“E a gente vai fazer um carnaval, uma alegria, amor sem fim". Foi com essa música que o Adão Negro, prestes a completar 30 anos, convidou o público para celebrar a alegria do Carnaval. ‘Anjo Bom’ foi uma das primeiras músicas do repertório, cantada em uníssono pelas vozes dos fãs que lotaram o Largo do Pelourinho na noite desta segunda-feira (3). Unindo letras que falam de amor ao ativismo social, a banda fundada em meados de 1996 vem reafirmando sua trajetória no reggae brasileiro.
Com um público fiel que o acompanha há décadas, o grupo vem mostrando que o reggae tem espaço para tocar onde quiser. “Eu acho que a gente tem que tocar em tudo quanto é lugar. Isso foi uma coisa que o Adão decidiu logo cedo, então, vou falar uma pauta aqui que vocês vão dar risada: Ivete Sangalo, Calcinha Preta e Adão Negro. Aconteceu. Já abrimos um show para 50 Cent aqui em Salvador. A gente sempre achou que deveríamos dar oportunidade ao público de ouvir a nossa música”, declarou o vocalista e guitarrista, Sergio Cassiano, mais conhecido como Serginho.
A dinamização dos espaços onde o reggae precisa estar inserido passa por não ter preconceito sobre outros estilos musicais, a exemplo do pagode. “O reggae sofre do que a gente chama de um processo de autoexclusão, que é o de achar que não pode tocar onde toca o pagode. É muito interessante a gente chegar nas comunidades e ver meninos de 13 anos cantando Edson Gomes, porque existe um sentido de ancestralidade e religação. Todas as vezes que somos convidados para uma festa, nós vamos, porque a gente acredita que o destino do reggae está onde o povo está”, afirmou Serginho.
No show, destaque para a homenagem ao ícone Bob Marley que, nascido no dia 6 de fevereiro de 1945, estaria completando 80 anos se estivesse vivo. Abrindo o time de convidados, a música ‘I shot the sheriff’ foi tocada ao lado da cantora americana Princess La Tremenda. Depois, a popular ‘Malandragem dá um Tempo’, de Bezerra da Silva, foi puxada por linhas de baixo junto aos versos "vou apertar, mas não vou acender agora", introduzindo um dos maiores sucessos da banda, ‘Botar um’. A plateia reconheceu os primeiros acordes do instrumento.
A segunda convidada da noite foi a cantora Clariana, que trouxe a música de outro reggaeman, desta vez, baiano. ‘Árvore’, de Edson Gomes, emocionou o público, que fez coro no refrão "Vem me regar mãe, vem me regar”. Jeremias Gomes, filho de Edson Gomes, era uma das vozes presentes na galera. Em seguida, Prince Ádammo subiu ao palco encerrando a participação dos convidados. A frase "pare de matar o povo preto, pare de matar as pessoas do gueto, deixe a gente viver em paz" foi declamada com muita potência, em um encontro de vibrações.
Para a estudante Jamaira da Silva, 28 anos, “o show de Adão Negro é sempre muito fantástico, grandioso, com as músicas que falam sobre paz, liberdade e resistência. Toda vez que eu vou, volto para casa muito renovada, cheia de axé. Para mim, é um mantra para continuar seguindo na base do reggae music, da paz, da tranquilidade, do amor, que é o reggae e a banda Adão Negro. Os acompanho desde muito nova e costumo dizer que é o meu presente de vida, já que eles nasceram no ano em que nasci, em 1996. Sempre que posso, acompanho a trajetória e o crescimento da banda, e cresci junto com ela, fazendo parte do meu repertório, mas também do meu ideal de vida”, contou.
O engenheiro civil Lucas Andrade, 27 anos, de Aracaju (SE), conheceu a banda por lá e adorou. “Tive a oportunidade de ir em outros shows deles em Aracaju e vim revê-los. É o primeiro Carnaval que venho passar em Salvador e estou achando top demais”, disse.
A chuva caiu de repente, fazendo com que Serginho prometesse descer para se molhar em meio ao público. Promessa cumprida. Desceu do palco para o delírio da multidão e, todo molhado, cantou grandes sucessos caminhando pelo chão de pedras do Pelourinho. A aproximação inundou a todos de alegria, lágrimas, sorrisos e diversão, mesmo em meio aos fortes pingos d’água.