`"O Brasil não é a nova Arábia`"

22/04/2008
Em 2004, o geólogo Marcio Rocha Mello foi dos primeiros a falar com empolgação das possibilidades de se encontrar no litoral brasileiro petróleo sob a grossa camada de sal nas profundezas do Oceano Atlântico. `Eu era chamado de louco`, diz Mello, que deixou a Petrobras em 2000, depois de 30 anos de serviço. Hoje, ele é dono da HRT Petroleum, um grupo de oito empresas prestadoras de serviço no ramo petrolífero.

ÉPOCA - As reservas do pré-sal vão tornar o Brasil uma nova potência petrolífera?

Marcio Mello - As reservas existem, mas não vamos nos tornar um Oriente Médio ou uma Rússia. Falam-se em 70 bilhões de barris de reserva, ou metade de uma Nigéria. É preciso ter dinheiro e capacidade tecnológica para produzir isso. Nenhuma companhia sozinha dará conta. Nem a Petrobras, nosso orgulho e tal, pode fazer sozinha. A chance de encontrar é uma, a de produzir é outra e é altíssima. Tem de saber se o custo vale a pena.

ÉPOCA - O preço atual do petróleo, na casa dos US$ 110 o barril, não torna viável a exploração?

Mello - Quando o petróleo estava a US$ 22, eu dizia que chegaria a US$ 100. Agora digo que baterá nos US$ 200 no fim de 2009. O petróleo hoje é mais barato que água mineral. Ainda não atingiu o valor dele. E vai atingir por dois motivos: não existe outra fonte energética hoje capaz de substituí-lo e a maior parte dessa energia está em países que pararam na Idade Média.

ÉPOCA - Quanto tempo levaremos até ver o petróleo sair da camada pré-sal?

Mello - A maneira de tirar isso lá debaixo é montar uma megaequipe para atacar o problema. Foi o que a Petrobras fez quando encontrou as primeiras reservas em águas ultraprofundas e se viu sem tecnologia. Mobilizou uma equipe enorme para desenvolver tecnologia e conseguiu. Agora, já criaram uma gerência executiva do pré-sal. Tem de ser prioridade. Ainda estamos na fase da euforia dos descobrimentos. É fundamental passar à fase do grande esforço.

ÉPOCA - Foi acertada a decisão do governo de retirar de licitação os 41 blocos localizados no pré-sal?

Mello - Foi válida. Estávamos diante de um produto que passou a valer mais. Era preciso estabelecer novas regras, mas respeitando o mercado.

ÉPOCA - O que acha do monopólio estatal na exploração do petróleo? Mello - Monopólio é a coisa mais atrasada do planeta. Nos dias atuais, seria regredir 500 anos. O que ainda existe de monopólio no Brasil deveria ser passado à iniciativa privada, porque é sinônimo de ineficiência e corrupção.

Entrevista com Marcio Mello

Fonte: Época num. 0518

21/4/2008.