DESAQUECIMENTO E CHUVAS DERRUBAM PREÇO DA ENERGIA

11/12/2008
A conta de oferta e consumo de energia em 2009 corria um sério risco de não fechar, criando problemas para suportar um crescimento do PIB como o registrado neste ano. Mas as chuvas e a crise financeira acabaram por ajudar o governo federal nesse balanço e é o mercado livre que começa a dar os sinais concretos da recuperação da oferta para o próximo ano. O déficit de 500 megawatts (MW) previsto no plano do governo começa a se reverter e a fila de compradores de energia no mercado livre transformou-se numa fila de vendedores. O resultado é que em dois meses o preço caiu pelo menos 15%, ficando em torno de R$ 120,00 o MW/h.

O efeito é um reflexo da perspectiva da indústria de uma menor atividade em função da crise e consumidores livres, que já estavam contratados, começam a tentar vender parte de sua energia. Os setores automobilístico, metalúrgico e siderúrgico foram os que iniciaram esse movimento. Alguns clientes desses setores da comercializadora da CPFL Energia, por exemplo, uma das maiores do país, já reduziram os contratos em 30% e até 40%, segundo o vice-presidente da companhia, Paulo Cezar Coelho Tavares.

Esse movimento tem sido observado atentamente pela Tractebel e, em função disso, a empresa decidiu que não vai mais renegociar com as distribuidoras um déficit de 300 MW, ou 10% de sua energia assegurada, que foi causado pela descontratação com a Cien. O presidente da Tractebel, Manoel Zaroni, diz que e virtude da queda do consumo para o próximo ano será possível que ela mesma gere essa diferença, sem precisar reduzir os contratos com as distribuidoras.

O presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Ricardo Lima, diz que a previsão anterior para o próximo ano era de que os consumidores livres estariam descontratados em até 2.000 MW, ou seja, teriam que comprar esse montante para se adequar. E se não havia como comprar essa energia, esses consumidores ficam expostos ao chamado Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), uma espécie de mercado à vista em que o preço é altamente influenciado pela vazão das chuvas . `Agora não sabemos mais sequer se há essa demanda.`.

As comercializadoras de energia ouvidas pelo Valor foram unânimes em dizer que até o início da crise não havia oferta de energia para 2009. `Nossa fila de compradores transformou-se agora em uma fila de vendedores e não há para quem vender`, diz o diretor da Enertrade, empresa da EDP Energias do Brasil, Renato Volponi. Os clientes do setor de mineração e automotivo da Enertrade reduziram entre 15% e 20% seus contratos. O coro de que alguns setores de fato tem reduzido o consumo é repetido pelas comercializadoras da Cemig, AES, CPFL, Delta Energia, Comerc e Tradener. Um balanço feito pela Comerc, com um volume de 700 MW médios de energia, de 16 setores acompanhados, 13 apresentaram redução de consumo entre outubro e novembro.

Mas o diretor-sócio da Tradener, Walfrido Ávila, diz que, mesmo com a oferta de energia que começa a surgir e que torna o balanço energético do ano de 2009 mais confortável, o problema não está totalmente resolvido. Isso porque, segundo ele, as distribuidoras estão consumindo mais do que a energia assegurada do país. Isso também desequilibra o balanço de oferta e demanda. Além disso, ele é um dos poucos que, apesar do novo momento, diz que ainda está difícil comprar energia. E parece existir uma demanda reprimida por pequenos lotes de energia. A Delta Energia fez na semana passada um leilão de 20 MW e teve 20 lances de compra, segundo Matheus Andrade, da Delta Energia.

O mercado livre é gerenciado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), onde os contratos precisam ser registrados, mas os negócios são fechados bilateralmente e por isso não há uma curva de preço oficial negociado no mercado livre. Só é possível se chegar aos preços pelo que dizem as comercializadoras. Paulo Cezar Tavares, da CPFL, diz, por exemplo, que praticamente não há compradores de energia a ser entregue no próximo ano e isso fez o preço cair a R$ 120,00 o MW/h. Mas ele lembra que essa queda não se deve somente à crise, mas também às condições hidrológicas. `No ano passado, nessa mesma época do ano, vivíamos o estresse de preço`, diz Tavares.

Em dezembro do ano passado, sem chuvas, os contratos chegaram a ser fechados em R$ 250,00. Em janeiro a situação se agravou mais ainda e alguns clientes da comercializadora da AES chegaram a fechar contratos para o ano por R$ 300,00 o MW/h. O preço em seguida caiu para uma faixa de R$ 220,00 e foi reduzindo aos poucos, segundo o diretor de comercialização do grupo AES no Brasil, Ricardo Cunha. `O preço caiu de R$ 5 em R$ 5`, diz Cunha. Neste mês, cerca de 5% da energia dos clientes do setor automotivo da AES estão sendo revendidas. Boa parte está sendo absorvida pelos shopping centers que consomem mais nesta época do ano, e fazem contratos de curtíssimo prazo.

Apesar de alguns negócios já estarem sendo fechados na faixa dos R$ 120,00, ainda há oferta por R$ 130,00 e até R$ 140,00, a depender do prazo. Os preços podem cair mais se a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão do governo federal, reduzir a estimativa de crescimento do consumo para o próximo ano. Andrade, da Delta Energia, explica que o balanço de oferta influencia nos cálculo do PLD, que de certa forma baliza os preços da energia vendida no curto prazo. A EPE já prevê uma demanda pelo menos cerca de 150 MW menor para o próximo ano, mas o percentual de queda do crescimento, nas estimativas da EPE, saíram de 5,8% para 5,2%, o que é considerado muito pouco.

O governo também vai precisar preparar-se para 2010, isso porque a energia para aquele período não teve queda de preço, o que mostra que as indústrias estão confiantes de que apenas o próximo ano seja afetado pela crise. `Nossa expectativa é de que já no segundo semestre a economia se acelere novamente`, diz Tavares, da CPFL.

Autor(es): Josette Goular

Valor Econômico

11/12/2008.