Reitor chama estudantes de medicina de traidores

08/05/2008
O reitor da Ufba, Naomar de Almeida Filho, acusa estudantes de traidores por terem boicotado o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) e atribui a crise da Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb) a um problema de gestão acadêmica do curso. Já o diretor da Fameb, José Tavares Neto, deposita a responsabilidade do mau desempenho dos estudantes na omissão da Reitoria, que `ignorou` uma lista apresentada em 2004 com 27 itens que sugeriam, inclusive, a suspensão do vestibular até que fossem solucionadas as deficiências estruturais do curso. Embora ninguém assuma publicamente, comentários no meio acadêmico dão conta de que a questão é política.

Apesar de o Ministério da Educação (MEC) ainda não ter repassado o índice de abstenção no exame, para o reitor, os coeficientes de rendimento dos estudantes reforçam a suspeita de boicote. `Já buscamos a lista dos alunos que concluíram medicina no ano passado e o coeficiente de rendimento é altíssimo. É uma média de 8,5, o que significa um desempenho excepcional`, pontua Naomar. Para ele, `quem entregou a prova em branco ou respondeu apressadamente cometeu uma traição à Ufba e à educação pública`.

O fato de a faculdade ser tradicionalmente conhecida por abrigar em sua maioria estudantes de classes média e alta dá vazão a novas críticas por parte de Almeida. `Cursam seis anos sem pagar um centavo porque é uma instituição sustentada pelo dinheiro do povo e, ao sair, deixam na faculdade uma mácula de desempenho negativo. O boicote não foi por um motivo político justo, mas por um egoísmo inigualável. É uma turma que ficará marcada na universidade como traidora e desleal à instituição pública que a acolheu`, avalia o reitor.

Já o diretor José Tavares Neto preferiu silenciar. Em nota, informou que só voltará a conceder entrevistas ou convocar a Congregação da Faculdade de Medicina da Bahia `após conhecer do magnífico reitor da Ufba as orientações ou as informações, de natureza acadêmica e/ou institucional, as quais serão solicitadas hoje (ontem)`. Na nota, Tavares coloca ainda que nos últimos sete dias `têm circulado algumas notícias de fonte sem aparente cuidado com a verdade, com a qualidade do ensino médico ou oferecendo falsas interpretações; todas essas com o claro objetivo de distorcer a realidade da FMB-Ufba ou a criação de novos factóides`.

Corrupção - Com relação às acusações de corrupção e beneficiamento em fraudes reveladas pela Operação Jaleco Branco, o reitor diz que a denúncia não o envolve diretamente, mas lhe diz respeito pelas suas responsabilidades como gestor. `É uma denúncia de má-fé em relação a minha responsabilidade no caso. A universidade foi vítima e isso é objeto de inquérito na Polícia Federal. Não temos nada a temer, agora cabe aos denunciantes que provem porque as acusações configuram um crime de calúnia`, disse Naomar, que não descarta a possibilidade de acionar a Justiça Federal, o Ministério Público Federal ou a Polícia Federal para tratar da questão.

Já na esfera administrativa, o reitor afirmou que se há dirigentes transgredindo regras básicas e não comprovarem a denúncia, serão sujeitos às sanções cabíveis. Ele sugere ainda que a denúncia está sendo usada como uma cortina de fumaça para esconder um fato indelével que foi o desempenho no Enade. `Aguardamos que a denúncia nos chegue pelas vias corretas`, completou Almeida, afirmando ainda que a crise é da Faculdade de Medicina e, quanto mais rápido for superada, será melhor para a instituição e para toda a Bahia.

Quanto à lista de 27 itens apresentada por Tavares Neto, o reitor disse que discorda que eles tenham interferido no desempenho e coloca a Fameb como uma faculdade que possui diversas benesses. Dos 500 professores substitutos que existem na Ufba, por exemplo, ele diz que 101 estão em medicina e dos quase dois mil professores da instituição, a faculdade abriga 308. Ele também afirma que os números de leitos ofertados nos hospitais universitários é de 609 e não apenas os 290 informados pelo diretor da Fameb.

Alega ainda que, embora as queixas do diretor da Fameb incluam o número de leitos insuficientes, a própria essência da reforma curricular defendida pela faculdade prevê a retirada dos alunos dos hospitais para colocá-los em prática no sistema de saúde.

*** Duas comissões avaliam Fameb

O reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Naomar de Almeida Filho, anunciou ontem a criação de uma comissão especial para analisar as condições de funcionamento do curso de medicina. Foi criada ainda uma segunda comissão, de Processo Administrativo Disciplinar (PAD), que irá analisar a conduta do ex-coordenador da Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb), Antonio Natalino Dantas. Enquanto a primeira contará com o prazo de 60 dias para emitir um parecer, a segunda terá 30 dias.

A comissão especial é composta por quatro professores e um estudante que deverá ser indicado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE). Já a comissão que está à frente do PAD é composta por três docentes que, entre outros fatores, irão avaliar se houve indícios de racismo, quebra de ética e de responsabilidade. `São duas medidas previstas e pertinentes no estatuto da universidade`, considerou o reitor Naomar.

A decisão de criar as comissões saiu da reunião realizada anteontem com a Câmara de Graduação. `É uma forma de a instituição dar contar da sua responsabilidade diante dos recentes episódios ocorridos na Faculdade de Medicina, tanto no que diz respeito ao desempenho dos alunos no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), quanto a conduta do ex-coordenador do curso`, justificou o reitor, acrescentando ainda que o fato de o curso de medicina da Ufba estar entre os 17 com menores desempenho do país representa um dano irreparável para a universidade.

Com relação ao posicionamento do Ministério da Educação (MEC), Naomar informou que o órgão vai solicitar um diagnóstico pontuando uma série de questões a serem avaliadas conjuntamente, que contribuíram para o mau desempenho no exame. A partir desse diagnóstico, a faculdade vai propor ao MEC um plano de saneamento. `O MEC já informou que, assim como ocorreu com os cursos de direito e pedagogia, os cursos de medicina que não responderem ao plano de saneamento serão fechados`, disse o reitor.

*** COMISSÕES

Para analisar as condições de funcionamento do curso de medicina.

Regina Cerqueira Wanderley Cruz - representante da Faculdade de Odontologia no Conselho de Ensino e Pesquisa (Consep) e presidente da Câmara de Ensino e Graduação.

Mônica Cristina Cardoso da Guarda - representante da Escola Politécnica no Consep

Nilza Maria Costa dos Reis - representante da Faculdade de Direito no Consep

Fernando Martins Carvalho - representante da Faculdade de Medicina no Consep

Um estudante ainda a ser definido pelo DCE

Para desenvolver processo administrativo-disciplinar (PAD)

Ordep Serra, do Departamento de Antropologia e pró-reitor de extensão

Heloniza Oliveira Gonçalves Costa - da Escola de Enfermagem e presidente do Fórum Comunitário de Combate à Violência

Daniel Tourinho Peres - da Faculdade de Filosofia e membro da Comissão Ética do Hospital Universitário

Repórter: Perla Ribeiro

Em 8/05/2008.