Com reverência a Ogum, tapete branco do Afoxé Filhos de Gandhy espalha tradição, fé e diversidade no Centro Histórico

02/03/2025
Gandhy

Uma onda azul e branca, brindando a paz, tomou conta do Centro Histórico de Salvador durante a saída do Afoxé Filhos de Gandhy neste domingo de Carnaval (2). Com o tema "Ogum, Senhor do Ferro, dos Metais e da Tecnologia", o tradicional "tapete branco", batizado pela cor predominante da indumentária, concentrou-se na sede do bloco, no Pelourinho, e seguiu até o Circuito Osmar, no Campo Grande.

As atividades da agremiação, que completou 76 anos em fevereiro, foram abertas com o padê - cerimônia de oferenda a Exu, entidade das religiões de matriz africana. Envolvidos pelos cânticos sagrados, os associados pediram bênçãos para a passagem da agremiação. O presidente do Afoxé, Gilsoney de Oliveira, celebrou o momento.

"São 76 anos de Filhos de Gandhy e seguimos no mesmo intuito de divulgar a nossa mensagem de paz, harmonia, pedindo bênção aos nossos ancestrais por um carnaval sem violência. É isso que nós pregamos", pontuou.

A soltura das pombas brancas, que simbolizam a paz, acompanhada dos primeiros toques do agogô, oficializou a partida dos seguidores de Gandhy. Turbantes, contas e borrifadas de alfazema embelezaram o cortejo que emociona há mais de 30 anos o associado Edson das Dores, que ressaltou a importância do Afoxé.

"A gente celebra a paz e a cultura do Gandhy. O azul é de Ogum, o branco é de Oxalá, e a minha fé é que me move nessa caminhada há 35 anos. Esses meninos que estão chegando agora acham que o Gandhy é só pegar colar para sair paquerando, não valorizam a nossa cultura", alertou.

Gandhy

Apesar da predominância masculina, o cortejo contou com a presença de pessoas de todos os gêneros e idades. A foliã Ingrid Santos levou seu filho, Lorenzo, que, paramentado de "Gandhynho", curtiu a folia em família. "Muitas pessoas da nossa família vêm para o Gandhy e essa tradição passa por gerações. Aproveito para trazer meu filho para aprender a importância do bloco desde pequeno".

O Filhos de Gandhy segue espalhando seu legado para o Carnaval 2025 com participação nesta segunda-feira (3) no Circuito Barra-Ondina e na, terça-feira (4), no Circuito Osmar.

Combate à violência e protagonismo feminino

Um dos grandes desafios da agremiação é atuar no combate à violência e ao assédio contra as mulheres. Durante o percurso, o bloco divulgou a Campanha Sinal Vermelho, ação que visa proteger o público feminino de possíveis abusos.

Outra iniciativa para garantir a defesa de direitos e o protagonismo feminino foi a criação do Afoxé Filhas de Gandhy, em 1979. A coordenadora geral do grupo, Silvana Magda, ressaltou a importância desse debate.

"Sempre estamos trabalhando sobre o tema violência e assédio, porque é importante essa questão de respeitar o corpo da mulher e o espaço. Na maioria das tradições, a gente sabe que o protagonismo masculino é muito forte, então, se você reclama, dizem que é muito 'mimimi', e muitas mulheres se condicionam a esse assédio, como uma coisa natural. O 'não é não' precisa ser reforçado sempre", disse.

Respeito à diversidade

O casal Diorgenes Guedes e Jeferson Cavalcante decidiu derrubar as barreiras do preconceito e foi para o cortejo de mãos dadas, celebrando a diversidade. Guedes, que é associado há 20 anos, levou seu companheiro para o bloco pela primeira vez e falou sobre a sensação.

"O preconceito existe dentro e fora do bloco. Sou homossexual, casado, e trouxe meu esposo pela primeira vez e me sinto feliz. Eu acho que, durante esses anos que venho acompanhando o Gandhy, tem diminuído bastante essa questão do preconceito".

 

 

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