Saúde ganha importância na pobre Conceição do Jacuípe

01/09/2008
É uma quarta-feira chuvosa em Conceição do Jacuípe. Logo que a chuva dá uma trégua, Anita de Jesus chega ao posto médico do bairro do Picado, a três quilômetros do centro da pequena cidade do interior da Bahia. Com ela estão quatro de seus sete filhos. Sérgio, Naiane e Tauane logo entram no consultório. A enfermeira faz o exame de rotina e, no fim, pesa e mede cada criança. A outra filha que acompanha Anita é a mais velha, tem 16 anos, e não está mais na idade de passar por essa checagem, exigida de todas as crianças cuja família receba o Bolsa Família. Mas ela carrega o filho, de um ano, e aproveita para ver se está tudo bem com o menino. Faça chuva ou faça sol, essa rotina é cumprida pela família todos os meses, há pelo menos três anos, quando Anita passou a receber o auxílio do governo federal. Seus filhos são magros, mas estão saudáveis, então não há com o que se preocupar. `Eu também sou mais seca, é de família`, diz. A mesma disciplina é aplicada à educação. Anita conta que seus filhos estão todos na escola e não costumam faltar.

Ela não quer nem imaginar o que faria sem os R$ 122 que o Bolsa Família lhe garante todo mês. Catando ervas daninhas nas hortas da região, Anita recebe R$ 120 mensais. Se trabalhar mais horas por dia, o que é difícil, já que sua filha mais nova tem menos de dois anos, chega a tirar R$ 160. O marido, ajudante de pedreiro, nem sempre tem trabalho. `Quando consegue obra boa, ele ganha uns R$ 400. Mas tem vezes que é obra pequena, de gente simples, aí é pouca coisa que eles pagam`, diz.

No posto do Picado, as paredes recém-pintadas de branco são decoradas com adesivos coloridos em forma de borboletas, corações e nuvens. Os azulejos brilham e o chão é impecavelmente limpo. Além da enfermeira que atende os filhos de Anita, há também a médica Daniela Reis, uma faxineira e mais uma ajudante de enfermagem. São poucas pessoas para dar conta de todos os pacientes. Anita já havia ido há uma semana ao posto com as crianças, mas, quando chegou, lhe disseram que não tinha ninguém para atendê-las.

`Temos muitos gargalos, principalmente na parte cirúrgica, mas desde que o Programa de Saúde da Família foi implementado, temos conseguido melhorar a prevenção e reduzir a necessidade de atendimentos mais complexos`, explica Benedito Amorim, secretário de Saúde.

A família de Anita é uma das 3 mil de Conceição de Jacuípe que recebem o benefício do Bolsa Família e frequëntam regularmente os postos de saúde. O município tem se esforçado para verificar quais crianças não vão à aula, checar se todas estão sendo vacinadas e examinadas regularmente e, ainda, manter o cadastro das famílias atualizado.

Assim como no posto de saúde do Picado, o movimento na sede da Secretaria de Ação Social é grande. A cada cinco minutos alguém bate na porta de Ruben Antonio Rivas, assessor técnico da pasta. Rivas é simpático com todos, mas impõe limites: `Estou ocupado. Já te chamo`, diz para uma moça que escancara a porta da sala. Ele explica que as demandas são muitas e vários casos podem ser resolvidos pelas atendentes do setor.

É com esse jeito atencioso e sério que o administrador de empresas nascido em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, e vizinha a Conceição do Jacuípe, tem conseguido colocar ordem na casa. Todas as crianças das famílias que recebem o benefício estão sendo acompanhadas nos postos médicos. A secretaria tem informações sobre a freqüência escolar de 95% delas.

O resultado do esforço é uma boa avaliação pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e mais dinheiro para a secretaria. Como tem atingido quase a nota máxima no Índice de Gestão Descentralizada (IGD), a cidade recebe em torno de R$ 7,4 mil por mês.

Parece um valor irrisório, mas para uma cidade na qual a Secretaria de Saúde conta com um orçamento anual de R$ 3,6 milhões, isso é significativo. Como a prefeitura só quitou suas dívidas com o INSS e outros órgãos federais neste ano, o dinheiro do ministério começou a chegar apenas em maio.

Embora hoje desempenhe também um papel de assistente social, Rivas usa seu conhecimento sobre gestão e a experiência de quatro anos no setor privado para aproveitar ao máximo essa quantia.

No cargo há menos de um ano, o assessor já conseguiu comprar um carro popular com quatro portas e ar-condicionado para a secretaria. É com ele que os funcionários visitam as escolas duas vezes por ano para explicar às mães a importância de terem em dia os atestados de freqüência escolar dos filhos, de vacinação e realização do pré-natal. Também vão à zona rural fazer o mesmo trabalho. `Não há nada que as pessoas não possam entender. Basta ter paciência e ser didático. Quem diz que não adianta explicar, porque pobre não entende, está falando bobagem`, afirma Rivas.

Outra novidade foi a contratação de uma nutricionista para atender as crianças beneficiárias do Bolsa Família. O serviço é oferecido pela Secretaria da Saúde, mas como a demanda é grande optou-se por ter uma profissional só para elas.

A casa que abriga as secretarias de Ação Social e de Educação também está sendo reformada com os R$ 7,4 mil mensais. Algumas salas estão recém-pintadas. Há computadores e móveis de escritório novos. A fila de espera para o recadastramento ou para tirar dúvidas é grande, mas a maior parte das mães pode esperar em cadeiras confortáveis. Chá, água e café ficam numa mesinha ao lado.

Conceição do Jacuípe tem uma economia pouco desenvolvida. Pelos dados do IBGE, em 2005 o PIB per capita foi de R$ 5,63 mil. Serra Negra, cidade do interior de São Paulo que, assim como o município baiano, tem cerca de 30 mil habitantes, mostrou PIB per capita de R$ 8,4 mil no mesmo ano. A média do Brasil era de R$ 11,7 mil.

Por isso, Rivas acredita que o investimento deve ir além da melhora na infra-estrutura da secretaria. Boa parte da população de Conceição de Jacuípe, especialmente as mulheres, não tem onde trabalhar. Muitas vivem da plantação de hortaliças, cultura introduzida pelos japoneses no início dos anos 90. `Com parte do dinheiro organizo cursos de capacitação profissional, mas nada de artesanato com garrafa pet. Ninguém compra.`

Por enquanto, já houve curso de bijuterias e secretariado. A duração deles é de 15 dias e os professores são os mesmos que dão aula no Senai. A idéia é que essas pessoas consigam aumentar a renda e não precisem mais receber o Bolsa Família.

Repórter: Raquel Salgado

Fonte: Valor Econômico

1/9/2008.