11/06/2012
Quando a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) abrir, amanhã, as propostas das operadoras para as licenças da quarta geração de telefonia celular (4G), será dada início a uma corrida para oferecer velocidades de acesso até dez vezes mais rápidas que a média atual. O leilão é uma ótima notícia para o consumidor brasileiro, acostumado ao tráfego lento de boa parte da infraestrutura atual, mas marca a chegada de uma nova tecnologia quando a adoção da geração anterior - a 3G - permanece incompleta.
Até março, a 3G estava disponível em apenas pouco mais da metade dos municípios brasileiros. O número exato era de 51,8% - ou 2.883 das 5.565 cidades brasileiras - segundo a consultoria Teleco. Para os moradores dos demais municípios, portanto, o acesso rápido à internet só podia ser feito por meio de serviços de banda larga fixa. Os smartphones - os celulares com recursos avançados, incluindo navegação veloz na web - eram praticamente inúteis para esse público.
É preciso considerar que os municípios atendidos equivalem a quase 85% da população. Além disso, pelo cronograma estabelecido pela Anatel, a maior parte da programação está sendo cumprida, com poucos atrasos. A qualidade do serviço, no entanto, deixa a desejar em muitas áreas.
Tome-se o exemplo dos incidentes ocorridos em abril, na cidade de Teresópolis, no Rio de Janeiro, onde há 100% de cobertura. O sinal 3G falhou, impedindo o monitoramento dos pluviômetros instalados nas comunidades locais. As sirenes de alerta de chuvas simplesmente não foram acionadas. Cinco pessoas morreram à época.
No exterior, a tecnologia 3G começou a ser adotada em 2003, atingindo 80% da Europa em 2005. A 4G só iniciou sua trajetória nesses países em 2010. Em muitos lugares, como nos Estados Unidos, a `janela` entre uma padrão e outro foi de sete anos. No Brasil, a Anatel licitou as faixas de radiofrequência 3G em 2007, com as primeiras transmissões em setembro de 2008. A previsão é que a 4G só comece a ser oferecida em 2013, mas as operadoras terão de preparar suas redes muito antes que isso. O resultado é que as teles terão de investir pesado na 4G com parte da infraestrutura 3G ainda pendente.
Mesmo para as grandes teles, acostumadas a investimentos maciços, a conta é pesada. Para o leilão de amanhã, o governo federal exigiu das operadoras garantias de até R$ 15,8 bilhões para manutenção dos contratos e plano de metas.,p> Há outra questão fundamental, embora pareça um detalhe. As redes 4G vão exigir pelo menos três vezes mais antenas que as existentes atualmente, um desafio para as teles devido ao emaranhado de legislações municipais existentes, que só tende a ficar pior com a proximidade das eleições. Sem resolver esses pontos, o risco é de um apagão 4G, segundo profissionais do setor.
A Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, que serão realizadas no Brasil, são fatores de pressão. Em aparições públicas, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tem repetido que a sobreposição tecnológica é justificável para que o país ofereça um serviço de ponta nos eventos esportivos que ocorrerão a partir de 2013, como a Copa das Confederações.
A preocupação do governo é que os visitantes estrangeiros, que desembarcarão com celulares 4G no país, possam usar a tecnologia, sem problemas para utilizar os recursos mais avançados, como assistir a vídeos em tempo real.,p> A despeito desses argumentos, muitas pessoas no setor criticam o que consideram um atropelo tecnológico. `Seria mais sensato que a Anatel se comprometesse a consolidar a rede 3G com um plano de metas adequado, aumentando gradualmente as velocidades da banda larga`, diz Ruy Bottesi, presidente da Associação dos Engenheiros de Telecomunicações (AET). Pelas regras atuais, a fornecedora do serviço pode oferecer apenas 10% da capacidade contratada - por exemplo, 1 megabit por segundo (Mbps) para quem tem um contrato de 10 Mbps. O mínimo recomendável, diz Bottesi, é que a garantia fosse de 20%.
A TIM inicialmente se opôs ao leilão 4G por avaliar que a 3G ainda está em fase de expansão. Segundo Mario Girasole, diretor de assuntos regulatórios da tele, `a tecnologia está em plena fase de amadurecimento`. Para não ficar fora da próxima onda, no entanto, a empresa participa da licitação 4G. Vivo, Oi, Claro, Sunrise e Sky também fizeram propostas.
Para os fabricantes de equipamentos, como Huawei, Alcatel-Lucent, Nokia Siemens, ZTE e Ericsson, a evolução tecnológica levou à criação de uma infraestrutura que funciona sob os dois padrões. `Tivemos de produzir esses equipamentos para reduzir o custo para as operadoras`, disse Lourenço Coelho, diretor de estratégia da Ericsson. A vantagem é não ter de trocar toda a infraestrutura. Em contrapartida, o investimento inicial é alto: cada estação custa de R$ 300 mil a R$ 500 mil.
Autor(es): Por Juliana Colombo | De São Paulo
Valor Econômico - 11/06/2012.
Até março, a 3G estava disponível em apenas pouco mais da metade dos municípios brasileiros. O número exato era de 51,8% - ou 2.883 das 5.565 cidades brasileiras - segundo a consultoria Teleco. Para os moradores dos demais municípios, portanto, o acesso rápido à internet só podia ser feito por meio de serviços de banda larga fixa. Os smartphones - os celulares com recursos avançados, incluindo navegação veloz na web - eram praticamente inúteis para esse público.
É preciso considerar que os municípios atendidos equivalem a quase 85% da população. Além disso, pelo cronograma estabelecido pela Anatel, a maior parte da programação está sendo cumprida, com poucos atrasos. A qualidade do serviço, no entanto, deixa a desejar em muitas áreas.
Tome-se o exemplo dos incidentes ocorridos em abril, na cidade de Teresópolis, no Rio de Janeiro, onde há 100% de cobertura. O sinal 3G falhou, impedindo o monitoramento dos pluviômetros instalados nas comunidades locais. As sirenes de alerta de chuvas simplesmente não foram acionadas. Cinco pessoas morreram à época.
No exterior, a tecnologia 3G começou a ser adotada em 2003, atingindo 80% da Europa em 2005. A 4G só iniciou sua trajetória nesses países em 2010. Em muitos lugares, como nos Estados Unidos, a `janela` entre uma padrão e outro foi de sete anos. No Brasil, a Anatel licitou as faixas de radiofrequência 3G em 2007, com as primeiras transmissões em setembro de 2008. A previsão é que a 4G só comece a ser oferecida em 2013, mas as operadoras terão de preparar suas redes muito antes que isso. O resultado é que as teles terão de investir pesado na 4G com parte da infraestrutura 3G ainda pendente.
Mesmo para as grandes teles, acostumadas a investimentos maciços, a conta é pesada. Para o leilão de amanhã, o governo federal exigiu das operadoras garantias de até R$ 15,8 bilhões para manutenção dos contratos e plano de metas.,p> Há outra questão fundamental, embora pareça um detalhe. As redes 4G vão exigir pelo menos três vezes mais antenas que as existentes atualmente, um desafio para as teles devido ao emaranhado de legislações municipais existentes, que só tende a ficar pior com a proximidade das eleições. Sem resolver esses pontos, o risco é de um apagão 4G, segundo profissionais do setor.
A Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, que serão realizadas no Brasil, são fatores de pressão. Em aparições públicas, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tem repetido que a sobreposição tecnológica é justificável para que o país ofereça um serviço de ponta nos eventos esportivos que ocorrerão a partir de 2013, como a Copa das Confederações.
A preocupação do governo é que os visitantes estrangeiros, que desembarcarão com celulares 4G no país, possam usar a tecnologia, sem problemas para utilizar os recursos mais avançados, como assistir a vídeos em tempo real.,p> A despeito desses argumentos, muitas pessoas no setor criticam o que consideram um atropelo tecnológico. `Seria mais sensato que a Anatel se comprometesse a consolidar a rede 3G com um plano de metas adequado, aumentando gradualmente as velocidades da banda larga`, diz Ruy Bottesi, presidente da Associação dos Engenheiros de Telecomunicações (AET). Pelas regras atuais, a fornecedora do serviço pode oferecer apenas 10% da capacidade contratada - por exemplo, 1 megabit por segundo (Mbps) para quem tem um contrato de 10 Mbps. O mínimo recomendável, diz Bottesi, é que a garantia fosse de 20%.
A TIM inicialmente se opôs ao leilão 4G por avaliar que a 3G ainda está em fase de expansão. Segundo Mario Girasole, diretor de assuntos regulatórios da tele, `a tecnologia está em plena fase de amadurecimento`. Para não ficar fora da próxima onda, no entanto, a empresa participa da licitação 4G. Vivo, Oi, Claro, Sunrise e Sky também fizeram propostas.
Para os fabricantes de equipamentos, como Huawei, Alcatel-Lucent, Nokia Siemens, ZTE e Ericsson, a evolução tecnológica levou à criação de uma infraestrutura que funciona sob os dois padrões. `Tivemos de produzir esses equipamentos para reduzir o custo para as operadoras`, disse Lourenço Coelho, diretor de estratégia da Ericsson. A vantagem é não ter de trocar toda a infraestrutura. Em contrapartida, o investimento inicial é alto: cada estação custa de R$ 300 mil a R$ 500 mil.
Autor(es): Por Juliana Colombo | De São Paulo
Valor Econômico - 11/06/2012.