Este ano, o bloco afro Muzenza do Reggae, símbolo de resistência, cultura e ancestralidade, mais uma vez revolucionou toda trajetória dos concursos de musas e deusas, com a eleição da primeira rainha trans para o Carnaval de Salvador. Em um momento histórico para os movimentos afro-brasileiros e para a comunidade LGBTQIAPN+, Paloma Basttos, 24 anos, foi eleita como a primeira mulher trans ‘Muzembela’. Com essa ação o grupo reafirma seu compromisso com a inclusão, representatividade e valorização da diversidade.
O anúncio da coroação foi feito durante o último ensaio geral para o Carnaval 2025, no Largo Pedro Archanjo, Pelourinho. A ação integrou o edital Ouro Negro que concede apoio financeiro às entidades de matrizes africanas, no suporte para a realização de ações durante todo o ano e na promoção dos seus desfiles carnavalescos. Este ano, em uma das maiores edições desde a concepção do projeto em 2008, 110 instituições culturais foram contempladas pelo governo do estado.
Com sua rebeldia, sentimento inclusivo e responsabilidade com a diversidade, não é a primeira vez que o bloco faz história com suas musas. Em 2019, a agremiação elegeu Josimare Cristo Reis como a primeira rainha cadeirante da folia momesca. Desta vez, a escolhida como a bela do Muzenza foi a mulher trans, moradora do Bairro da Lapinha, a trancista Paloma Basttos. A coroação reforça a luta por espaços de visibilidade e respeito, e pelo reconhecimento das pessoas trans dentro da cultura carnavalesca e das tradições da cultura afro-brasileira. “Hoje, eu estou sendo reconhecida perante a sociedade,família e amigos. Então eu descrevo esse momento com a palavra, superação.”, disse a afro-empreendedora.
Superar é algo inerente a vida de toda mulher preta, sendo ela uma mulher trans os desafios se multiplicam. Paloma se descreve como uma mulher batalhadora, guerreira e que tem lutado muito para conquistar seu espaço. “Eu sou uma mulher sozinha, que corre atrás dos seus objetivos.”, enfatizou a dançarina.
Essa escolha não representa somente um título, a Rainha do Muzenza carrega o legado de transformação social, que celebra a pluralidade do povo negro e amplia espaços de protagonismo dentro do Carnaval. Além de reafirmar o compromisso do reconhecimento da diversidade, replicando as ideias de liberdade e respeito que o bloco leva há mais de 40 anos. “É importante saber que ocupo esse espaço, e mostrar para as pessoas quem realmente eu sou, quem realmente nós mulheres trans somos, e do que a gente é capaz”, seguiu dizendo Paloma.
“É com imenso prazer que eu falo a respeito dessa ação inclusiva. Simplesmente é um ato natural do Muzenza, por já está no seu DNA, que faz com que sempre tenhamos essas atitudes de inclusão. Já tivemos ala de PCDs cadeirantes, nomeamos uma PCD rainha e outras ações. Agora, no momento em que se fala tanto em diversidade de gênero, resolvemos nomear uma mulher trans rainha do Muzenza para o Carnaval 2025. Pois a diversidade de gênero é muito importante, pois promove a inclusão, permitindo que as pessoas sejam quem são, sem medo.”, afirma Jorge Santos, presidente do Muzenza.
Histórico
O Muzenza nasceu em 5 de maio de 1981, no bairro da Liberdade, como um tributo a Bob Marley e ao reggae jamaicano, incorporando elementos do samba reggae, um ritmo criado pela fusão do suingue afro-baiano com o reggae. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como referência cultural e musical, conquistando doze títulos em treze carnavais disputados.
O bloco contou com três apresentações no Carnaval deste ano, desfilando pela primeira vez no sábado (1), no Circuito Osmar, Campo Grande. Segunda-feira (3), a entidade desfila no Circuito Dodô, Barra. E terça-feira (4), último dia de festa, a agremiação encerrará sua participação neste carnaval retornando para a passarela Nelson Maleiro, no Campo Grande.
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