27/02/2008
O presidente Lula desembarcou em Buenos Aires na noite da quinta-feira 21 e seguiu direto para a residência oficial da Quinta de Olivos. Ali, encontrou a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e seu marido, Néstor, para um jantar informal. No cardápio, o roteiro da reunião que teriam com o colega boliviano Evo Morales, dois dias depois, para tratar da crise energética provocada pela nacionalização decretada pelo governo cocaleiro, em 2006. Passados dois anos, os efeitos já previsíveis do ato populista começam a afetar toda a América do Sul. A Petrobras teve de racionalizar a sua distribuiçãode gás, afetando o setor produtivo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Consumidores foram desestimulados a usar o gás natural e indústrias, obrigadas a gastar mais comprando energia das termelétricas. Na Argentina, a população se prepara para o segundo inverno de racionamento. `Por causa de políticas populistas e da falta de planejamento dos recursos minerais, a América do Sul está diante do pior cenário já visto na área energética`, avalia Daniel Montamat, ex-secretário de Energia da Argentina e analista do setor. Será que já está na hora de Lula, Cristina e Evo Morales rezarem pelo mesmo terço?
Hoje, o clima entre os três países não é dos mais amistosos. O encontro entre Lula e Cristina, a princípio, seria o primeiro do Mecanismo de Integração e Cooperação Bilateral Brasil-Argentina, um pomposo nome que a diplomacia dos dois países encontrou para promover quatro encontros anuais entre os chefes de Estado. Para matar dois coelhos com uma cajadada só, foi idéia de Cristina Kirchner convidar para o encontro Evo Morales, na tentativa de pressionar Lula a aceitar uma proposta do governo boliviano. Há duas semanas, o vice de Evo, Álvaro García Linera, esteve em Brasília e sugeriu que o Brasil abrisse mão de parte de seu gás para ajudar a Argentina. Dos contratos para o fornecimento de até 30 milhões de metros cúbicos diários ao Brasil e de 7,7 milhões à Argentina, a Bolívia só fornece cerca de 27 milhões metros cúbicos ao Brasil e três milhões à Argentina. `Ajudaremos, desde que não crie uma crise no Brasil`, disse o chanceler Celso Amorim. A mesma recusa foi levada por Lula a Buenos Aires. O presidente, no entanto, se comprometeu a assinar o tratado para a construção da hidrelétrica de Garabi, com capacidade para 2,8 milhões de megawatts. Mas Cristina não se deu por satisfeita.
LULA, MORALES E CRISTINA: risco de crise energética assusta presidentes do Brasil, da Bolívia e da Argentina O problema é que a Argentina tem pressa e o pacote de redução do consumo de energia, anunciado por Cristina, ainda não surtiu efeito. Contribuiu para o cenário a decisão, do governo de Néstor Kirchner, de privilegiar o abastecimento residencial em detrimento da indústria, o que afastou investimentos em projetos para o aumento da produção doméstica de gás. Com isso, o consumo atingiu níveis recordes em janeiro deste ano, alcançando um patamar 5% superior ao do ano passado. O quadro causou um efeito cascata na região. No Uruguai, onde 60% das térmicas são abastecidas pelo gás argentino, a indústria trocou o combustível pelo óleo diesel. No Chile, que importa todo o seu gás dos portenhos, o PIB deve ter uma redução de 0,5% a 1% neste ano. Quem está se dando bem nesse jogo é Hugo Chávez. Com sua PDVSA, a Venezuela oferece toda a gama de combustível a preços subsidiados, atraindo a região para seu escopo. Com vizinhos como esses, só resta a Lula rezar.
Repórter: GUSTAVO GANTOIS
Fonte: Isto é Dinheiro num. 0543
Em 25/02/2008.
Hoje, o clima entre os três países não é dos mais amistosos. O encontro entre Lula e Cristina, a princípio, seria o primeiro do Mecanismo de Integração e Cooperação Bilateral Brasil-Argentina, um pomposo nome que a diplomacia dos dois países encontrou para promover quatro encontros anuais entre os chefes de Estado. Para matar dois coelhos com uma cajadada só, foi idéia de Cristina Kirchner convidar para o encontro Evo Morales, na tentativa de pressionar Lula a aceitar uma proposta do governo boliviano. Há duas semanas, o vice de Evo, Álvaro García Linera, esteve em Brasília e sugeriu que o Brasil abrisse mão de parte de seu gás para ajudar a Argentina. Dos contratos para o fornecimento de até 30 milhões de metros cúbicos diários ao Brasil e de 7,7 milhões à Argentina, a Bolívia só fornece cerca de 27 milhões metros cúbicos ao Brasil e três milhões à Argentina. `Ajudaremos, desde que não crie uma crise no Brasil`, disse o chanceler Celso Amorim. A mesma recusa foi levada por Lula a Buenos Aires. O presidente, no entanto, se comprometeu a assinar o tratado para a construção da hidrelétrica de Garabi, com capacidade para 2,8 milhões de megawatts. Mas Cristina não se deu por satisfeita.
LULA, MORALES E CRISTINA: risco de crise energética assusta presidentes do Brasil, da Bolívia e da Argentina O problema é que a Argentina tem pressa e o pacote de redução do consumo de energia, anunciado por Cristina, ainda não surtiu efeito. Contribuiu para o cenário a decisão, do governo de Néstor Kirchner, de privilegiar o abastecimento residencial em detrimento da indústria, o que afastou investimentos em projetos para o aumento da produção doméstica de gás. Com isso, o consumo atingiu níveis recordes em janeiro deste ano, alcançando um patamar 5% superior ao do ano passado. O quadro causou um efeito cascata na região. No Uruguai, onde 60% das térmicas são abastecidas pelo gás argentino, a indústria trocou o combustível pelo óleo diesel. No Chile, que importa todo o seu gás dos portenhos, o PIB deve ter uma redução de 0,5% a 1% neste ano. Quem está se dando bem nesse jogo é Hugo Chávez. Com sua PDVSA, a Venezuela oferece toda a gama de combustível a preços subsidiados, atraindo a região para seu escopo. Com vizinhos como esses, só resta a Lula rezar.
Repórter: GUSTAVO GANTOIS
Fonte: Isto é Dinheiro num. 0543
Em 25/02/2008.