A dose de esperança da Fiocruz

26/03/2008
As mortes por dengue e o sofrimento nas filas de hospitais, que se repetem no Rio de tempos em tempos, estão com os dias contados. Ontem, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciaram que, no máximo em quatro anos, serão criadas vacinas contra os tipos 1, 2, 3 e 4 do vírus da dengue. O chefe do Departamento de Virologia da Fundação Oswaldo Cruz, Hermann Schatzmayr, afirmou que um grupo da Fundação está envolvido nas pesquisas e mostrou-se otimista quanto ao desenvolvimento da vacina.

O processo consiste em usar a vacina da febre amarela com pedaços do vírus da dengue. São vários tipos de vírus e colocar um é mais fácil do que três. Então a idéia é fazer o trabalho com as diferentes linhas e depois juntar tudo, fazendo uma só vacina. Certamente iremos nos associar a outros grupos de fora para desenvolver ainda mais as pesquisas, mas a expectativa é de que o processo ainda dure mais quatro ou cinco anos - disse Hermann.

Ontem, a prefeitura confirmou a 31ª morte, que o JB anuncia desde o sábado. Em dois dias, o número de infectados aumentou 7,7% - de 24.772 para 26.688, ultrapassando o total de casos notificados em 2007.

Em relação ao andamento das pesquisas, Schatzmayr adiantou a que altura estão as descobertas.

Nas nossas pesquisas, a vacina dos tipos 2 e 4 estão adiantadas e os tipos 1 e 3 estão avançando.

Apelo à população

Enquanto a vacina não chega, especialistas alertam que a própria população pode ser responsável pelo não agravamento da doença, seja na busca rápida por atendimento, seja pelo uso adequado dos medicamentos. De acordo com a literatura, a dengue é uma patologia benigna e, por isso, aceitar que pessoas infectadas pelo mosquito Aedes aegypti estejam morrendo em pleno século XXI é inaceitável.

Se a doença for bem monitorada, o percentual de morte pode ser menor do que 1%. Familiares e médicos têm que ficar atentos na febre das primeiras 24 horas e no desaparecimento dela de três a cinco dias depois, essas são as fases de complicação da doença- declarou a infectologista da Fiocruz, Patrícia Brasil. - Em relação ao uso do paracetamol nas crianças, é preciso uma observação sobre a dose, que não pode ser usado indiscriminado.

Para alguns pesquisadores, a falta de adesão do município ao programa de Saúde de Família pode ser visto como um dos principais motivos para a epidemia na cidade. De acordo com o médico clínico e infectologista da Fiocruz, Antonio Sérgio da Fonseca, enquanto o programa abrange uma média de 80% do país, no Rio a cobertura é de apenas 8%. Especialistas acreditam que seu grande diferencial é o acompanhamento bem organizado dos pacientes. Para eles, a falta de continuidade na assistência ao doente durante o processo é um grande problema. Em relação a um possível fim da epidemia, o epidemiologista Paulo Sabroza, da Comissão Nacional de Combate à Dengue, arrisca uma data.

De acordo com experiências de trabalhos anteriores, o número de casos ainda deve aumentar até o dia 20 de abril. Depois disso, por causa do clima, os casos começam a diminuir. No entanto, é preciso atenção, já que após a epidemia na metrópole, é comum acontecer a interiorização da doença, principalmente no Norte.

Sem querer alardear a população, Paulo alerta para uma nova onda da doença.

O vírus quatro já entrou no Brasil mais de uma vez e foi contido. Ainda é impossível dizer quando, mas é certo que ele vai entrar novamente.

Repórter: Janaína Linhares

Fonte: Jornal do Brasil

26/3/2008.