Demanda no NE supera capacidade das teles

18/08/2010
O mercado brasileiro de telefonia móvel cresceu 145% nos últimos cinco anos, ultrapassando em junho o volume de 185 milhões de acessos. No mesmo período, o Nordeste registrou expansão bem maior, de 227%, com seus nove Estados presentes na lista dos dez mais pujantes do país. A forte demanda por serviços de telecomunicações na região pressiona agora o segmento de banda larga, revelando dificuldades das operadoras em atender às necessidades locais.

Puxada pelos pré-pagos, a enxurrada de celulares que chega ao Nordeste vem derrubando sensivelmente a relação entre linhas fixas e móveis na região. Números da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que, em junho último, o Nordeste tinha 6,7 celulares para cada telefone fixo, ante uma média nacional de 4,24. Com menos linhas fixas, a demanda por banda larga de uso doméstico acaba se deslocando para as operadoras móveis, cujos serviços de terceira geração (3G) não estão preparados para atender ao volume de tráfego desejado.

Maior operadora fixa na região, a Oi garante estar investindo na ampliação da capacidade de sua banda larga. A empresa, porém, admite que a indisponibilidade do serviço em algumas áreas se reflete, inevitavelmente, em perda de vendas. `Não existe tanta demanda assim por 3G. O que existe é demanda reprimida por banda larga`, argumenta a diretora de marketing da Oi, Flávia Bittencourt. Segundo ela, muitos clientes preteridos pelo serviço fixo acabam buscando a 3G como alternativa.

Disposta a conseguir uma boa fatia desse mercado, a GVT chegou a Pernambuco em setembro do ano passado oferecendo banda larga fixa de alta performance. Após uma estreia bem-sucedida, a empresa enfrenta agora dificuldades para atender a todos os pedidos de linhas, o que tem deixado aborrecidos os candidatos a cliente. Em alguns bairros do Recife, atendidos pela operadora, a espera já dura mais de dois meses.

Após garantir que a indisponibilidade é momentânea, o vice-presidente de marketing e vendas da GVT, Alcides Troller Pinto, revelou que a demanda em Pernambuco superou em 50% o volume que a operadora imaginava. Por esse motivo, a empresa antecipou para novembro de 2009 um investimento de R$ 30 milhões em ampliação de cobertura e capacidade que estava previsto somente para março de 2010.

O executivo revelou que a experiência em Pernambuco serviu de lição para ser levada a outras três cidades importantes da região, onde a GVT ingressou em abril: Fortaleza (CE), João Pessoa (PB) e Campina Grande (PB). `Nesses municípios a demanda está tão forte quanto no Recife, mas nós já deixamos uma segunda fase estruturada, para não ocorrer esses solavancos`, disse Troller Pinto.

Apesar do crescimento acelerado nos últimos anos, o Nordeste ainda registra o menor número de celulares por habitante do país. Dados da Anatel, também referentes a junho, mostram que havia 77,7 linhas móveis para cada cem habitantes na região, número um pouco inferior ao do Norte, com 77,9. Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste já existem mais celulares do que pessoas.

Devido ao seu potencial de expansão, o mercado do Nordeste é tido como `estratégico` e `prioritário` pelas operadoras. Claro, Vivo e TIM garantem estar investindo pesado em ampliação da cobertura na região, sobretudo em 3G. No entanto, somente a TIM revelou o montante previsto para o Nordeste em 2010: R$ 300 milhões. O valor exclui os Estados da Bahia, Sergipe e Maranhão que, segundo critérios do Plano Geral de Outorgas (PGO), não pertencem ao Nordeste. O conjunto dos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Ceará forma a chamada Área 10.

O gerente-executivo de Consumo da TIM para o Nordeste, Eduardo Valdez, explica que a estratégia da operadora para banda larga está focada nos clientes com perfil de navegação mais leve, como acesso a e-mail e redes sociais. Segundo ele, a TIM ainda está atrás dos concorrentes no que tange à cobertura 3G na região, o que implica em uma prioridade às áreas consideradas mais rentáveis.

`Queremos ampliar a oferta de 3G, mas com qualidade. Temos indicações de áreas que podemos vender e outras que não. Temos que ser coerentes em saber onde a rede está bem e onde não está`, afirmou o executivo. No ano passado, a empresa aumentou a cobertura 3G na Área 10, passando a atender 38 municípios que abrigam 50% da população urbana.

A Claro, que também informou ter grandes investimentos no Nordeste, vem trabalhando na orientação dos clientes sobre o uso da banda larga. O diretor da operadora na região, Albino Serra, explicou que o objetivo é adequar as necessidades dos clientes ao plano que será oferecido. `Conectando um modem 3G em uma porta USB, você não conseguirá uma grande velocidade`, explica o executivo, que costuma chamar o Nordeste de `a China do Brasil`.

Segundo Serra, a tendência é que boa parte do tráfego de dados da rede 3G seja direcionado para a navegação via smartphone e menos por meio de modem conectado a um notebook. `Quando faço viagens curtas, já opto pelo celular ao invés de carregar o computador`, conta Serra. Ele garante, no entanto, que a Claro também está fazendo os `investimentos necessários` para a ampliação do serviço via modem. Atualmente, operadora oferece os serviços 3G a 28 municípios da região, que contemplam 39% da população da Área 10.

Mais recente no Nordeste, a direção da Vivo se diz pronta para absorver toda a demanda reprimida da região. Seu vice-presidente de operações, Paulo César Teixeira, comemora o crescimento do serviço de internet móvel e diz apostar na maior cobertura 3G para ganhar mercado. Quarta operadora do Nordeste, onde só passou a atuar plenamente em outubro de 2008, a Vivo atende hoje a 241 municípios da Área 10, que representam 54% da população.

Procurada pelo Valor, a Anatel informou que ainda não dispõe de um mapa completo da cobertura 3G no país. Por meio de sua assessoria de imprensa, a autarquia informou que o material está em fase de elaboração.

Autor(es): Murillo Camarotto, do Recife

Valor Econômico - 18/08/2010.