação e saúde`, afirma. O custo de abertura de um poço, que a Petrobras calcula em US$ 100 milhões, deve sair por cinco vezes mais, diz o professor, com base em estimativas internacionais. Além disso, `de cada dez poços que se abrem, apenas três é que seriam produtivos`, conclui.

Autor(es): Rosangela Capozoli.

Valor Econômico - 20/10/2009.