MEGACAMPO DE TUPI ELEVA DEMANDA GLOBAL POR EQUIPAMENTOS

21/05/2008
Pancada estrondosa, trovão ou `pai supremo`. Qualquer um dos significados etimológicos da palavra tupi registra com precisão o impacto, para o país, da gigantesca reserva de petróleo e gás descoberta pela Petrobras na Bacia de Santos e revelada no ano passado. A exploração do megacampo de Tupi e seus irmãos Júpiter, Carioca, Parati, Caramba e Bem-te-vi, só para citar alguns, vai exigir aumento da capacidade instalada dos fabricantes de dutos, sondas de perfuração e plataformas, entre outros equipamentos, e também já detonou um processo de desenvolvimento de novas tecnologias entre a Petrobras e seus fornecedores.

A indústria de equipamentos para a exploração de petróleo e gás opera no limite da capacidade - no Brasil e no mundo - e projetos de ampliação já estão em curso, mas serão insuficientes para atender à demanda que virá, ainda que ninguém saiba o tamanho exato das reservas existentes na camada pré-sal.

José Formigli, gerente-executivo do pré-sal da Petrobras, adianta que, nas próximas semanas, a empresa vai divulgar um primeiro levantamento de suas necessidades de aço, chapas, sondas e outros equipamentos que serão necessários para o teste e o projeto-piloto de desenvolvimento da produção de Tupi. Para colocar em produção os novos campos da Petrobras serão necessárias plataformas, dutos, árvores de natal (conjunto de válvulas que regula a produção em poços submarinos) e outros equipamentos, que vão permitir elevar a atual capacidade do país em um horizonte ainda não-delineado. Em relatório recente, o banco UBS ressalta que as descobertas da Petrobras na Bacia de Santos `vão provocar um dramático efeito sobre a demanda global de serviços de petróleo de todos os tipos`.

O título de outro relatório - este do Credit Suisse - também é um bom indicativo dos efeitos das descobertas no pré-sal sobre a indústria: `Escassez de perfuradoras para águas profundas: a culpa é do Rio.` A Petrobras arrendou quase 80% dos navios-sonda com capacidade de perfurar águas profundas disponíveis no mercado mundial, já contratou mais dez sondas de perfuração que chegam entre 2009 e 2011 e vai colocar 24 barcos de apoio exclusivos para Tupi.

Ontem, em nota, a estatal informou que em reunião na noite de segunda-feira com o governo federal, entidades empresariais e representantes da indústria nacional, `informou a intenção de contratar 40 navios-sonda e plataformas de perfuração semi-submersíveis para operar em águas profundas e ultra-profundas. O plano prevê a construção e o recebimento das novas unidades até 2017, com prioridade de construção no Brasil.`

As demandas da Petrobras vão afetar em maior ou menor escala as empresas que dispõem hoje de tecnologia para explorar a área do pré-sal. Não por acaso, os bancos já fazem um levantamento dos fornecedores de equipamentos e serviços para esta produção para estimar o potencial de valorização das ações dessas empresas. Enquanto isso, os fabricantes aguardam definições da Petrobras para calcular as novas encomendas.

A Organização Nacional da Indústria de Petróleo (Onip) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aguardam mais definições da Petrobras para levantar as necessidade de suprimento e financiamento do país, explica o presidente da Onip, Elói Fernandez. `Temos um forte parque industrial já instalado. Os principais fornecedores estão no país. Vejo a possibilidade de o Brasil consolidar seu conhecimento tecnológico para obter ganhos de competitividade em escala internacional`, diz ele.

No relatório sobre o impacto do pré-sal sobre a indústria de equipamentos e serviços, o banco UBS calculou que serão necessários US$ 600 bilhões para produzir 50 bilhões de barris de petróleo e gás nos campos já descobertos na Bacia de Santos ao longo de toda vida útil desses reservatórios, que pode ser de 30 anos ou mais. São mencionados especificamente Tupi, Júpiter e os quatro em cima da formação Iguaçu (ou Pão de Açúcar), onde estão os campos Carioca, Caramba e Bem-te-vi e o bloco 22 operado pela Exxon. O relatório toma como base a estimativa de reservas para a área, ainda não confirmadas, e tenta calcular o número de poços que precisam ser perfurados, assim como o custo atual dos equipamentos para produção. Mesmo sendo um número arbitrário, é uma boa indicação do potencial da área e do esforço necessário para colocar esse petróleo em terra. Para se ter idéia, desde sua criação, em 1954, até 2007, a Petrobras investiu US$ 222 bilhões e o investimento atingiu dois dígitos pela primeira vez em 2005, quando foram investidos US$ 11,2 bilhões. Em 2007, o número saltou para US$ 23 bilhões.

Um resumo do atual humor nesse mercado é dado pelo presidente da Schulz no Brasil, Marcelo Bueno. `Os nossos cenários mais otimistas não previram esse ciclo de investimentos que estamos vendo. Eu diria que nos mercados que temos acompanhado hoje, e mesmo que alguma turbulência nos faça engavetar novos projetos, apenas os que estão em andamento ou contratados garantem nossa demanda pelos próximos cinco ou seis anos. E isso para 100% da nova produção`, explica Bueno.

O Brasil responde por 20% da capacidade instalada da Schulz e no fim desse ciclo de investimentos o país passará a responder por 60% da produção e 40% da receita, que foi de ? 180 milhões de euros em 2007. A segunda unidade da Schulz, instalada em Campos, entra em operação em junho e a terceira, para tubos especiais (bimetálicos) estará pronta em 2009, quando o Brasil passa a ser majoritário nos investimentos do grupo alemão.

Com tantas boas perspectivas - em meio a fatos e boatos que às vezes são empacotados juntos -, as definições da Petrobras são aguardadas com ansiedade no mercado.

Repórter: Cláudia Schüffner

Fonte: Valor Econômico

21/5/2008.