O show da cantora carioca Teresa Cristina atraiu uma multidão para o Largo do Pelourinho neste domingo (02). Em um dia em que o samba foi o destaque, ela subiu no palco logo após a apresentação do cantor baiano Nelson Rufino. Durante o show, a artista enalteceu o Axé Music, falou de ancestralidade e da importância de se respeitar o samba.
- Foi a segunda vez que você se apresentou no Largo do Pelourinho, em Salvador. Como foi esse show para você e o que ele tem de diferente do show do ano passado?
Estou muito emocionada, porque meu pai era de Cachoeira, então eu tenho um carinho pela Bahia que vai além. Não é a artista que está falando, é a pessoa. Eu sou neta de Cachoeira, então minha família toda, meus tios todos vieram de Cachoeira. Minha avó, Ana, era de Cachoeira, de tabuleiro, e eu sempre ficava me perguntando: por que eu não canto na Bahia? Por que eu não consigo chegar na Bahia? Eu sempre fiquei com isso na cabeça.
- Esse ano a Axé Music está comemorando os 40 anos. Você incluiu músicas que dialoguem com esse momento no seu repertório?
Eu vim no ano passado e este ano são 40 anos de Axé. E 40 anos de Axé significa 40 anos de resistência negra, de uma resistência ancestral e eu fico honrada de ter sido chamada para estar aqui. Esse chão aqui do Pelourinho é um chão que mexe comigo. Desde o início do show, eu estava com vontade de chorar, estava emocionada e eu fiquei conversando com o meu povo, conversando com os meus Exus e pedindo clareza, inteligência, porque a gente está falando com as pessoas da rua, a gente está conversando com os invisíveis. Acho que além do povo que eu estava enxergando, senti que estava cantando também para quem eu não conseguia ver, quem eu não conseguia enxergar. Agradeço muito a Deus, agradeço muito a Exu que não pode ser esquecido em nenhuma festa. Nenhuma festa pode deixar de louvar Exu, nenhuma, então acho que a Bahia tem isso. Aprendi isso com Tia Ciata.
- Diante dessa emoção, como você pensou a escolha das músicas?
Eu peguei o meu show de pagode, do Pagode Preta, e coloquei samba reggae, muito Ijexá, falei de Orixás, falei de minha mãe Oxum, pensei muito em meu pai Xangô e pensei muito nas forças da natureza. Eu acho que o povo da Bahia não pode aprovar essa coisa de passar por cima do Orixá. Não pode. Você pode ter a religião que você tiver, mas você tem que respeitar e louvar o Orixá, porque é ele que coloca a gente aqui. Quem me trouxe hoje aqui foi o Orixá.
- Você tem um posicionamento político em seus shows. Como você lida com as questões políticas?
É porque tudo é política. Samba é política, música é política, tudo é política. A política está em tudo. A gente não pode desassociar isso e hoje a gente tem que pensar que ano que vem esse país vai estar em guerra e a minha mãe é a mãe do amor, mas ela também luta e as armas dela são invisíveis. Não pense que Oxum vai estar só chorando e só mostrando fragilidade, não. A Oxum vai estar a Oxum do Gantois, com a espada na mão e a gente vai vencer de novo, com a mão da Bahia.