Quero ser julgado pela minha 1ª administração

14/05/2007
Pragmatismo é como pode ser definida a decisão do prefeito de deixar o PDT para se filiar ao PMDB. Ele acredita que vestindo a camisa do partido do ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima e de outros membros do primeiro escalão do Palácio do Planalto poderá abrir a porta do cofre do governo federal em benefício da cidade de Salvador. E já faz planos para a inauguração de várias obras nos seus últimos dois anos de mandato, turbinando-os para a campanha da reeleição. Nessa entrevista ao repórter BIAGGIO TALENTO, João Henrique explica porque trocou de partido.

A TARDE | Por que o senhor decidiu se filiar ao PMDB?

JOÃO HENRIQUE CARNEIRO | Bem, o PMDB é um partido de centro-esquerda. Eu creio que muito próximo do PDT que também é de centro-esquerda. O PMDB nos fez o convite, reiteradas vezes, sem exigências, sem condições e precisava de uma visibilidade maior em Salvador, apesar de ter uma excelente visibilidade na Bahia e no Brasil. Como ele vive um momento nacional excepcional, com uma unidade interna jamais vista na história do PMDB, isso também na Bahia - é um partido de unidade - nada mais natural do que eu colaborar com este momento que o PMDB vive, pois só faltava ter um pouco mais de visibilidade na capital. Julguei necessário estar filiado em um partido mais forte e de estrutura.

AT| Mas o senhor acha que vai estar junto ao PT em 2008?

JHC | Eu acho que se nós quisermos continuar (e devemos) a atender a essa expectativa de mudanças, princípios, métodos e valores na política baiana e soteropolitana - que a população tanto deseja e manifestou de forma esmagadora nas duas últimas eleições 2004 e 2006 -, se a população nos trouxe até aqui, eu creio que nós não temos o direito de trair essa população. Chegou o momento de todos esses valores que defendemos décadas e décadas, se encontraram com o desejo da população da Bahia. Creio que essa fase ainda está em curso. O povo sabe que as transformações não são feitas da noite para o dia. Acredito que o horizonte para 2008, ainda, é nessa mesma estrada. O povo quer consolidar novos modelos de gestão política e administrativa para a nossa cidade e nosso Estado.

AT | O senhor tem a capacidade de unir forças, como ocorreu na eleição passada quando seu vice foi do PSDB. Em 2008 o vice será do PT, já que ocorreu essa cisão?

JHC | Isso o tempo vai nos dizer. A política é muito dinâmica. Agora, o que há hoje, inegavelmente, é uma forte aliança no plano nacional, estadual e municipal entre PMDB e PT. Uma forte aliança de compromissos, propósitos e metas a serem atingidos durante a gestão.

AT | E o PDT continua na aliança...

JHC | Sem dúvida. É um partido que me abrigou por 14 anos, que tenho laços emocionais muito fortes e amigos de lutas e batalhas campais. Sempre me abrigou nos momentos em que precisei brigar judicialmente ou no movimento social organizado. É um partido que eu não abro mão que continue como meu parceiro, pois ele faz parte da minha ainda pequena história política.

AT | Então, o senhor vai manter a liderança do bloco governista com o vereador Gilberto José do PDT?

JHC | Sim, já acertei com ele. Não pretendo de forma alguma me afastar do PDT, ainda que me filiando ao PMDB. É uma questão de estimação, de consideração.

AT | O senhor falou que os partidos não têm o direito de desfazer a aliança das antigas oposições. Acha que também o senhor não tem o direito de não disputar a reeleição?

JHC | Exatamente. Não tenho o direito de negar a população de Salvador o julgamento dos meus quatro anos. Se você não põe seus quatro anos em julgamento, de uma forma ou de outra, bem ou mal interpretado, vai transparecer para a população que você está fugindo de um julgamento. Então, assim como outros prefeitos de Salvador que ficaram quatro ou oito anos, foram julgados, eu acho que não posso tirar essa oportunidade de julgar o meu mandato que até aqui só tem dois anos e poucos meses: o melhor ainda está por vir. Por exemplo, a reinauguração da travessia Plataforma/Ribeira foi o pleito número 1 do orçamento participativo de Salvador, porque estava suspensa há 20 anos; a inauguração do metrô que é uma obra desejada na capital baiana há cerca de 25 anos e finalmente e graças ao presidente Lula, ao então ministro Jaques Wagner, a bancada federal da Bahia, pluripartidariamente, a Câmara de Vereadores a Assembléia Legislativa. Enfim, foram várias caravanas de políticos da Bahia pedir o reinício das obras do metrô, que estavam paradas quando eu tomei posse, há dois anos. Então na medida em que foi eleito para a prefeitura de Salvador uma pessoa de pleno diálogo e confiança do presidente Lula, apoiado pelo então ministro Wagner e deputados da Bahia, o presidente entendeu que deveria reiniciar as obras.

AT | Quando afinal, o metrô deve ser inaugurado?

JHC | Em um ano. Estive recentemente em Brasília onde falei com o ministro das Cidades Márcio Fortes e ele me garantiu que quer dar a volta inaugural, junto com o presidente Lula, exatamente há um ano. Mas sou movido a desafios e vou fazer um esforço para que essa obra seja entregue no dia do aniversário de Salvador, 29 de março de 2008. Agora é óbvio que uma obra desse porte e complexidade, tenha uma fase experimental. Seria leviano da minha parte dizer que o metrô vai entrar nos trilhos e funcionar normalmente nesse dia. É preciso um período de ajustes. Eu acho que mesmo que a gente inaugure no dia 29 de março, é provável que haja um pequeno período após, experimental, para que possamos depois dar acesso à população da forma mais segura possível, quando ele estiver 100% confiável para o transporte de 10.800 pessoas em cada viagem.

AT | A data da filiação do senhor no PMDB já está marcada?

JHC | Está dependendo da agenda dos ministros e senadores do PMDB. Estive em Brasília com alguns deles e tudo indica que entre os dias 20 e 30 deste mês.

AT | Essas alianças com os governos federal e estadual são fundamentais para os prefeitos?

JHC | Eu tenho tido reuniões na Frente Nacional de Prefeitos, nesses dois anos que estou como presidente da região Nordeste, e pude observar que muitas capitais e grandes cidades alinhadas político-partidariamente ao centro do governo federal, e que têm parcerias com os governos estadual e federal, conseguem acelerar mais rápido seus passos. Pude ver o quanto a relação harmoniosa, integrada de algumas capitais com os governos estadual e federal, ela pode alavancar essas administrações municipais que hoje estão assoberbadas de responsabilidades. Até que não são da nossa alçada, a população por desconhecimento atribuem ao prefeito. Tudo é cobrado ao prefeito, além de ser o poder mais próximo da população.

AT | A prefeitura tem dificuldades para gerir recursos?

JHC | A prefeitura levou décadas e décadas sendo administrada dentro de um conceito de dependência crônica do Estado. Eu me lembro que meu pai (João Durval) quando era governador, passava praticamente todos os meses as verbas para o pagamento de folha de pessoal para o prefeito da época. Essa dependência pode ter facilitado, mas também viciou e condenou o poder público municipal a ser o `eterno filhinho de papai` e não buscar a sua maioridade político administrativo financeira.

Fonte: Jornal A Tarde

Repórter: Biaggio Talento

13/05/07