Empresas reforçam formação de pessoal no NE

19/04/2007
Estaleiros, construção civil, comércio, petroquímicas e empresas de logística buscam desde técnicos especializados até gerentes e diretores. Para suprir as deficiências, muitas companhias investem na formação básica dos funcionários.

O estaleiro Atlântico Sul só dará início à construção de navios em 18 meses. Mas os executivos da empresa já estão quebrando a cabeça para solucionar um problema: encontrar mais de 3.000 pessoas para trabalhar no projeto. Mão-de-obra sem emprego não falta na região metropolitana do Recife. São cerca de 340 mil pessoas desempregados - 20,4% da população economicamente ativa -, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O problema é que essa população não está habilitada a erguer petroleiros.

Com a indústria naval desativada no país há cerca de duas décadas, o Atlântico Sul não tem a disposição profissionais como soldadores, encanadores e caldeireiros. Mas o estaleiro não será o único empreendimento a enfrentar esse problema no Estado. Até 2010, outros três projetos devem ser erguidos no Estado: uma refinaria, uma petroquímica e um pólo de produção de filamentos de poliéster. Somados ao estaleiro, eles criarão quase 8.000 vagas.

O desafio que se impõe ao Estado, aos municípios e aos investidores privados é capacitar essa mão-de-obra num curto espaço de tempo. `Sabíamos que teríamos que formar pessoas, só não imaginávamos que isso seria tão complicado`, afirma Fábio Kakimoto, diretor de recursos humanos do estaleiro. Inicialmente, o estaleiro achou que o programa de treinamento criado pela Petrobras, que investiu na capacitação de profissionais para a área de petróleo e gás por meio do Programa de Mobilização da Indústria do Petróleo e Gás (Prominp), seria suficiente.

O Atlântico Sul, porém, logo percebeu limitações. O programa exige que as pessoas tenham, no mínimo, o primeiro grau completo, mas um levantamento constatou que os moradores de Ipojuca (PE), município onde o estaleiro está se instalando, possuem em média 3,6 anos de estudo.

A solução que vem sendo desenhada é uma parceria entre o município, o Estado, o Atlântico Sul e o Prominp. O governo deve dar um curso de nivelamento com aulas de português, matemática e raciocínio lógico. Parte disso será custeado pelo estaleiro, que ainda dividirá as despesas dos cursos técnicos com o Prominp. Somente para fazer esse nivelamento, deverão ser gastos cerca de R$ 8 milhões, despesa que será dividida entre Estado, municípios e as empresas que se instalam na região.

Bahia enfrenta dificuldades

Na Bahia, as empresas enfrentam problemas semelhantes aos do Atlântico Sul. Em seus dois anos de vida, o serviço de intermediação de mão-de-obra da prefeitura de Salvador registra 132 mil pessoas interessadas em arranjar trabalho. Nesse período, o programa, conhecido pela sigla SIMM, captou 41,7 mil postos de trabalho, mas apenas 18 mil delas foram preenchidas.

A dificuldade em preencher as vagas decorre da baixa capacitação de boa parte dos inscritos, diz a gerente do SIMM, Rita Lélis. `É defeito da formação básica. Muitas pessoas com ensino médio completo não passam por um teste simples de interpretação de texto`, disse.

O programa opera mais com vagas que não exigem curso superior, como de comerciário ou operador de telemarketing, mas oferece também oportunidades para engenheiros, assistentes sociais, médicos e técnicos industriais. Cerca de 15% do total de postos faz parte desse contingente, mas mesmo esses postos acabam não sendo preenchidos.

O índice de desemprego na região metropolitana de Salvador é de 22,3%, o mais alto do país. A deficiência na formação escolar, um problema não apenas local, não explica, sozinho, o número alto de desempregados, avalia a gerente do SIMM. `Sobra emprego em manufatura mais tradicional, de costureira ou eletricista. Muitos jovens saem da universidade com a ilusão de que vão todos trabalhar em frente a um computador`, diz ela. `Ninguém quer ser pedreiro`.

A aquecida indústria de construção civil de Salvador tem ajudado a recolocar no mercado engenheiros e técnicos em edificações, diz Walter Barretto, vice-presidente da Associação dos Empresários do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA). `Ainda há muita gente para ser absorvida pelo setor, mas deveremos ter problemas logo, logo`, disse. `Há poucos cursos técnicos voltados à área e a qualidade da mão-de-obra tem caído por deficiência na educação`. Em 2006, as vendas das associadas da Ademi baiana cresceram 38% em relação a 2005. Foram vendas de imóveis que começarão a ser construídos neste ano.

A baixa oferta de mão-de-obra especializada levou a Conseil, empresa de transporte e logística de origem baiana, a lançar neste ano um programa de formação de seus próprios executivos. Sessenta de seus quase dois mil funcionários foram selecionados para um programa de um ano de treinamento. A idéia é que eles comecem a ser preparados para comandar a companhia no futuro. Segundo o presidente da Conseil, Pablo Garcia, o crescimento do mercado exige que a empresa amplie em 20% seu quadro de gerentes e diretores a cada ano.

A principal dificuldade que as empresas encontram em Pernambuco atualmente é encontrar técnicos, principalmente mecânicos, elétricos e eletrônicos. As vagas de cursos técnicos atingem apenas 2,5% da população com perfil para esse tipo de formação, de acordo com dados da Secretaria de Ciência e Tecnologia. São 20,5 mil vagas em todo o Estado. `A carência é tão grande que o salário dos técnicos já se iguala ao valor que os graduados recebem`, afirma Ana Thereza Almeida, da Fator Humano, empresa pernambucana de contratação.

É a dificuldade que o estaleiro está encontrando. `As pessoas muitas vezes se preocupam em ter o nível superior, mas um técnico é muito valorizado pelas empresas. Eles têm o conhecimento específico que buscamos`, explica Edilson Rocha Dias, diretor-executivo do Atlântico Sul.

Para garantir que terão um técnico, as companhias também têm preferido contratá-los como estagiários quando eles ainda estão estudando. `Quem espera para empregar técnicos formados não encontra`, diz Sumaia Ferreira, diretora da Agregar RH. Neste momento, o governo está mapeando a necessidade de técnicos em Pernambuco para definir quais tipos de cursos e quantas vagas criará. `O que já temos claro é que nossa prioridade será a criação de programas profissionalizantes`, diz Aristides Monteiro, secretário de Ciência e Tecnologia.

O governo dividiu o Estado em 12 áreas econômicas e pretende implantar uma escola técnica em cada uma dessas regiões, gerando mão-de-obra para as empresas. Para Monteiro, não existe a necessidade de criação de novas vagas na graduação. `Acreditamos que há um grande contingente de pessoas formadas desempregadas. Talvez baste para esse grupo uma reciclagem ou uma migração de área.`

Fonte: Valor 19/04/2007