30/07/2007
O futuro da aviação civil brasileira estará em jogo entre os dias 18 e 28 de setembro, quando representantes de 189 países elegem os integrantes do Conselho Executivo da Organização de Aviação Civil Internacional (Oaci). Antes do acidente com o avião da TAM, o Brasil já corria o risco de ser rebaixado para o Grupo 2 ou 3 do conselho. Agora, com duas tragédias aéreas em 10 meses, motins de controladores, repetidos atrasos e cancelamentos de vôos no currículo, a ameaça cresce.
O Brasil reage apostando na diplomacia para não perder a vaga na elite do transporte aéreo mundial (leia quadro abaixo). O rebaixamento, explica o brigadeiro Renato Cláudio Costa Pereira, ex-secretário geral da Oaci, pode implicar aumento das tarifas internacionais, restrições para se conseguir licença de equipamentos produzidos no país e dificuldade para pousar em outros países e receber vôos de nações com padrões de segurança mais rígidos. `A Oaci não pune, mas faz recomendações que servem de parâmetros para governos e empresas. Estou preocupado`, afirma.
As autoridades brasileiras ligadas ao setor tentam minimizar os impactos do rebaixamento. Mas, desde o início do ano, o Brasil tem se movimentado para não deixar o Grupo 1. Em janeiro, três meses depois da tragédia com o Boeing da Gol, foi escolhido um diplomata para representar o Brasil no conselho da Oaci, cargo em geral ocupado pela Aeronáutica.
Ex-chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, o ministro Vergniaud Elyseu Filho assumiu com a missão de instalar um escritório em Montreal, no Canadá, para atuar na Oaci, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo é atrair apoio de nações que fazem parte da entidade mas não têm força para disputar uma vaga no grupo de elite.
Relatório
Além de contatos diplomáticos, a Aeronáutica preparou relatório expondo as medidas tomadas contra o `apagão aéreo`. No documento, tenta provar que não há motivos para colocar em xeque a confiabilidade do setor. Lembra que o país sempre pertenceu ao Grupo 1, reforça que todos os equipamentos e sistemas usados são de tecnologia similar à do restante do mundo e assegura que os atrasos decorrem da falta de pessoal, devido ao aumento do tráfego aéreo.
Os militares também tentam esclarecer pontos polêmicos como os buracos negros, as interferências nos radares e a situação dos controladores. A campanha para o Brasil ser advertido formalmente na próxima assembléia da Oaci tem apoio velado de associações de controladores de vôo.
Diante do empenho diplomático, representantes brasileiros na Oaci demonstram otimismo. `Não existe nada de concreto relacionado à possibilidade de o Brasil não conseguir se reeleger para o Conselho da Oaci no Grupo 1. Posso até lhe adiantar que já recebemos a confirmação de apoio de vários países`, afirmou o coronel Carlos Alberto Cirilo, representante do Brasil na Oaci.
Apesar de acreditar na reeleição, Cirilo não a dá como certa. Depois de seis anos como secretário-geral da Oaci, o brigadeiro Renato Pereira também não arrisca o resultado da próxima assembléia. `Não sei qual será o futuro do Brasil na Oaci, mas o efeito de um rebaixamento é devastador tanto na economia quanto nas relações internacionais`, observa. As tragédias recentes, bem como a dificuldade de gerenciar a crise, pesam contra o Brasil. `Os acidentes são resultado de uma administração precária e isso será levado em conta`, assegura.
Para o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, o Brasil precisa mostrar que sabe lidar com situações difíceis. `Temos que sair dando exemplo, depois de tudo o que estamos passando`, afirma. Ele lembra que, no ano que vem, o país será inspecionado por técnicos da Oaci e precisa se preparar para não ser reprovado na análise dos técnicos. José Carlos Pereira sabe que advertências podem ser extremamente prejudiciais. `Há países, por exemplo, que já foram proibidos de entrar na Europa por não oferecerem segurança. Não acho que seja o caso do Brasil`, ameniza.
Este ano, a União Européia decidiu banir todas as companhias aéreas da Indonésia de seu espaço aéreo. O presidente da Oaci, Roberto Gonzalez, fez, no início deste mês, visita à fábrica da Garuda para vistoriar os equipamentos. Foi acompanhado pelo presidente da companhia Soenarko Kuntjoro, que garantiu não haver retaliação aos europeus.
Ranking da OACI
Criada em 1944, com o objetivo de regulamentar a aviação civil, a Organização de Aviação Civil Internacional (Oaci) tem ditado as regras para a organização e o desenvolvimento do transporte aéreo no mundo. Atualmente 189 nações compõem a entidade, mas apenas 36 integram o conselho, que dirige os trabalhos e defendem os interesses de quem não faz parte do seleto grupo, dividido em três categorias.
GRUPO 1 Estados com maior importância no transporte aéreo. Têm voto, liderança e chefiam comissões na Oaci. Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia
GRUPO 2 Estados que contribuem para promover instalações e serviços para a navegação aérea civil nacional. África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Áustria, Cingapura, Colômbia, Egito, Espanha, Finlândia, Índia, México e Nigéria.
GRUPO 3 Estados com representação geográfica no conselho. Camarões, Chile, Coréia do Sul, Etiópia, Gana, Honduras, Hungria, Líbano, Moçambique, Paquistão, Peru, Santa Lúcia e Tunísia.
Fonte: Jornal Correio Braziliense
Fernanda Odilla
Em 30/7/2007.
O Brasil reage apostando na diplomacia para não perder a vaga na elite do transporte aéreo mundial (leia quadro abaixo). O rebaixamento, explica o brigadeiro Renato Cláudio Costa Pereira, ex-secretário geral da Oaci, pode implicar aumento das tarifas internacionais, restrições para se conseguir licença de equipamentos produzidos no país e dificuldade para pousar em outros países e receber vôos de nações com padrões de segurança mais rígidos. `A Oaci não pune, mas faz recomendações que servem de parâmetros para governos e empresas. Estou preocupado`, afirma.
As autoridades brasileiras ligadas ao setor tentam minimizar os impactos do rebaixamento. Mas, desde o início do ano, o Brasil tem se movimentado para não deixar o Grupo 1. Em janeiro, três meses depois da tragédia com o Boeing da Gol, foi escolhido um diplomata para representar o Brasil no conselho da Oaci, cargo em geral ocupado pela Aeronáutica.
Ex-chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, o ministro Vergniaud Elyseu Filho assumiu com a missão de instalar um escritório em Montreal, no Canadá, para atuar na Oaci, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo é atrair apoio de nações que fazem parte da entidade mas não têm força para disputar uma vaga no grupo de elite.
Relatório
Além de contatos diplomáticos, a Aeronáutica preparou relatório expondo as medidas tomadas contra o `apagão aéreo`. No documento, tenta provar que não há motivos para colocar em xeque a confiabilidade do setor. Lembra que o país sempre pertenceu ao Grupo 1, reforça que todos os equipamentos e sistemas usados são de tecnologia similar à do restante do mundo e assegura que os atrasos decorrem da falta de pessoal, devido ao aumento do tráfego aéreo.
Os militares também tentam esclarecer pontos polêmicos como os buracos negros, as interferências nos radares e a situação dos controladores. A campanha para o Brasil ser advertido formalmente na próxima assembléia da Oaci tem apoio velado de associações de controladores de vôo.
Diante do empenho diplomático, representantes brasileiros na Oaci demonstram otimismo. `Não existe nada de concreto relacionado à possibilidade de o Brasil não conseguir se reeleger para o Conselho da Oaci no Grupo 1. Posso até lhe adiantar que já recebemos a confirmação de apoio de vários países`, afirmou o coronel Carlos Alberto Cirilo, representante do Brasil na Oaci.
Apesar de acreditar na reeleição, Cirilo não a dá como certa. Depois de seis anos como secretário-geral da Oaci, o brigadeiro Renato Pereira também não arrisca o resultado da próxima assembléia. `Não sei qual será o futuro do Brasil na Oaci, mas o efeito de um rebaixamento é devastador tanto na economia quanto nas relações internacionais`, observa. As tragédias recentes, bem como a dificuldade de gerenciar a crise, pesam contra o Brasil. `Os acidentes são resultado de uma administração precária e isso será levado em conta`, assegura.
Para o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, o Brasil precisa mostrar que sabe lidar com situações difíceis. `Temos que sair dando exemplo, depois de tudo o que estamos passando`, afirma. Ele lembra que, no ano que vem, o país será inspecionado por técnicos da Oaci e precisa se preparar para não ser reprovado na análise dos técnicos. José Carlos Pereira sabe que advertências podem ser extremamente prejudiciais. `Há países, por exemplo, que já foram proibidos de entrar na Europa por não oferecerem segurança. Não acho que seja o caso do Brasil`, ameniza.
Este ano, a União Européia decidiu banir todas as companhias aéreas da Indonésia de seu espaço aéreo. O presidente da Oaci, Roberto Gonzalez, fez, no início deste mês, visita à fábrica da Garuda para vistoriar os equipamentos. Foi acompanhado pelo presidente da companhia Soenarko Kuntjoro, que garantiu não haver retaliação aos europeus.
Ranking da OACI
Criada em 1944, com o objetivo de regulamentar a aviação civil, a Organização de Aviação Civil Internacional (Oaci) tem ditado as regras para a organização e o desenvolvimento do transporte aéreo no mundo. Atualmente 189 nações compõem a entidade, mas apenas 36 integram o conselho, que dirige os trabalhos e defendem os interesses de quem não faz parte do seleto grupo, dividido em três categorias.
GRUPO 1 Estados com maior importância no transporte aéreo. Têm voto, liderança e chefiam comissões na Oaci. Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia
GRUPO 2 Estados que contribuem para promover instalações e serviços para a navegação aérea civil nacional. África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Áustria, Cingapura, Colômbia, Egito, Espanha, Finlândia, Índia, México e Nigéria.
GRUPO 3 Estados com representação geográfica no conselho. Camarões, Chile, Coréia do Sul, Etiópia, Gana, Honduras, Hungria, Líbano, Moçambique, Paquistão, Peru, Santa Lúcia e Tunísia.
Fonte: Jornal Correio Braziliense
Fernanda Odilla
Em 30/7/2007.